Quase sempre foi assim:
Meio lar
Meio pai
Meios filhos
Amor pela metade.
Mas nada lhe tira os pedaços.
Desde cedo, aprendeu a dividir
Sem, no entanto, perder.
Nem se perder.
A dor de meias verdades,
Meias histórias,
Planos partidos ao meio,
Lhe transtorna a face
Embrulha o estômago.
Leva à busca de pedaços inteiros.
Amigos
Trabalho
Sorriso
Fé.
Ela própria.
Inteira.
Disposta a carregar seus meios.
Ainda incapaz de abandoná-los.
19 outubro, 2008
11 outubro, 2008
As coisas mudam
Século XX. Década de 80A menina termina de almoçar e espalha lápis e cadernos pelo chão. Precisa fazer os deveres antes de começar a Sessão da Tarde. A tia segue seus os passos, acomoda-se no sofá e põe os óculos. Já passa dos 60 anos, mas as lições de português e matemática lhes são bem nítidas, o suficiente para ajudar com segurança à menina.
A televisão permanece ligada, uma presença que não atrapalha a tarefa, e ainda serve como fuga aos problemas mais complexos.
É assim toda tarde. E, toda tarde, algo interrompe o ritual dos deveres de casa, um momento que, de tão repetido, já é esperado pelos adultos.
Na TV, a arte de um gráfico surge atrás do apresentador do jornal. É hora das notícias de economia. Num salto, a menina corre com lápis e caderno na mão até a TV, aumenta o volume e ouve atenta o preço do dólar e o comportamento da Bolsa de Valores de São Paulo e Rio de Janeiro.
Anota tudo e corre novamente, agora, em busca da calculadora. Testa franzida, faz as contas, anota o resultado no caderno e caminha desolada até a cozinha. Dá a notícia num tom quase solene e preocupado. “Ouviu, vó? A Bolsa caiu de novo e eu só tenho 17 dólares hoje”.
Com ares de riso, a avó, avental ensopado à beira da pia, mesmo sem saber de que bolsa a menina tanto falava, encoraja a conversa. “Ah... e ontem, quantos dólares você tinha?” “18,40, mas já tive quase 27 antes de a Bolsa cair”.
Século XXI. Ano de 2008.
Faminta, às 20h, a mulher entra em casa. Joga a bolsa no sofá, tira os sapatos e se joga também. Estica as pernas e leva as mãos à cabeça tentando enganar uma dorzinha que a incomodava desde o começo da tarde. Pega o controle e zapeia pelos canais procurando alguma coisa interessante. “Preciso urgente de uma TV paga!”
Pára na Globo, sempre a Globo. Fátima Bernardes fala pela milésima vez sobre a crise econômica que afeta o mundo. “O presidente Lula garante que o Brasil vive seu melhor momento econômico e não será afetado. Mas os mercados não reagem à crise. O dólar já se aproxima dos dois reais e a Bolsa de São Paulo teve a maior queda da história”.
Desliga a TV, deita no sofá e fecha os olhos resignada.
“Agora só falam dessa bendita crise. Quem disse que eu quero comprar dólar?”
20 setembro, 2008
Por dentro

Sou apaixonada por nossa história política. Prestar atenção aos movimentos e pessoas que fazem a diferença no país - seja para o bem ou o mal - não foi imposto pelo meu trabalho, é algo que faço desde criança.
A primeira recordação política vem dos seis anos. Acompanhava cada edição do Jornal Nacional só para saber se Tancredo Neves havia melhorado. Lembro que não entendia quase nada da matéria e perguntava depois a minha avó. “Ele já tá bom?” “Ainda não...”. Então, voltava às bonecas enquanto esperava as próximas notícias.
Na noite derradeira, a cobertura da Globo não meu deixou com dúvidas. Quando a notícia foi ao ar minha, mãe fez uma cara triste, pegou a carteira de cigarros e foi para o jardim sem dizer uma palavra. Eu segui os seus passos, parei no terraço, sentei no chão, agarrei uma bola que estava por perto e chorei. Não sabia o porquê da dor e até me envergonhei um pouco dela, mas sabia que aquilo era sim um motivo para chorar. “O que foi, menina? Tá chorando por que?” “Porque Tancredo morreu. E agora?”.
Agora viria Sarney, o cara que adorava aumentar o salário da minha avó, uma servidora pública federal. Ela dizia que esse era o melhor presidente que o Brasil já teve, mas eu não gostava dele. O salário até aumentava, mas nunca dava para pagar as contas. O atraso no pagamento da mensalidade da escola era tão religioso quanto às idas de toda a família ao mercado para garantir o maior número possível de latas de leite e pedaços de carne. Eu detestava fazer feira duas vezes por semana e detestava o Sarney, aquele feioso de bigode esquisito.
Só não era mais esquisito que o Collor, que acabou com os meus sonhos de eleger Lula presidente. Tá, eu ainda não podia voltar aos 11 anos, mas se pudesse, seria em Lula. E mais uma vez está na política uma das minhas mais nítidas lembranças de infância, quando corria pela praia do Pina sacudindo uma bandeira branca com letras vermelhas, onde estava escrito: Lula 13, e cantando o hino do momento. “Lula lá, brilha uma estrela!”.
Mais uma vez, sem a menor explicação, um homem público me emocionava e me recarregava de esperanças. Não é a toa que foi por ele meu segundo choro político, no dia em que a mesma Globo comunicou que ele era o novo presidente da República. Demorou anos para isso acontecer, mas lembro de cada detalhe dos governos que o antecederam. Especialmente da farra que foi ir às ruas (escondida da minha avó, é claro), comemorar o impeachment de Collor.
Mas apesar de ser apaixonada por toda essa onda política, nunca senti necessidade de me filiar a um partido, amarrar minha crença a uma só instituição. Aprendi com o tempo - e com a própria política - a buscar a verdade nas pessoas, avaliar cada pequeno ato, confiar no mais sério, independente de legenda. Minhas manifestações públicas se resumem ao momento cara-pintada, uma caminhada de apoio a Lula na Avenida Conde da Boa Vista e várias comemorações da vitória vermelha no Marco Zero.
Chego aos 30 anos com a tranqüilidade de ter dado votos conscientes, de estar cumprindo direitinho meu papel de cidadã. Não é porque um lote de políticos sai por aí se aproveitando do dinheiro público e se envolvendo em negócios ilícitos que vou desistir de participar do processo. Quanto mais sujeira aparece, mais eu acho indispensável que pessoas do bem se alfabetizem politicamente. Porque se quem se emociona e acredita no Brasil desistir dele, aí sim, estaremos perdidos.
04 setembro, 2008
...

Ninguém sabe a hora da viagem, a data da partida, o derradeiro dia.
Em que momento chega o trem rumo à nova estação?
Qual será o som do navio escolhido para nós?
Enxergo assim o que chamam de fim, como um novo porto distante e invisível, inatingível para quem fica, um porto de mistério.
Todos iremos. Sim! Essa é a única verdade.
A vida é um caminho sem volta e, no fim, lá está ela: a morte – a pior das palavras – esperando por todos.
Mas quando?
Em que momento chega o trem rumo à nova estação?
Qual será o som do navio escolhido para nós?
Enxergo assim o que chamam de fim, como um novo porto distante e invisível, inatingível para quem fica, um porto de mistério.
Todos iremos. Sim! Essa é a única verdade.
A vida é um caminho sem volta e, no fim, lá está ela: a morte – a pior das palavras – esperando por todos.
Mas quando?
Na velhice, cada amanhecer é uma contagem regressiva, cada anoitecer, uma vitória.
O corpo resiste ao tempo e adia a despedida, mas quando ela acontece era esperada: “Viveu muito”, nos consolamos para afastar a saudade.
A vida continua, para nós e para quem fica, só que em outras águas, distantes...
Como é terrível aceitar a viagem.
Passamos a vida construindo nosso bloco: família, amigos, lugares, hábitos.
A idéia é levá-los para sempre, fortalecer a alma.
Aí chega a hora – e nós nem sabíamos – quando vemos, alguém partiu.
Quebrou o bloco, deixou espaços vazios, nos obriga a fazer tudo de novo (mas pessoas não se substituem!)
Chato. Chato mesmo esse negócio de viagem.
Desgastante. Incômodo.
Ao menos se soubéssemos o dia, não deixaríamos para depois as declarações, os abraços, a busca de um horário na agenda para cuidar do outro.
Organizaríamos a vida antes de seu fim.
Acho que não envelheço, não vou muito longe...
Sempre quis ser a primeira a sair do bloco só para não sentir a dor de vê-lo desmontar.
Começo a acreditar que não vai ser possível.
Pedaços do meu todo estão frágeis e sofro antecipando a saudade.
Tenho medo de errar com meus amores e não ter tempo de consertar.
Quero cancelar agora, e em definitivo, todos os vôos para o além e ficar aqui cuidando do meu bloco, do jeitinho que ele está.
E pra sempre.
01 setembro, 2008
Espelho
A marca do tempo nos olhos
Na tez amolecida e transformada
Como era aquela menina?
Perdeu-se e refez-se em novas histórias
Que, entranhadas,
Costuram todo dia o dia de amanhã
Dando pontos pra amarrar o destino.
A marca do sol nos sinais da pele
A marca do sal na tolerância da alma
Uma nova alma velha.
Marcada pela comoção, pelo afeto do outro
Pelas quedas que lhe arrancaram os pedaços.
A cada manhã, uma nova marca
No corpo não tão firme.
Na visão além do óbvio.
Nas ilusões perdidas.
Nos sentimentos amadurecidos.
Com o tempo, as pedras viram pó
E as sementes se tornam jardins
Florescendo o amor
Amor raiz, renascido, crescido
Encontrado num novo tempo.
Na tez amolecida e transformada
Como era aquela menina?
Perdeu-se e refez-se em novas histórias
Que, entranhadas,
Costuram todo dia o dia de amanhã
Dando pontos pra amarrar o destino.
A marca do sol nos sinais da pele
A marca do sal na tolerância da alma
Uma nova alma velha.
Marcada pela comoção, pelo afeto do outro
Pelas quedas que lhe arrancaram os pedaços.
A cada manhã, uma nova marca
No corpo não tão firme.
Na visão além do óbvio.
Nas ilusões perdidas.
Nos sentimentos amadurecidos.
Com o tempo, as pedras viram pó
E as sementes se tornam jardins
Florescendo o amor
Amor raiz, renascido, crescido
Encontrado num novo tempo.
05 agosto, 2008
Mais rápido
Foto: Aguinaldo LeonelEu corro.
Acordo mais cedo que o comum.
Acumulo funções.
Entre uma matéria e outra, um gole d’água.
Hidrato a boca enquanto alimento meu mundo de notícias.
Impresso, TV, internet.
Viro três num corpo só.
Cheio de energia, de vontade de andar ainda mais rápido.
Adoro correr.
O blog pode esperar.
O almoço também.
Eu não!
25 julho, 2008
Por que Clara Nunes?

Nunca fui apegada a essa história de ser fã de artistas, mas há alguns anos fui tomada de paixão por uma pessoa que não está viva e cuja lembrança nem ficou tão forte assim na minha memória.
Mas, por que logo ela?
Mas, por que logo ela?
Outro dia me perguntaram se já havia assistido a uma apresentação de Clara. “Só quando criança, mas nem lembro direito do rosto dela”. “Então você precisa ver. Tu dança igual a ela: o braço, o ombro, as mãos. Igualzinho”. Fiquei curiosa.
Meses depois ganhei o livro “Clara Nunes. Guerreira da Utopia”, de Vagner Fernandes, que terminei de ler na semana passada. E agora, enquanto fuço na internet imagens e vídeos que parecem completar partes da minha história, me pergunto a razão de estar ligada a essa mulher.Talvez pela paixão por sambas e batucadas, pela falta de vergonha em rodar num palco ou num salão como quem reverencia “santos”. Ou pelo sincretismo religioso, por não ter medo de ser tão eclética, mesmo quando o assunto é Deus. Talvez até pela cumplicidade dupla da espera vã por filhos paridos e a sensação de que, tal como ela, não vou conhecer a velhice.
Agora, depois de ter lido tanto sobre a vida de Clara, as justificativas fariam sentido. Mas a admiração nasceu bem antes de conhecê-la. Clara Nunes morreu em 1984, quando eu tinha seis anos - uma criança com medo de palhaço, fã do Balão Mágico e de qualquer samba que me chegasse aos ouvidos. Com essa idade já cantava um monte de músicas dela.
Lembro do disco em vinil que ouvia todo fim de semana com a minha mãe, que segurava as barras de uma saia larga, dançando e cantando “O mar serenou” e “Morena d’angola”. De Clara, tenho a vaga lembrança de um vestido dourado cantando na TV “Filhos de Gandi. Badauê”. Nada além disso. Mesmo com tão pouco, foi essa a mulher eleita para ser um ídolo e seu nome escolhido, desde pequena, para ser o da minha filha. Aproveitei as férias e dediquei a tarde inteira à pesquisa. Vi mil fotos, assisti a dezenas de vídeos, e encontrei mesmo semelhanças no jeito de dançar e até no rosto - olhos rasgados, boca imensa. Será isso, então um ídolo? Alguém que você admira por analogia?
Não sonho em ser como Clara. Nem sei se me daria bem com uma mulher de temperamento tão forte, mas, ao mesmo tempo, tão insegura. E tinha um monte de coisa nela que eu não concordo. Por isso que às vezes acho que não a escolhi, foi ela quem me elegeu para vasculhar sua memória, para ficar em meu destino.
Era ela quem estava cantando na hora em que o carro onde Marcelle e eu estávamos capotou, e eu sabia que iria dar tudo certo. É a voz dela que reconheço como cantiga de ninar, o som que me acalma e me alegra mesmo nas horas mais difíceis. Estranho um sentimento tão forte por uma desconhecida, mas se ele traz assim tanto bem... que fique.17 julho, 2008
Férias, frio e nenhuma inspiração.
Há tempo para tudo, eu acredito.
Tempo de criar, de inventar, de se reinventar.
Tempo de ouvir, pensar, maturar planos.
Há tempo de ir atrás e tempo de aconchegar.
No céu, o tempo é nublado.
A chuva cai vez por outra, e não deixa a roupa secar no varal.
No ar, o vento é frio, seca a garganta e arrepia os pelinhos do braço, acostumados com o mormaço recifense.
Aqui dentro, páro para ler e observar a vida dos outros passar.
Deixo a minha ficar de férias, sem criações, nem transformações.
Longe de virar notícia.
Caminho rumo ao horizonte, mas sem ir muito longe.
e se o trem parar na estação, até embarco.
Ando nessa de dar um tempo, nas palavras, nas tarefas.
Só pra recarregar a bateria enquanto não decido em qual esquina dobrar.
Até lá, resta olhar a lua cheia iluminando a noite, e pensar no futuro, que pode chegar amanhã, no mês que vem, ou nunca mais...
As boas mulheres da China

Enquanto me irrito porque meu celular continua quebrado e não sobrou dinheiro para comprar outro, muito menos para renovar a escova progressiva – que já perdeu a validade há meses – dou de cara com a vida de centenas de mulheres “sem experiência alguma de juventude e beleza”. Rejeitadas e humilhadas por maridos e fillhos. Abusadas sexualmente pelos pais. Cercadas por falsas crendices. Sem assistência alguma à saúde ou educação.
Há pouco mais de uma hora me tornei amiga de infância de Hongxue, uma chinesa de dezessete anos, violentada pelo pai desde os onze, e que encontrou uma única forma de fugir do assédio dele: ficando doente e permanecendo no hospital o maior tempo possível. Foi lá, nesse novo refúgio, que fez amigos e criou um carinho especial por um filhote de mosca, de quem cuidou até depois que ele foi esmagado.
Eu mal via a hora de Hongxue sair do hospital, dar um ninja naquele pai canalha e mostrar que se tornou uma grande mulher da China. Mas em nosso último encontro, ela soube que iria receber alta e voltar para casa. Então, passou uma mosca morta na ferida que tinha no braço - na esperança de ficar mais doente e permanecer internada. Deu certo. Ela comemorou a febre que não baixava, mas morreu de infecção, duas semanas depois.
Fechei o livro e chorei descontroladamente a morte daquela menina, que se estivesse viva, teria 50 anos. Quantas pessoas lastimaram sua partida? Talvez alguns leitores emotivos. Jamais o pai e a mãe. Esse apurado de histórias me leva a um país e uma época tão cruéis e, ao mesmo tempo, tão próximos, que chega a assustar.
O grande consolo é perceber que essas mesmas mulheres enfrentam todas as intempéries com atitudes de força, caridade e beleza, uma beleza gigante na alma, que compensa a ausência de adornos no corpo. Mas isso, para os homens chineses, não representam algo positivo. Afinal, as “boas”mulheres são frágeis, mansas e trabalham muito para sustentar as vaidades dos maridos.
Já passaram décadas desde que isso aconteceu, e nem sei se alguma coisa mudou desde então. Provavelmente, chorar agora, aqui de tão longe e depois de tanto tempo, não muda em nada a vida de nenhuma daquelas mulheres. Mas espero, ao menos, que a alma delas sinta que alguém, algum dia, se preocupou e lhes disse “sinto muito”.
28 junho, 2008
Ê, Bahia...

Para mim, acaba aqui qualquer rivalidade entre recifenses e baianos. Esgoto todas as rixas e deixo apenas as semelhanças.
Há dez anos pisei pela primeira vez em solo baiano, mas não tive interesse nem maturidade para avaliar quem era aquela gente de pele escura e carne dura. Invadi o espaço sem a menor cerimônia. Entrei e saí sem pedir licença - erro comum na adolescência. Guardei na lembrança as intermináveis ladeiras, a farra sem limite e as ruas largas.
Dessa vez foi diferente. Cheguei querendo entender por que o baiano é tão amado mundo a fora. Descobri. Porque são gente de família, trabalhadora, educada e com uma pitada de malandragem no tempero.
Minha passagem não pôde ser discreta. Carregava nas costas uma mochila enorme, atrapalhando o fluxo e denunciando o turismo. Mesmo assim, ninguém se importou. Ao contrário, sempre que possível, ajudaram com a bagagem, tornaram o fardo mais leve, e poucos perguntaram de onde eu era. Me misturei aos rostos tão parecidos com os de todo dia, e se não fosse pelo olhar curioso e deslumbrado a cada descoberta, teria passado desapercebida na multidão que anda de ônibus, desvia dos carros e se espreme no elevador Lacerda.
A Bahia tem a maioria das coisas que me encantam no Recife, mas com um detalhe: elas são somadas. As construções são ainda mais antigas, a história mais bem preservada, as cores mais vivas, as praças mais verdes. Mais misticismo, igrejas, museus, estrutura para o turismo e, de brinde, plena receptividade.
Fomos tratados com todo carinho, bem acolhidos por um povo feliz e solícito. Uma gente sem segredos, de gestos e olhares transparentes, de muitas palavras, conversa e riso solto. Bem do jeitinho que eu gosto, mas, confesso, não esperava. Achei que o bairrismo mútuo pudesse macular nossa relação, e fui surpreendida da melhor forma possível. Na capital ou nas ilhas, do canto mais badalado ao mais tranqüilo. O lema é um só: receber bem, cuidar do outro, sorrir e falar. Falar muito e alto, como se a vida só tivesse graça se levada ao extremo.
Por isso, tamanho encanto e a sensação do plano ter saído melhor que a encomenda. Lembro da resistência de Riva quando sugeri irmos à Bahia no feriado. “É um lugar especial. Você não pode morrer sem passar por lá”, argumentei. Não sei se a retórica valeu de alguma coisa, mas uma semana depois as passagens estavam compradas e vivemos uma bela viagem com ares de lua-de-mel.
A cada instante, um sorriso arrancado pelo esplendor de um inesquecível pôr-do-sol, de uma fortificação em ruínas, do céu mais estrelado do mundo em noite que falta luz. Do São João de verdade o feriado não teve quase nada. Só alguns fogos e arrasta pé num arraial de Morro de São Paulo. Mas não me arrependo da troca. Os dias valeram para quebrar preconceitos e me apaixonar por mais um lugar com alma romântica e que mal vejo a hora de visitar de novo.
Fotos: Riva Spinelli
25 junho, 2008
Sem medo de avião
Comparado aos demais, esse nem era assim tão grande. Um simpático 737 estava lá, pronto para me receber. Entrei pelo tubo e senti um leve frio na barriga. Não era medo, mas poderia ser comparada à sensação de estar na fila da montanha russa.
Entrei feliz. Sentei à janela. Fiz tudo do jeito que a voz mandou. Segurei na mão de Riva. O temor da decolagem logo se transformou em euforia. Bati os pés. Sorri alto. Quase grito.
Pirei com a textura das nuvens. “Parece geleira”. “Será que dá pra pegar?”. Só depois percebi o quanto as perguntas soavam infantis quando ditas por uma mulher feita. Mas ali tudo tinha ares de novo e nesse assunto sou mesmo uma criança. E lá estava eu, menina, desafiando a gravidade, aconchegada dentro de um troço que pesa toneladas e, mesmo assim, atravessa tranquilamente o céu.
Seis e meia da manhã. O leve balanço parecia tentar me ninar. Mas resisti. O tempo era curto e gastei me admirando com cada detalhe. As figuras que nasciam nas nuvens, o Rio São Francisco, as cidades vistas na proporção de uma maquete. Tudo era motivo para surpresa e, claro, fotos! Muitas fotos.
Até que o destino apontou no horizonte. Salvador. O gigante de ferro apontou o bico para baixo e passeou pela Bahia até aterrissar no Aeroporto Luiz Eduardo Magalhães.
Fim de texto. Fim de minha primeira viagem de avião.
13 junho, 2008
Santo Antônio
13 de junho

Para mim, por muitos anos, esse foi o dia de seguir as tradições e bater um papo sério com o santo casamenteiro. Na maioria das vezes rolava uma tensão na hora de fazer as simpatias. Algumas nunca faltavam.
Começava com os pingos de vela num prato branco. Eles caiam enquanto eu rezava e depois era só esperar até se juntarem e formarem uma letra. Resultado: a cada ano, um novo símbolo surgia na minha frente. Impossível decifrar uma letra daquilo. Esclarecimento zero!
No final da noite, antes de ir dormir, preparava a derradeira mandinga. Uma bacia de alumínio no sereno cheia de papeis dobrados boiando na água. Em cada um, o nome de um homem. Não precisava nem ser conhecido. “Pode ser que vocês ainda não tenham se cruzado”, explicava minha avó. No dia seguinte, mais decepção, pelo menos metade dos papéis estavam abertos. Afinal, com qual deles seria?
Mas minha preferida era a da aliança amarrada a um fio de cabelo. Aí vai rezando a Salve Rainha até a parte do “nos mostrai” e completa com “quantos anos faltam para eu me casar”. A resenha começava na hora de escolher a aliança. Já usei a de minha avó, da minha mãe e até a minha própria, quando já estava noiva. A cada tentativa, um susto.
Teve um ano em que a danada bateu duas vezes, fiquei toda feliz. Estava perto! Aí fiz no ano seguinte pra conferir que ia dar só uma batidinha. Danou-se. A bendita aliança parecia uma barata tonta a circular pela borda do copo. Girou e bateu tanto que cansei de esperar ela parar. Tirei do copo sem medo nem cerimônia. E comecei a pensar o que havia feito de errado durante o ano para acabar com o meu próprio casamento. Tentei ser uma menina melhor. A noiva perfeita. Quem sabe a sorte não me sorria novamente?
No outro ano, a pior das experiências: a aliança não se mexeu. Ficou lá, paradona... A mão chega deu câimbra e nada do cabelo dar sinal. Até assoprei de leve. Nada! Foi aí que desisti de perguntar a Santo Antônio quanto tempo falta para eu me casar. Meses depois, coincidência ou não, terminei um relacionamento que já durava onze anos.
De lá para cá, devota e afilhada que sou do santo, já pintei e bordei com a imagem dele. Esqueci por meses embaixo da cama, coloquei de cabeça para baixo dentro de copo d’água, da geladeira, escondi o menino Jesus... Mas também já tratei a pão-de-ló, acendi velas, fiz novenas. E hoje, apesar de ser uma “amancebada” muito feliz, não me casei de fato.
Talvez tenha sido por isso que nunca consegui entender nadinha do que o santo tentou me dizer todas as vezes que perguntei. Às vezes ele não dá aquilo que a gente pede, mas dá um jeitinho de arrumar o que a gente precisa.
24 maio, 2008
De mal com ele
O espelho anda gritando:
Feia! Feia! Feia!
Tento responder
Dou um sorriso
Troco de ângulo
Murcho a barriga
Escondo os braços
Uso corretivo, base, pó.
Nada o faz mudar de idéia:
Feia!
Passo protetor solar
Entro em mil lojas
Renovo o guarda-roupa
Experimento tudo em casa.
A resposta é implacável:
Você já foi melhor nisso.
Começo uma dieta
Fujo dos doces (o melhor dos sabores)
Conto pontos o dia inteiro
Me torno uma louca-calculadora-faminta
A barriga ronca
Bebo água.
No fim de semana, a recompensa
Um quilo a menos.
Mas o espelho ainda me odeia:
Baranga!
Clínica de estética
Uma fortuna num pacote que “pode melhorar a aparência”
Primeira sessão agendada
Investimento.
Sacrifício.
Paciência.
...
Nunca tive conflitos com meu corpo.
Agora, beirando os 30, enfrento meu primeiro piti de mulherzinha.
Nao tenho casa, carro, marido, filho, fama ou dinheiro.
Decidi que tenho obrigação de, pelo menos, ser bonita.
E o mínimo que posso me dar.
...
Persistência pode ser um bom caminho rumo à maturidade.
21 maio, 2008
De susto

E lá estava a caixa.
Sozinha.
Trancada.
Velha conhecida do felino,
que se acostumou a roçar-lhe as quinas
e brincar com cuidado ao seu redor.
Cansado de desvendar mistérios,
havia prometido:
Não abriria nada de novo.
Naquele dia não resistiu.
Deixou a pata escorregar
inclinou-se mais para dentro.
Os versos, dores e dúvidas sob a tampa
lhes saltaram aos olhos
aceleraram o peito
esfriaram o corpo.
Depois se agarraram a sua cabeça
num ruído fatal.
Tarde demais...
O mundo girou.
A luz apagou.
A curiosidade matou o gato.
15 maio, 2008
O Detran e eu: último capítulo

Há dois dias a auto-escola me ligou informando que minha prova prática no Detran estava marcada para hoje.
- Mas, como? Ainda tenho seis aulas para fazer.
- Ah, não dá para desmarcar. Venha agora fazer as aulas.
A voz do outro lado da linha só poderia estar brincando. Ir agora?
No dia seguinte estava lá. Mudei de instrutor e revisei com bem mais segurança todos os passos cobrados no teste. Treinei das 7h às 11h e voltei para casa com uma certeza: hoje eu me tornaria uma motorista habilitada.
...
A noite de ontem foi um pesadelo. E não falo no sentido figurado da palavra. Riva - com muita tosse e uma febre insistente - sofreu a noite inteira. Eu, com a cabeça a mil, querendo obrigar o corpo a dormir. O sono só chegou após a meia noite, e veio acompanhado de pesadelos. Confusos, perturbadores. Sonhei com a prova. Senti angústia. Melhor não dormir mais...
...
Levantei às 5h30 e, apesar do mau presságio da noite, não estava nervosa. Aproveitei para dormir no carro a caminho do Detran onde, mais uma vez, esperei quase duas horas para começar a prova.
Enquanto isso, a chuva castigava o Recife. Não era garoa, mas tempestade, daquelas com ventania e pingos largos fazendo barulho no capô dos carros. A roupa já estava úmida, os braços tremiam de frio e comecei a pensar o quanto seria complicado fazer minha primeira baliza oficial debaixo de um “super-toró-atômico”. Apesar de tudo: nada de medo. Preferi não procurá-lo.
Carimbaram minha ficha, apontaram o carro e segui. Quando entrei, o senti como velho conhecido. Sabia o que fazer e fiz. Manobra, curva, rampa, garagem. A minha frente, quase uma dezena de candidatos já havia entregado o carro aos fiscais. Fim de linha para eles.
A chuva cessou todo o tempo em que estive no pátio e segui o percurso com tranqüilidade. A impressão que tive é que nenhum fiscal percebeu que eu era mais uma candidata em análise. Eles me olhavam, indicavam com o braço a próxima tarefa, diziam no máximo um “pode sair”, e viravam de costas. Ninguém me julgou. Nem mesmo na temida baliza (que fiz muito mal, por sinal), ninguém reclamou. Extrapolei o tempo permitido e ainda assim o fiscal só pegou minha ficha e disse: “Seu tempo já foi e você ainda tá aí? Pode tirar o carro e ir embora”. “Agora mesmo, meu filho!”.
Estacionei o carro no pátio sem saber se havia ou não passado. Até que outro fiscal chegou com a novidade. “Pode deixar o carro aí. A carteira você pega em dois dias”. E virou-se.
A motorista segura virou menina de perna bamba, mas conseguiu sair do Detran pulando e sorrindo sozinha. A roupa ensopada da chuva.
Levantei às 5h30 e, apesar do mau presságio da noite, não estava nervosa. Aproveitei para dormir no carro a caminho do Detran onde, mais uma vez, esperei quase duas horas para começar a prova.
Enquanto isso, a chuva castigava o Recife. Não era garoa, mas tempestade, daquelas com ventania e pingos largos fazendo barulho no capô dos carros. A roupa já estava úmida, os braços tremiam de frio e comecei a pensar o quanto seria complicado fazer minha primeira baliza oficial debaixo de um “super-toró-atômico”. Apesar de tudo: nada de medo. Preferi não procurá-lo.
Carimbaram minha ficha, apontaram o carro e segui. Quando entrei, o senti como velho conhecido. Sabia o que fazer e fiz. Manobra, curva, rampa, garagem. A minha frente, quase uma dezena de candidatos já havia entregado o carro aos fiscais. Fim de linha para eles.
A chuva cessou todo o tempo em que estive no pátio e segui o percurso com tranqüilidade. A impressão que tive é que nenhum fiscal percebeu que eu era mais uma candidata em análise. Eles me olhavam, indicavam com o braço a próxima tarefa, diziam no máximo um “pode sair”, e viravam de costas. Ninguém me julgou. Nem mesmo na temida baliza (que fiz muito mal, por sinal), ninguém reclamou. Extrapolei o tempo permitido e ainda assim o fiscal só pegou minha ficha e disse: “Seu tempo já foi e você ainda tá aí? Pode tirar o carro e ir embora”. “Agora mesmo, meu filho!”.
Estacionei o carro no pátio sem saber se havia ou não passado. Até que outro fiscal chegou com a novidade. “Pode deixar o carro aí. A carteira você pega em dois dias”. E virou-se.
A motorista segura virou menina de perna bamba, mas conseguiu sair do Detran pulando e sorrindo sozinha. A roupa ensopada da chuva.
06 maio, 2008
Maduro
Esse homem que amanhece,
carrega o aroma de uma nova primavera
A tez marcada
O olhar sábio
O passo firme.
Esse home que me acompanha
é melhor do que o que conheci
Tornou-se mais sereno, admirável,
confiante e confiável
Um homem de brilho, sorriso e música.
Você, amado homem,
acorda em festa e me presenteia com seu sabor
Maduro.
Gosto doce do pecado que hei de cometer
pela eternidade.
...............
Feliz aniversário!
03 maio, 2008
Invencionices

Tenho verdadeiro encanto pelas pessoas capazes de criar, porque além de gênios da observação, são mestres na execução. Os criadores percebem a necessidade de um grupo de pessoas e já se põem a fabricar algo que lhes facilite a vida. Mas isso, creio, é uma característica dos espíritos inquietos, aqueles que sempre buscam mais.
Na condição de ser totalmente adaptável, nunca havia tido nenhuma grande idéia que merecesse ser posta em prática em forma de máquina. Pelo menos até hoje, quando sinto uma falta enorme de um simulador de direção.
Queria receber agora a grande notícia de que não sou a primeira a pensar nisso e que posso acessar tal site e baixar grátis o meu simulador. Não faria questão de mandar buscar via sedex os acessórios complementares como embreagem, freio, acelerador, setas e câmbio de marchas. Eles chegariam a minha casa em três dias úteis e eu seria uma aluna de auto-escola infinitamente mais feliz, e o melhor, mais segura!
A nova lei de trânsito exige que os candidatos a uma Permissão Para Dirigir (PPD) tenham no mínimo 15 aulas práticas antes de fazer a prova do Detran. Já estou em minha oitava aula e me sinto uma verdadeira inútil no trânsito. O que não acho ser uma responsabilidade exclusivamente minha.
O tal professor da auto-escola senta ao meu lado no carro e me joga aos leões das fervilhantes ruas do Recife. Me diz a hora de passar a marcha, ligar a seta, cada movimento na hora de fazer curva e tudo mais. Ele quase não larga a direção e ainda vive apertando o freio ou trocando a marcha quando eu nem pensei em fazer isso. Poxa! O cara tem a voz toda mansa, mas dirige por mim o tempo todo! Quando vejo, acaba a aula e volto frustrada para casa...
A parte teórica da coisa foi muito mais simples, porque dependia apenas do meu esforço. Eu estudava a qualquer hora, em qualquer lugar.Me preparei de acordo com minhas necessidades e passei. Mas como posso fazer isso com a prática sem o meu simulador direção?
Se ele existisse, certamente estaria agarrada a ele nesse momento. Mas não vale ser daqueles de Fórmula 1. Tem que ser uma simulação de dia-a-dia de uma metrópole. Na tela do computador, uma rua virtual com carros, ônibus, pedestres e cachorros estaria me esperando. E eu iria experimentar a tal direção por conta própria, e por muito mais tempo que meras quinze horas de aula.
Riva acabou de me emprestar o carro (total prova de amor), para eu treinar um pouquinho. Um fiasco! Uma droga! Cometi quase todos os erros que alguém pode ter no trânsito. Assim, nunca vou me tornar uma boa motorista. E se tem uma coisa que eu detesto são os maus motoristas! O pior é que se depender das sete aulas que me restam, é assim que vou chegar ao Detran no dia da prova.
..............
Definitivamente, eu preciso de um simulador!
02 maio, 2008
Gota d'água

Salete acordou estranha: angústia, insegurança, choro preso entre a garganta e o tórax. Olhou o calendário. “Eu sabia!” Sentiu de cara que sua velha conhecida TPM veio com todo gás daquela vez. Preferiu prevenir logo o Otávio, e foi lá pelo final do almoço que ela começou.
- Amor, sabe qual mágica eu queria fazer?
- Não. Qual? – pergunta o marido sem o menor interesse.
- Queria que você tivesse pelo menos 24 horas de TPM.
- Agora, ...deu! Tu quer fazer uma mágica pra me lascar?
- Não é não, amor! Eu só queria que você sentisse o quanto eu fico desorientada, pirada, doidinha nesses dias.
Ela olhou o tempo e continuou a análise.
- Acho que só assim você pode ser mais solidário, compreender de verdade minha disfunção.
- Salete, eu reclamo da tua TPM?
- Não.
- Eu brigo porque você está descompensada?
- Não... – respondeu com olhos baixos e a voz quase miando.
- Então, porque eu precisaria sentir na pele teus problemas hormonais? Eu já te respeito com ou sem TPM.
- Tá bom. Não faço mais a mágica, – decretou, com um bico de decepção – mas já vou avisando que eu não estou bem hoje.
Segundos de silêncio. Salete adiantou-se em devorar a sobremesa. Otávio pediu o café e depois de bicar um primeiro gole puxou assunto.
- Vou fazer hoje à noite aquele reparo no encanamento.
- Ãh? Você mesmo vai fazer?
- Claro. Já sei até qual o problema.
- Ah, sabe? E descobriu como? Você não é encanador. O vazamento está terrível, já atravessa a parede. Não é melhor chamar um profissional?
- Para quê chamar alguém? Eu sei fazer. Tenho as ferramentas. Faço num instante.
- Otávio, isso não vai dar certo. Você é médico, não encanador! E se piorar? – e quase sem paciência, quis deixar a história mais prática - Eu não vou deixar! Vou ligar para alguém que sabe fazer e mando ir lá em casa amanhã.
O marido bebeu num gole só o restante do café quente, e com a língua reclamando da temperatura resolveu pôr um fim àquela conversa sem futuro.
- Você não precisa ligar para ninguém, porque eu já disse que vou fazer.
A essa altura Salete já nem lembrava do mousse de chocolate. O choro havia saído da garganta para algum lugar entre o nariz e o céu da boca. E para não desabar de raiva na frente de Otávio, pegou a bolsa e levantou-se.
- Quer saber? Faça o que você quiser! Eu desisto. – e virou-se de costas.
- Ei! Vai embora assim?
- Vou. Até mais tarde.
- Se for assim é melhor nem voltar mais! – desafiou.
Dessa vez ela nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Atravessou aos prantos a praça de alimentação.
- Amor, sabe qual mágica eu queria fazer?
- Não. Qual? – pergunta o marido sem o menor interesse.
- Queria que você tivesse pelo menos 24 horas de TPM.
- Agora, ...deu! Tu quer fazer uma mágica pra me lascar?
- Não é não, amor! Eu só queria que você sentisse o quanto eu fico desorientada, pirada, doidinha nesses dias.
Ela olhou o tempo e continuou a análise.
- Acho que só assim você pode ser mais solidário, compreender de verdade minha disfunção.
- Salete, eu reclamo da tua TPM?
- Não.
- Eu brigo porque você está descompensada?
- Não... – respondeu com olhos baixos e a voz quase miando.
- Então, porque eu precisaria sentir na pele teus problemas hormonais? Eu já te respeito com ou sem TPM.
- Tá bom. Não faço mais a mágica, – decretou, com um bico de decepção – mas já vou avisando que eu não estou bem hoje.
Segundos de silêncio. Salete adiantou-se em devorar a sobremesa. Otávio pediu o café e depois de bicar um primeiro gole puxou assunto.
- Vou fazer hoje à noite aquele reparo no encanamento.
- Ãh? Você mesmo vai fazer?
- Claro. Já sei até qual o problema.
- Ah, sabe? E descobriu como? Você não é encanador. O vazamento está terrível, já atravessa a parede. Não é melhor chamar um profissional?
- Para quê chamar alguém? Eu sei fazer. Tenho as ferramentas. Faço num instante.
- Otávio, isso não vai dar certo. Você é médico, não encanador! E se piorar? – e quase sem paciência, quis deixar a história mais prática - Eu não vou deixar! Vou ligar para alguém que sabe fazer e mando ir lá em casa amanhã.
O marido bebeu num gole só o restante do café quente, e com a língua reclamando da temperatura resolveu pôr um fim àquela conversa sem futuro.
- Você não precisa ligar para ninguém, porque eu já disse que vou fazer.
A essa altura Salete já nem lembrava do mousse de chocolate. O choro havia saído da garganta para algum lugar entre o nariz e o céu da boca. E para não desabar de raiva na frente de Otávio, pegou a bolsa e levantou-se.
- Quer saber? Faça o que você quiser! Eu desisto. – e virou-se de costas.
- Ei! Vai embora assim?
- Vou. Até mais tarde.
- Se for assim é melhor nem voltar mais! – desafiou.
Dessa vez ela nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Atravessou aos prantos a praça de alimentação.
“Eu falei para aquele insensível, sem coração, que eu não estou bem... eu não estou legal... Mas ele não se importa. Ele sempre sabe fazer tudo. É o melhor em tudo! Eu é que sou a louca, a inútil. Agora quer que eu nem volte pra casa! Volto sim! Ele faça o que quiser. Fure todos os canos. Eu é que não digo mais nada! Ingrato”.
15 minutos depois...
- Alô.
- Amor?
- Oi... Você tá mais calminha, tá?
- Tô sim... Mas não briga comigo mais não...
- A gente brigou foi? Nem percebi.
- Amor?
- Oi... Você tá mais calminha, tá?
- Tô sim... Mas não briga comigo mais não...
- A gente brigou foi? Nem percebi.
Naquela noite dormiram em paz. Os pratos sujos sobre a pia.
28 abril, 2008
De passagem
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