26 abril, 2009

Nostálgica


Quando meu tio se foi, tudo mudou. É como se o castelo construído por minha avó há quase 60 anos tivesse desmoronado naquela manhã, e pior: sobre nossas cabeças. Ninguém sobreviveu ileso a sua partida.

Para mim, minha avó era o grande elo da nossa família, e qual não foi minha surpresa ao perceber que era ele, o filho pródigo, a maior ligação entre nós.

Junto com ele, se foram as tardes barulhentas; as confusões para saber que vai buscar a próxima cerveja; tantas gerações - pais, filhos, netos, primos e irmãos - se esbarrando na casa apertada, fazendo fila em frente ao fogão; a confortável falta de espaço que acalma qualquer alma. Tudo desapareceu.

Hoje, sequer nos vemos. Viramos pequenas famílias solitárias e silenciosas com cadeiras vazias ao redor da mesa. Lá em casa somos cinco, ansiosas pela chegada de novos ares, novos sorrisos que nos revigorem, carentes de barulho e emoção.

Por isso, participar de encontros entre famílias que ainda se abraçam, me deixa com um inevitável nó no peito. Tanto amor me apequena, e me joga nos braços de uma saudade gigante, das coisas que nunca mais hei de ter.

22 abril, 2009

Cinza rima com ranzinza


Existem coisas muito tristes na vida, dessas tristezas grandiosas, que cada um tem a sua e não dá para ficar mensurando o grau de importância delas. Mas tem outras menores, pequenos fatos que dificultam a manutenção da felicidade diária, e neste rol, um dia de chuva é o campeão, ganha a medalha de ouro da minha tristeza.


A noite chuvosa ganha a prata, porque ela ainda tem um lado positivo, oferece o conforto de um clima ameno na hora de dormir. Para o dia não tem desculpas. A chuva é o fator mais atrapalhante da rotina.


Acordar já é péssimo. A chuva tira o prazer de sentir os raios de sol atravessando a janela e esquentando o rosto, como quem avisa que o dia começou. O céu cinza me dá um sentimento depressivo, uma vontade de não sair de casa, de evitar todas as outras consequencias de um dia chuvoso. Mas não tem jeito. É preciso encarar a realidade nublada e isso requer cuidados especiais.


O primeiro é escolher uma roupa que seque rápido pra não passar o dia inteiro molhada. Depois, amarrar o cabelo de um jeito seguro e se conformar, porque a umidade vai sim deixá-lo terrível.


Na rua, atenção redobrada para não enfiar o pé num bueiro alagado e ainda tentar não ser alvo dos motoristas, que ganham espírito de esporte de aventura e se danam a jogar água nos pedestres nas calçadas.


No ônibus, todas as janelas estarão fechadas e o calor vai ser de matar. O trânsito, mais lento do que nunca.


Mas o dia mal começou... ainda tem a pior parte: o registro dos estragos. Um dia inteiro de notícias sobre carros quebrados, atrasos no trabalho, casas alagadas, vidas perdidas, dezenas de histórias que se apagaram em baixo d'água (ou seria melhor dizer afogaram?)


A verdade é que sou tão pouco romântica quando o assunto é chuva, que não gosto sequer do barulho dela caindo. Fico pensando que, forte daquele jeito, ela vai acabar derrubando uma árvore, ou pior, barreiras, lares.


Enquanto algum desavisado admira e escreve poesia para as gotas de chuva, tem alguém desesperado esperando elas passarem para recomeçar sua vida e, em algum lugar, um outro alguém resmunga por causa do frio.


Esse alguém sou eu.

18 abril, 2009

A primeira lembrança

Foto: arquivo da família


Até ali, nada existia. A vida da menina da forma como ela lembra começou naquela noite de dezembro. Os detalhes, a memória escolheu a dedo. Não lembra da cor da parede, nem se a casa já estava enfeitada para o Natal. Lembra apenas da mãe, vestida numa camisola verde-claro, entrando em casa com um pacote nos braços.

- Ela chegou, Sandrinha! É sua irmã. - uma voz comunicou.

A menina deixou para lá os brinquedos, levantou-se do chão e seguiu a mãe até o quarto, esticando o pescoço e a ponta dos pés para espiar dentro do embrulho. Em vão. O conteúdo só lhe foi revelado já no berço que, até pouco tempo, lhe pertencia. Lá estava uma coisa pequena e careca, encolhida naquele colchão tão enorme. Um momento guardado em tons laranja - a cor do abajur em forma de urso - única iluminação do quarto.

Ao longo de seus três anos de vida nunca havia visto nada igual. Talvez por isso tenha ficado tão impressionada com aquele ser, do tamanho de suas bonecas, mas real. Com uma pele cheia de dobras que se mexiam em movimentos lentos.

Ali estava seu mais novo presente, o melhor de todos, um brinquedo que, mesmo sem ter noção, sentia que seria seu pelo resto da vida.

Naquela noite não queria ir dormir. Montou guarda entre a porta do quarto e o berço. Fiscalizou as visitas. Várias vezes cochilou de pé e acordou assustada com medo de perder a irmã de vista.

Ela não lembra de ter visto a mãe grávida, nem de ter sido avisada que a casa ganharia uma nova moradora. Não lembra de nada. Para a menina, a vida começou com o rosto sereno da mãe trazendo o embrulho junto ao peito.

No dia 22 de dezembro as duas nasceram, e ela descobriu o maior amor de sua vida.

17 abril, 2009

Viagem

Meu bonde passa pelo mercado

Mário Quintana

"O que há de bom mesmo não está à venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento é a flor da eternidade!
Minha alegria aguda até o grito.
Não essa alegria alvar das novelas baratas,
Pois minha alegria inclui também minha tristeza
(- a nossa
Tristeza...
Meu companheiro de viagem, sabes?
Todos os bondes vão para o infinito!"

Para Kil.

14 abril, 2009

Detonada

Vomitar é quase sempre muito ruim.
A tontura, o suor frio, a moleza no corpo.
E quando a vontade vem no lugar e hora errados, deixa sujeira demais a ser limpa.
O único lado positivo é saber que não há mais nada preso na garganta.
Foram-se todos os pedaços, os incômodos guardados que o corpo não conseguia absorver.
Foram-se a angústia, os nós.
Chegou o alívio.
Um consolo a ser pensado na hora de limpar os restos.

11 abril, 2009

Páscoa Feliz - a viagem

Foto: eu mesma, na Pedra Furada (Venturosa)


Malas preparadas cuidadosamente no dia anterior. Roupas prontas para o calor, os ovos de Páscoa de Bento, nosso próprio kit chocolate. Um ótima noite de sono. Tudo organizado para a viagem de Páscoa. Visitar Teresa na Semana Santa é quase uma tradição e não havia razões para fazer diferente esse ano.

Então, lá fomos rumo a Arcoverde. Mas antes de pegar a estrada, preparativos básicos: enche o tanque, calibra os pneus, confere óleo e água. Beleza, né?


Beleza nada! Com uma hora de viagem o carrinho que, na semana passada, já havia nos deixado na maior roubada começou a dar sinais de que não suportaria uma viagem tão longa. Mesmo assim, seguimos em frente, ao som de Paulinho Moska. Até que, “eita”!


Não era nem Caruaru quando o danado do carro se negou a seguir em frente. E, mais uma vez, estávamos no meio da estrada, distante de qualquer ponto de apoio, à espera do guincho que decretaria o fim da nossa feliz Páscoa e nos traria de volta a casa.


Dentro do carro abafado, rezava para não ser assaltada no meia da estrada, para não levarem as câmeras, os relógios, os celulares. Para não nos matarem ali, em plena luz do dia. Uma oração dispersa, confundida pela vontade de encontrar uma solução que não a destruição do feriado. Depois de um tempo, eram tantas as hipóteses a serem estudadas que até o medo do caso virar primeira página de jornal desapareceu.


E enquanto, por quase uma hora esperamos o guincho e fizemos todas as contas possíveis, uma vozinha falou mais alto na minha cabeça: “liga o carro”. “tenta de novo”, ela sugeria. A repeti em voz alta, imediatamente. “Tenta ligar o carro de novo”.


Por consideração ao meu desespero, mas praticamente sem esperanças, o namorado atendeu ao pedido. Vrum, vrum, vrum...


E não é que o danado ligou? Claro, na maior moleza, mas com pique suficiente para chegar a uma oficina em Caruaru.


A solução não foi simples: bomba de gasolina, como já era previsto. Mas duas horas depois estávamos de volta aos planos.


Páscoa feliz, aí vamos nós.

07 abril, 2009

Páscoa feliz



Sou filha de uma mãe cujo lema era se virar como desse para garantir um dinheirinho no final do mês. Ela trabalhava como bancária, mas a principal atividade era mesmo a de vendedora. Minha casa era praticamente um depósito de cosméticos, tuperware, roupas e bugingangas vindas de Manaus, Caruaru ou Santa Cruz do Capibaribe.

A Páscoa, então, era sinonimo de alta produção. A casa inteira se transformava em oficina de chocolate. Tudo começava na cozinha, raspando a barra em cima do mármore, jogando tudo na panela, mexendo em banho-maria. De lá, direto para as forminhas de todos os tamanhos e formatos dos mais curiosos. Claro que tinham ovinhos e coelhos, mas não faltavam os modelos românticos (nem os safadinhos).

Quando tudo saia da geladeira, era a hora de ficar “respirando” numa mesinha no terraço. Todos os chocolates, brancos, pretos, com flocos e castanha, distribuidos como numa vitrine, pedindo para serem devorados. Para duas crianças, não meter a mão era o maior dos sacrifícios. E claro que tínhamos as nossas técnicas para driblar a vigilância e nos dar bem. Depois, era só acompanhar a embalagem em papéis e fitas coloridas.

Mainha confiava tanto em mim, que sempre me dava uma leva para vender na escola. Levava-os num isopor, vendia às colegas e professoras e não comia nenhum. À noite, quando entregava o apurado, podia escolher qualquer um para mim.

Há muito tempo o hábito mudou. Compramos os ovos prontos. Lá se foi a magia.

Até que esse ano, resolvi reviver a história, mas saindo do papel de espectadora para o de protagonista. Comprei a barra de chocolate, as forminhas (bem mais modernas que as de minha mãe), papéis coloridos e fitas.

As novas técnicas deixaram o trabalho bem mais ágil, mas não menos delicioso. Após uma breve consultoria telefônica com minha mestre, estavam prontos os ovos para as crianças. Dentro, um toque pessoal com fotos deles e votos de feliz páscoa. Embrulhei com cuidado, passei a fita e o adesivo com cara de coelho.

Lá estavam minhas obras de arte dignas de uma foto, à espera de seus donos. E como uma arte deste tamanho merece um retorno intelectual à altura, foi isso que tivemos com a pergunta de Riva.

- Nossa! Tem uma foto tua! Como será que ela foi parar dentro do ovo?

- Dããã, papai. Pensa que eu não sei que tu ligou pra fábrica e mandou a foto pra eles?

É, acho que o ovo caseiro foi aprovado.

27 março, 2009

De olho


Ontem de madrugada, enquanto votava sem parar no site do Big Brother, parei para pensar que merda era aquela que eu andava fazendo. (Parei em termos, não é, já que continuei votando enquanto fazia minha autoanálise).

Desde a primeira edição, não posso negar, o BBB é parte da minha rotina. Eu preciso estar em casa a tempo de assistir ao programa, e posso sair tranquila depois que Bial se despede. Na hora h, concentração total. Nada de conversas paralelas sobre assuntos sérios e relevantes. Importante mesmo é saber se o casal do momento já fez as pazes ou se mais alguém brigou feio com um colega da casa.

O que isso interfere na minha vida?

Em nada! Mas não consigo podar meu interesse, nem negar o quanto me divirto diante da TV.

BBB é melhor que novela das oito e o motivo é óbvio: eu posso participar!

Ele não é só um jogo onde 14 pessoas concorrem a um milhão. É um jogo para analisar quantos brasileiros são capazes de esquecer os seus problemas e a própria vida, para acompanhar as futilidades diárias de uma galera que está confinada e livre das obrigações sociais.

Ver o Big Brother é entrar um pouquinho naquela casa, pensar na possibilidade de, tal como eles, tirar férias do mundo. Fazer nada, olhar o tempo, beber e dançar até cair, se irritar com bobagens e pequenices, enquanto a vida real só traz grandes desafios.

E pra completar a maravilha, eu voto! Além de fantasiar como seria estar lá, eu posso escolher quem deve ficar. Então, o voto em cada paredão se torna quase uma obrigação, já que eu entendo tudo de BBB e estou apta a julgar quem merece ganhar tanto dinheiro fácil!

Talvez essa seja a grande sacada desse programa "dos infernos", a possibilidade de julgar o outro sem prejudicá-lo de verdade. Afinal, tirá-lo da casa é só tirá-lo do jogo, e qual o problema em sair se euzinha sequer entrei?

Por mais fútil que pareça, um pouquinho de Big Brother não faz mal a ninguém. E, confesso, já perdi o sono pensando o que eu vou fazer daqui a 11 dias, quando o programa acabar...

20 março, 2009

Opaco


Sem amor, eu murcho.
Planta esquecida, secando de sede sob o sol.
Tecido sem brilho, folhas caídas.

Sem ele, eu sangro.
Sou corpo rasgado, arrancado os pedaços
Agonizando, pedindo para tudo acabar - oras, logo de uma vez!

Sem amor, me perco.
Caminho sem norte, olhos vendados.
Luz apagada na alma, pernas fracas, palavras incompreendidas.

Assim, desapareço.
Apago aos pouquinhos, deixo de ser.
E não ser, há de ser algo bem estranho para um ser vivente.

16 março, 2009

De sol a sol

Foto: Riva Spinelli



Sou viciada em praia. Basta ver que o dia vai ser de sol, pra ficar igual criança tentando convencer Riva a me levar. Mesmo não estando afim, ele é quase sempre vencido pelo cansaço, e me dá de presente um dia de calor, caldinho e raspa-raspa.

O lugar é sempre o mesmo, no Pina, onde o movimento é mais tranquilo. Escolhemos duas cadeiras com cara de resistentes, um guarda-sol simpático e nos acomodamos. Aí, é só olhar as esquisitices dos outros e inventar o que comer. E como eu como!

São tantos caldinhos, ovinhos, picolés, queijos, abacaxi cortadinho (ai, delícia!), que a gente até já fez amigos comerciantes. Gente feito Tião, o gordo do caldinho e o tunisiano, que atravessou o oceano para morar em Brasília Teimosa e ter uma vida melhor.

Um povo trabalhador, que não se deixa abater pelo sol torrando a moleira e queimando ainda mais a pele grossa e escurecida. Uma gente sempre com uma graça a dizer, uma história nova e um sorriso no rosto. São eles e o barulhinho das ondas que, juntos, fazem da praia o melhor dos programas.

Semana passada minha alegria, por pouco, não foi por água a baixo. A prefeitua resolveu tirar, de uma hora para outra, todos – sim, eu disse todos – os ambulantes das praias do Pina e de Boa Viagem. Ou seja, nada de cadeiras na areia, ovo de codorna, queijo coalho, caldinho de peixe e feijão.

Tirar os vendedores da praia é como tirar a própria diversão.

Sim, porque a gente já não pode tomar banho de mar, por causa dos tubarões; também não pode ficar se bronzeando fora do guarda-sol, por causa do câncer de pele; e aí dizem que a gente tem também que abrir mão dos nossos petiscos e ficar um dia inteiro sem comer, sem mar e morrendo de calor.

Agora, diga, quem mais iria à praia nessas condições?

Definitivamente, perdi a vontade... Assinei minha demissão praiera.

Até a prefeitura (que, até onde eu sei, é popular) perceber que havia tomado uma péssima decisão e resolver mandar meus colegas de volta ao trabalho.

Ontem estive lá para conferir se tudo está mesmo no lugar, e adorei o que vi. A praia cheinha. Do jeito que eu gosto! Aquele buruçu de gente colorindo a areia. Os meninos com as pipas, outros jogando bola, o biquine fio dental mostrando até o que não merece ser mostrado e, por toda parte, vendedores felizes.

Comprei o caldinho de peixe de Dona Francisca. O picolé Milet do senhor politizado que reclama do aumento dos preços e da queda nas vendas. O ovo de codorna e o amendoim do rapaz simpático, satisfeitíssimo com a regularização do seu trabalho.

- Vai ser bom agora, né? Vamo até ter farda...

Verdade. No calçadão, os comerciantes fazem fila para se cadastrar.

Conferido o território, voltei para casa, de coração tranquilo e barriga cheia. Tudo de volta ao normal na minha praia preferida.


12 março, 2009

Autoterapia


É como uma cena de filme de ação. Aquela de Matrix. Eu sozinha, sou o Neo, afim de ficar em paz e seguir o meu destino, quando acabo surpreendida por um inimigo que tem sempre a mesma cara e não para de se multiplicar. Renasce dele mesmo para me enfrentar. Sozinha.

Enfraquecê-los e derrubá-los, um a um, é a única coisa a fazer. Um trabalho diário e cansativo, carente de vigilância e força de vontade.


Realizá-lo é motivo de orgulho e, sim, paz, muita paz ao perceber que estou vencendo a batalha contra minhas neuroses e medos infindáveis.


Quando sinto que o ciúme, a maldade, a mentira, o passado e o futuro, o medo, a solidão, a falta de expectativas - mestres do meu tormento - estão levando uma surra da minha capacidade de viver o presente.


Esse é o grande segredo (descobri há pouco). Manter a cabeça ao lado do corpo, vivendo as alegrias e os problemas de cada dia. Assim, tudo é leveza. Parar para pensar no futuro é como ser ferida de guerra e perder a luta.


Sonho acordar sem medos, me livrar de tantas sequelas, ser sã, equilibrada, justa comigo mesma. Uma mulher melhor, como estas que andam pela rua, mas eu desconheço.


E enquanto esse dia não chega, sigo a peleja de cada dia. Um coração ansioso por paz, brigando sozinho contra um ego doente.

02 março, 2009

Sabor de saudade

Foto: mainha



Boas surpresas me trazem os sentidos.
Olfato, visão, paladar me levam aos melhores recantos da memória.
O reencontro com a foto de uma menina levada fazendo travessuras com a prima na cozinha da avó.
O perfume usado na adolescência e ganho de presente aos 30 anos.
A reedição de uma saia balonê usada duas décadas depois, mostrando as mudanças no contorno da menina, agora mulherão.
Hoje tive um desses encontros inesperados num self service.
Lá estava ela, tímida entre tantas outras travessas mais vistosas.
A quiabada da minha infância.
Um prato raro lá em casa, só feito em dias especiais, quando minha avó queria agradar ao filho.
A panela de alumínio amassada nas bordas, carregada com risco por um velho cabo preto, era o primeiro sinal de que o almoço teria um cheiro diferente.
Sim. Só o cheiro. Porque a iguaria não era pra qualquer bico. Os netos de Dona Carmelita nem sonhavam em provar a “quiabada de Inaldo”.
Voinha preparava só um pouco, o suficiente para matar a fome do primogênito. Ela e mainha até arriscavam salpicar um pouco do molho por cima do feijão. Nós, jamais!
Hoje, olhando a travessa no restaurante, lembrei de meu tio que já não almoça mais conosco. De suas infinitas passadas pela beira do fogão para beliscar a comida ainda na panela. De como sentava, numa pose só dele, sozinho à mesa (mais um cuidado de minha avó, para garantir que o almoço de seu amado não seria perturbado pelas crianças).
Depois que ele se foi, lá em casa não se fez mais quiabada, nem dobradinha, nem nada que nos levasse à saudade.
Por isso, parei em frente à travessa sem saber se deveria ou não comer. O prato era dele. Mas resolvi me dar o direito de matar a curiosidade e conhecer o gosto de algo tão importante.
Com a quiabada no prato, misturada ao molho do feijão, almocei hoje ao lado de tio Inaldo. Dividi com ele um sabor novo: de uma saudade que nunca vai acabar.

17 fevereiro, 2009

Começou

Foto: Fundarpe




Nem sei há quanto tempo minha vida é dividida em antes e depois do carnaval. É a festa que abre o meu ano, a hora de recarregar as baterias.
Meu reveillon é em fevereiro, e começa na prévia dos Amantes de Glória, depois não quer mais parar.
O corpo fica com sede de frevo, de multidão, de abraços. O pensamento deixa o trabalho de lado e se perde em desenhar fantasias, pensar em adereços, reciclar o guarda-roupa pra deixar tudo mais colorido.
Esse ano o carnaval estava demorando a chegar. Deixei passar as festas, fui fingindo que ainda não era ano novo, mas domingo não deu!
Na programação, a Velha Guarda da Mangueira e Arlindo Cruz, no Fortim, em Olinda. Minha alma se preparou. Riva quis dormir... Cansado demais... Eu só queria sambar.
Numa decisão dificílima, chamei o táxi e me misturei sozinha aos poucos foliões que ainda resistiram ao desfile das Virgens. Era sete da noite.
Claro que encontrei mil amigos e acabei indo bater no camarote. A noite foi linda! Sambas, rostos conhecidos, novos sorrisos, a alma em festa, a saia rodando no vento, os cabelos pulando mais que os pés!
Era eu, a cerveja e um palco iluminado em verde e rosa. Me bastou. Estava inteira.
No carnaval, o pouco já faz feliz, não precisamos de muita coisa. A música emociona, o calor arrepia. E essa é uma magia que só quem o vive é capaz de entender.

Esse texto é para Gê, que esse ano não vai pintar a cara no carnaval.

25 dezembro, 2008

Consciente

Foto: Riva Spinelli

Carrego comigo a insônia dos poetas e o equilíbrio dos ébrios.
Tenho uma mente que não descansa.
Sonhos e esperas perseguem
a alma inquieta num corpo preguiçoso.

Mas os dias seguem.
Não param por mim.
E enquanto eu penso,
Lá se vai mais um ano...

24 novembro, 2008

Ponto de observação


De que adianta observar a vida?
Enxergar é pouco, muito pouco...
É preciso consertar o que está errado.

Tirar os velhos das calçadas
A cola da mão do menino
A angústia da mãe faminta.

Não bastam palavras, olhar penoso -
vagos gestos de apoio ao próximo.
Sentir o incômodo da dor do outro.

Enquanto a vida desanda,
vejo as dores, passo por elas.
E se eu voltasse?

Será que o mundo mudaria de lugar?

17 novembro, 2008

eu, poeta


Desde menina, ensaio poesias.
Metros e metros de letras sobre vidas e amores.
Todos na mesma tentativa
Criar uma frase de efeito
Dessas que atravessam os séculos e inspiram gerações.
Nunca consegui...
Sou prolixa e complexa.
Não resumo pensamentos.
Minhas palavras seguem a linha dos sentimentos
Extensos e incansáveis.
Sempre querem mais!

13 novembro, 2008

Espaços


Por aquele corpo, mil mulheres passaram
Nada dele é mais segredo.
Todos os pedaços descobertos,
Poucos arrancados.

Aventuras, desventuras.
Não lembra o nome, o rosto,
Quando chegaram ou saíram -
Tão rápido.

Mas algumas ficaram.
Pedaços na lembrança, esperança, alimento.
Outras, companheiras, dia-a-dia, brinquedos de fazer feliz.
Umas, tirando o sono,
Outras, o pondo a dormir.

Das mil, sobra-lhe pouco,
O suficiente para provar que, sim,
O corpo tem coração.

................................................................

Naquele corpo, mil mulheres habitam,
Às vezes doces, outras, amargas.
Todas juntas, sem nunca se ver.

Um corpo vivo, cheio de defeitos,
Carregando uma alma em brasa
Capaz de arrancar das trevas o pior dos degredados.

Naquele sorriso, a personificação do pecado
e a cura de grandes males.
Naquele toque, o pulsar da tentação
e a serenidade para todas as inquietações.
No olhar, o desejo de mudar de lugar
e a segurança de não precisar mais ir além.

Um corpo, uma escala, um porto.
Uma só mulher que, sim,
Tem mil corações.

07 novembro, 2008

Desenredo

Foto: Riva Spinelli

A festa de casamento.
O nascimento dos filhos.
O novo emprego.
A compra do carro.
Os grandes propósitos da vida acontecendo sem medo.

Eu, do outro lado,
assistindo a tudo como a um filme que não protagonizo.
Em grandes enredos, sou só figurante.
No meu, não tem roteirista.
As cenas se inventam,
sem saber onde querem chegar.

Às vezes ação, outras, comédia,
quase sempre, romance.
Com trilha sonora nacional
E quase nenhum efeito especial -
no máximo, uma câmera lenta,
esticando os olhares que não querem se abandonar,
marcando o entrelace de dedos que se confortam,
o arrepio dos pelos do corpo.

Não sou filme com começo, meio e fim
Sou interminável seriado de TV,
sem pretensão de acabar.
Com revelações e conquistas a cada nova temporada.
Personagens chegando e saindo.
Sempre à espera do próximo episódio.

05 novembro, 2008

Na ausência dos meus...

Foto: Mack Costa

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar
às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

01 novembro, 2008

Curtas

I
O amor justifica tudo.

Até os erros - contra ele próprio.







II
Meus pecados, Deus há de perdoar.
Sem eles, certamente, eu não haveria sobrevivido.