21 maio, 2008

De susto


E lá estava a caixa.
Sozinha.
Trancada.
Velha conhecida do felino,
que se acostumou a roçar-lhe as quinas
e brincar com cuidado ao seu redor.

Cansado de desvendar mistérios,
havia prometido:
Não abriria nada de novo.
Naquele dia não resistiu.
Deixou a pata escorregar
inclinou-se mais para dentro.

Os versos, dores e dúvidas sob a tampa
lhes saltaram aos olhos
aceleraram o peito
esfriaram o corpo.
Depois se agarraram a sua cabeça
num ruído fatal.

Tarde demais...
O mundo girou.
A luz apagou.
A curiosidade matou o gato.

15 maio, 2008

O Detran e eu: último capítulo


Há dois dias a auto-escola me ligou informando que minha prova prática no Detran estava marcada para hoje.

- Mas, como? Ainda tenho seis aulas para fazer.
- Ah, não dá para desmarcar. Venha agora fazer as aulas.
A voz do outro lado da linha só poderia estar brincando. Ir agora?

No dia seguinte estava lá. Mudei de instrutor e revisei com bem mais segurança todos os passos cobrados no teste. Treinei das 7h às 11h e voltei para casa com uma certeza: hoje eu me tornaria uma motorista habilitada.

...

A noite de ontem foi um pesadelo. E não falo no sentido figurado da palavra. Riva - com muita tosse e uma febre insistente - sofreu a noite inteira. Eu, com a cabeça a mil, querendo obrigar o corpo a dormir. O sono só chegou após a meia noite, e veio acompanhado de pesadelos. Confusos, perturbadores. Sonhei com a prova. Senti angústia. Melhor não dormir mais...
...

Levantei às 5h30 e, apesar do mau presságio da noite, não estava nervosa. Aproveitei para dormir no carro a caminho do Detran onde, mais uma vez, esperei quase duas horas para começar a prova.

Enquanto isso, a chuva castigava o Recife. Não era garoa, mas tempestade, daquelas com ventania e pingos largos fazendo barulho no capô dos carros. A roupa já estava úmida, os braços tremiam de frio e comecei a pensar o quanto seria complicado fazer minha primeira baliza oficial debaixo de um “super-toró-atômico”. Apesar de tudo: nada de medo. Preferi não procurá-lo.

Carimbaram minha ficha, apontaram o carro e segui. Quando entrei, o senti como velho conhecido. Sabia o que fazer e fiz. Manobra, curva, rampa, garagem. A minha frente, quase uma dezena de candidatos já havia entregado o carro aos fiscais. Fim de linha para eles.

A chuva cessou todo o tempo em que estive no pátio e segui o percurso com tranqüilidade. A impressão que tive é que nenhum fiscal percebeu que eu era mais uma candidata em análise. Eles me olhavam, indicavam com o braço a próxima tarefa, diziam no máximo um “pode sair”, e viravam de costas. Ninguém me julgou. Nem mesmo na temida baliza (que fiz muito mal, por sinal), ninguém reclamou. Extrapolei o tempo permitido e ainda assim o fiscal só pegou minha ficha e disse: “Seu tempo já foi e você ainda tá aí? Pode tirar o carro e ir embora”. “Agora mesmo, meu filho!”.

Estacionei o carro no pátio sem saber se havia ou não passado. Até que outro fiscal chegou com a novidade. “Pode deixar o carro aí. A carteira você pega em dois dias”. E virou-se.

A motorista segura virou menina de perna bamba, mas conseguiu sair do Detran pulando e sorrindo sozinha. A roupa ensopada da chuva.

06 maio, 2008

Maduro


Esse homem que amanhece,
carrega o aroma de uma nova primavera
A tez marcada
O olhar sábio
O passo firme.

Esse home que me acompanha
é melhor do que o que conheci
Tornou-se mais sereno, admirável,
confiante e confiável
Um homem de brilho, sorriso e música.

Você, amado homem,
acorda em festa e me presenteia com seu sabor
Maduro.
Gosto doce do pecado que hei de cometer
pela eternidade.

...............

Feliz aniversário!

03 maio, 2008

Invencionices


Tenho verdadeiro encanto pelas pessoas capazes de criar, porque além de gênios da observação, são mestres na execução. Os criadores percebem a necessidade de um grupo de pessoas e já se põem a fabricar algo que lhes facilite a vida. Mas isso, creio, é uma característica dos espíritos inquietos, aqueles que sempre buscam mais.

Na condição de ser totalmente adaptável, nunca havia tido nenhuma grande idéia que merecesse ser posta em prática em forma de máquina. Pelo menos até hoje, quando sinto uma falta enorme de um simulador de direção.

Queria receber agora a grande notícia de que não sou a primeira a pensar nisso e que posso acessar tal site e baixar grátis o meu simulador. Não faria questão de mandar buscar via sedex os acessórios complementares como embreagem, freio, acelerador, setas e câmbio de marchas. Eles chegariam a minha casa em três dias úteis e eu seria uma aluna de auto-escola infinitamente mais feliz, e o melhor, mais segura!

A nova lei de trânsito exige que os candidatos a uma Permissão Para Dirigir (PPD) tenham no mínimo 15 aulas práticas antes de fazer a prova do Detran. Já estou em minha oitava aula e me sinto uma verdadeira inútil no trânsito. O que não acho ser uma responsabilidade exclusivamente minha.

O tal professor da auto-escola senta ao meu lado no carro e me joga aos leões das fervilhantes ruas do Recife. Me diz a hora de passar a marcha, ligar a seta, cada movimento na hora de fazer curva e tudo mais. Ele quase não larga a direção e ainda vive apertando o freio ou trocando a marcha quando eu nem pensei em fazer isso. Poxa! O cara tem a voz toda mansa, mas dirige por mim o tempo todo! Quando vejo, acaba a aula e volto frustrada para casa...

A parte teórica da coisa foi muito mais simples, porque dependia apenas do meu esforço. Eu estudava a qualquer hora, em qualquer lugar.Me preparei de acordo com minhas necessidades e passei. Mas como posso fazer isso com a prática sem o meu simulador direção?

Se ele existisse, certamente estaria agarrada a ele nesse momento. Mas não vale ser daqueles de Fórmula 1. Tem que ser uma simulação de dia-a-dia de uma metrópole. Na tela do computador, uma rua virtual com carros, ônibus, pedestres e cachorros estaria me esperando. E eu iria experimentar a tal direção por conta própria, e por muito mais tempo que meras quinze horas de aula.

Riva acabou de me emprestar o carro (total prova de amor), para eu treinar um pouquinho. Um fiasco! Uma droga! Cometi quase todos os erros que alguém pode ter no trânsito. Assim, nunca vou me tornar uma boa motorista. E se tem uma coisa que eu detesto são os maus motoristas! O pior é que se depender das sete aulas que me restam, é assim que vou chegar ao Detran no dia da prova.

..............

Definitivamente, eu preciso de um simulador!

02 maio, 2008

Gota d'água


Salete acordou estranha: angústia, insegurança, choro preso entre a garganta e o tórax. Olhou o calendário. “Eu sabia!” Sentiu de cara que sua velha conhecida TPM veio com todo gás daquela vez. Preferiu prevenir logo o Otávio, e foi lá pelo final do almoço que ela começou.
- Amor, sabe qual mágica eu queria fazer?
- Não. Qual? – pergunta o marido sem o menor interesse.
- Queria que você tivesse pelo menos 24 horas de TPM.
- Agora, ...deu! Tu quer fazer uma mágica pra me lascar?
- Não é não, amor! Eu só queria que você sentisse o quanto eu fico desorientada, pirada, doidinha nesses dias.
Ela olhou o tempo e continuou a análise.
- Acho que só assim você pode ser mais solidário, compreender de verdade minha disfunção.
- Salete, eu reclamo da tua TPM?
- Não.
- Eu brigo porque você está descompensada?
- Não... – respondeu com olhos baixos e a voz quase miando.
- Então, porque eu precisaria sentir na pele teus problemas hormonais? Eu já te respeito com ou sem TPM.
- Tá bom. Não faço mais a mágica, – decretou, com um bico de decepção – mas já vou avisando que eu não estou bem hoje.
Segundos de silêncio. Salete adiantou-se em devorar a sobremesa. Otávio pediu o café e depois de bicar um primeiro gole puxou assunto.
- Vou fazer hoje à noite aquele reparo no encanamento.
- Ãh? Você mesmo vai fazer?
- Claro. Já sei até qual o problema.
- Ah, sabe? E descobriu como? Você não é encanador. O vazamento está terrível, já atravessa a parede. Não é melhor chamar um profissional?
- Para quê chamar alguém? Eu sei fazer. Tenho as ferramentas. Faço num instante.
- Otávio, isso não vai dar certo. Você é médico, não encanador! E se piorar? – e quase sem paciência, quis deixar a história mais prática - Eu não vou deixar! Vou ligar para alguém que sabe fazer e mando ir lá em casa amanhã.
O marido bebeu num gole só o restante do café quente, e com a língua reclamando da temperatura resolveu pôr um fim àquela conversa sem futuro.
- Você não precisa ligar para ninguém, porque eu já disse que vou fazer.
A essa altura Salete já nem lembrava do mousse de chocolate. O choro havia saído da garganta para algum lugar entre o nariz e o céu da boca. E para não desabar de raiva na frente de Otávio, pegou a bolsa e levantou-se.
- Quer saber? Faça o que você quiser! Eu desisto. – e virou-se de costas.
- Ei! Vai embora assim?
- Vou. Até mais tarde.
- Se for assim é melhor nem voltar mais! – desafiou.
Dessa vez ela nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Atravessou aos prantos a praça de alimentação.

“Meu Deus! Ela fica doida mesmo! Melhor eu deixar tudo pingando e não mexer naquela torneira – pelo menos até o fim da semana”.

“Eu falei para aquele insensível, sem coração, que eu não estou bem... eu não estou legal... Mas ele não se importa. Ele sempre sabe fazer tudo. É o melhor em tudo! Eu é que sou a louca, a inútil. Agora quer que eu nem volte pra casa! Volto sim! Ele faça o que quiser. Fure todos os canos. Eu é que não digo mais nada! Ingrato”.

15 minutos depois...

- Alô.
- Amor?
- Oi... Você tá mais calminha, tá?
- Tô sim... Mas não briga comigo mais não...
- A gente brigou foi? Nem percebi.

Naquela noite dormiram em paz. Os pratos sujos sobre a pia.

28 abril, 2008

De passagem


Não penso o futuro
No máximo, a semana seguinte
Não planejo
Sou borboleta
Estou de passagem.

Careço da luz de hoje
E que não haja chuva
No tempo que me resta
Vôo, pouso, bailo
Dançarina do vento.

Enquanto meu texto não vem...


"Eu evito fazer psicanálise para não ficar bem resolvido. Tenho medo de que isso me impeça de crescer. Porque uma pessoa bem resolvida não fica angustiada como eu... Roendo os dedos, com crises de insegurança à noite. Elas ficam lá, pacificamente, pensando coisas sábias. Só que a falta de juízo e a inquietação construíram muito mais que as coisas sábias. Se Colombo fosse muito bem resolvido, eu não sei se ele iria ficar com um monte de marujos, navegando para ver o que tinha além do horizonte”.

Nizan Guanaes

08 abril, 2008

Simplesmente, mais uma.


Acordo. Amo Riva. Lavo a roupa, deixo os pratos para mais tarde – talvez amanhã. Trabalho no mesmo lugar há anos. Cumprimento a todos com educação e certa distância. Ligo para minha mãe e para as amigas (se der tempo). Falo rápido com voinha, conto as novas à Marcelle.

Faço compras. Não vou à igreja. Nego esmola. Temo crianças em sinais. Faço farras. Não conto piadas. Adoro ouvir histórias. Não sei cantar, mas canto assim mesmo. Às vezes bebo demais. Outras tantas faço besteiras, a maioria perdoáveis. Tenho ressaca.

Minha cara é de índia. Olhos puxados demais. Boca grande demais. O cabelo sem tinta. O rosto que todo mundo conhece alguém “igualzinha”. Não sou alta, nem baixa. Não sou gorda, nem magra. Não sou chata, nem tão simpática assim. Sou exibida, mas moderada pelo bom senso. Minha voz não é bonita, mas sei ser sexy quando necessário. Não sei falar inglês, mas brinco com meu idioma como poucos. Nunca andei de avião, mas uma vez fui de navio a Fernando de Noronha. Adio filhos, carro, viagens à Europa.

Sou bicho da noite. Adoro sambar. Fico em casa. Não faço regime. Faço brigadeiro. Assisto a filmes. Admiro os heróis. Me emociono com a caridade, o desprendimento e o voluntariado. Desligo a TV. Ligo o despertador. Amo Riva. Durmo aconchegada e feliz.

Para muitos observadores, uma vida mediana. Para mim, a que eu escolhi e lutei para ter. E agora preciso citar Dante Accioly:
“Fui bombardeado pela insegurança, pelo conformismo e pela desambição. E aceitei esse bombardeio placidamente. Deixei que os dias me transformassem nisso que sou agora. (...) Medíocre, apenas. Simplesmente, mais um”.

E sabe o que é mais grave? Mesmo percebendo nela certa tendência à mediocridade, ela não me incomoda, nem me move. Sou estática por natureza. Sem feitos notáveis na infância; uma adolescência conturbada como qualquer outra; a maturidade chegando mansa. Só os grandes sacolejos me tiram do lugar. No mais, a vida me leva e eu confio que a estrada será tranqüila e trará os devidos presentes e agruras.

Meu caminhar é ordinário, compassado. As chegadas, intermediárias, nunca em primeiro lugar. Os resultados, sempre melhores que o esperado. E é bem assim que eu gosto. Será um grande pecado não desejar ser notável?

A Dante, por me levar a pensar...

01 abril, 2008

Só uma menina

Foto: Riva (Vale do Catimbau / PE)

“Uma menina observadora, doce, tranqüila e sempre mais madura que as outras da sua idade”. Foram essas as primeiras observações feitas por minha mãe, quando perguntei quem eu era quando criança. Segundo ela, apesar disso tudo, eu era também um tanto “seca”, avessa a carinhos e dada a poucos amigos.

“Sabia o que queria. Argumentava, brigava e insistia até conseguir”, e mais: “Questionava tudo. Ouvia a resposta e voltava para o lugar, como se precisasse maturar cada aprendizado”. As informações me transportaram de volta àquele tempo. Nem lembro desde quando o silêncio era o melhor companheiro. Gostava de ficar sozinha e não costumava criar laços. Minhas companhias levavam o momento de uma atividade escolar ou de uma brincadeira – nunca com grandes grupos.

Desde o primeiro ano na escola tive apenas um amigo ou amiga na classe. Nunca mais que isso. Recordo detalhes da sala de aula: as mesinhas, os desenhos nas paredes, a letra da professora no quadro negro; mas apenas o nome de um colega por série. Os outros eram meros figurantes.

Em casa, meu lugar preferido era entre as bonecas, de quem cuidava com zelo materno e onde passava horas esquecidas. Ali mergulhava nas vidas que sonhava ter. Era magra, médica, casada com um cara lindo, mãe de duas filhas e ia com todos à praia nos fins de semana.

Brinquei de boneca até os 16 anos, quando um namorado apareceu lá em casa sem avisar e me surpreendeu deitada no chão conversando com duas Barbies. A vergonha foi tanta que resolvi encaixotar os brinquedos e relegar minhas velhas amigas ao fundo de uma prateleira.

A separação nem foi tão dolorida... A essa altura, as bonecas já haviam mesmo perdido espaço para uma outra companheira, dessa vez, inseparável: a escrita. E lá estava mais uma razão para permanecer quieta. Escrever era um momento meu que não precisava nem desejava compartilhar. Fiz minha primeira poesia aos 10 anos, aos 11 tive a primeira redação premiada, comecei a participar do jornal da escola e nunca mais parei. Adeus Medicina...

Ouvindo Mainha falar dessa menina e tentando encaixá-la em minhas lembranças, acho que ela deve ter se sentido muito sozinha. Mas logo chega à mente uma figura que prova o contrário: Fernanda, minha grande cúmplice de infância. A primeira amiga com quem dividi meu misterioso mundo. Com ares de boa moça, reservada e de sorriso largo - como o meu -, éramos como almas gêmeas. E embora não fôssemos populares, nem assediadas pelos meninos, éramos plenamente felizes.

Juntas compartilhamos amores platônicos, assistimos desde Xuxa a Barrados no Baile, ouvimos música romântica até ir às lágrimas, coreografamos Paquitas, Trem da Alegria e Menudos, dançamos Jazz, escrevemos sobre a eternidade do amor e da amizade. E chegamos ao limite de nos fazer irmãs de sangue num ingênuo ritual de dedos furados.

Queríamos cultivar um sentimento imortal, e assim seguimos, dos sete aos quinze anos, quando o capricho adolescente nos venceu e a vida tratou de nos afastar. Perdê-la foi como morrer, só que com mais dor. Murchei para o mundo e carreguei por dias um luto sufocante, um desespero, que durou até conhecer Edna, e amá-la desde o primeiro olhar. E tudo passou a fazer sentido...

Aprendi com Fernanda que a vida precisa de espaço. As pessoas e fases precisam ir para dar lugar a outras histórias. Nem mais, nem menos especiais, só novas, dentro de um novo tempo. Uma lição que por mais que eu estudasse, inventasse ou insistisse, jamais aprenderia sozinha.

Hoje, 15 anos depois, perdi a conta das despedidas, das saudades, dos amores à primeira vista, dos encontros e reencontros. Todos únicos na alegria e na dor. Histórias amarradas a mim pela eternidade, que saem sem subtrair porque já têm lugar cativo.

A menina doce, tranqüila e observadora continua aqui e morre de medo de perder gente, de mudar de lugar... Sorte a dela ter aprendido a criar laços, a dar as mãos e amadurecer com o amor.

Às amigas ausentes da vista, que sempre vão morar aqui.

19 março, 2008

Todo dia...



Chega a noite e não vejo mais a lua grandiosa, flutuando toda sua amarelidão a um palmo das águas do Capibaribe.
Saio da sala olhando o relógio. Entro no carro e aproveito o caminho para revisar o texto.
De tão ocupada, não vejo a rua, nem temo os meninos que se aproximam da janela a cada sinal vermelho.
Chego à TV, subo as escadas correndo, retoco a maquiagem, me posiciono sob os holofotes.
São seis horas.
Gravo o programa - ainda com a insegurança de uma principiante.
Tento disfarçar o cansaço de um dia que mal começou.
São seis e vinte.
Hora de entrar na ilha de edição. REW – PLAY – FWD – STOP
Ouço, anoto, ouço de novo.
Troca a fita, passa para o computador.
Rende, corta, calcula... E assim segue a noite.
A fome chega. Bebo água.
A cabeça dói. Passo a mão no olho. Bebo água.
Dentro da TV, o dia se repete em câmera lenta.
Afundo na cadeira, olho o relógio pela décima vez em dois minutos.
Programa montado e revisado.
Meia noite.
É hora de ir.
Entro no carro, dou boa noite, vencida pelo cansaço, sigo calada até em casa.
Pela janela, procuro a lua. Ela nunca está.
Desço do carro quase correndo.
A chave na fechadura antecede o melhor momento do dia.
Abro a porta e lá está ele, cochilando entre os lençóis.
Em seu olhar, a força de volta, a recompensa, a quietude.
Por mais uma noite, não tive a lua, mas o brilho dele me põe para dormir.

10 março, 2008

Descoisada




Perdi a linha, a gentileza e os bons modos e saí sem destino, apavorada com tanta falação inútil.

Movimento demais, computador lento e conversa mole desafiam minha serenidade - e ela perde.

Despenteio o cabelo, olho de banda, circulo sem rumo pela sala. Sou bicho acuado.

A paciência se perdeu no caminho até o trabalho, o bom humor não deu as caras.

Por isso não quero sorrir, nem atender ao telefone, nem fazer o jantar.

Também não vou analisar o Big Brother, só quero que Marcelo saia, e pronto!

No mais, me esqueçam.

Desejo não dizer nada, desligar o rádio e a TV, e comer muitas besteiras.

Quero tomar sorvete até enjoar, me abraçar ao silêncio e dormir até tarde.

E quando acordar, se eu der bom dia, responda;

senão, melhor não se aproximar.

Porque hoje... é bom avisar...

Hoje eu tô com TPM!

04 março, 2008

A habilitação - parte I

O dia começou mais cedo que os de costume. Acordei às seis horas, tomei café com Riva, levamos as crianças ao colégio, demos um pulo na auto-escola para pegar minha requisição e pouco depois das oito horas já estava no Detran para fazer o tão esperado exame teórico.

Desde que acabou o carnaval substitui a literatura pela leitura diária do Código de Trânsito Brasileiro (até meu novo exemplar de Gabriel Garcia Marques voltou à prateleira). Nas últimas semanas, me senti uma adolescente às vésperas do vestibular. Cheguei a recusar convites para farras, com um argumento incontestável: “Tô estudando para a prova do Detran”. As amigas balançavam a cabeça e sorriam irônicas: “Só você perde tempo estudando isso, Maxandra”. É, só eu, mas em compensação, quem tiver qualquer dúvida sobre direitos e deveres do condutor, pode me perguntar.

Estudei tudo: placas, penalidades, multas, direção defensiva, mecânica, primeiros socorros. Li, reli, fiz e refiz os questionários, desenhei possibilidades, anotei cada palavra do professor. Mesmo assim não pude evitar passar quase todo o tempo da fila de espera revisando a apostila.

Três horas de fila chega a ser uma crueldade, mas acabei tendo tempo de sobra para estudar e pensar na vida. Foi quando percebi que, de repente, o Universo planejou uma conspiração para me fazer sair do lugar.

Sou tranqüila e demente em excesso. Não tenho grandes ambições, nem costumo vislumbrar mudanças. Talvez por isso o destino precise dar um empurrãozinho de vez em quando. Então, me joga nas mãos mil oportunidades, todas ao mesmo tempo, para testar meu poder de lidar com elas. Novos rumos profissionais, possibilidade de equilibrar as finanças e até de conseguir a tão protelada carteira de motorista.

Tudo remexendo em minha cabeça, uma coisa esbarrando na outra meio sem direção, e eu tentando clarear as idéias, separar as novidades em montinhos e descobrir por onde começo. Até que chamaram meu número: 001 (a numeração virou porque mil pessoas foram atendidas antes de mim).

Entrei na sala e encarei o computador com o espírito preparado. Ensaiei uma tremedeira, mas respirei fundo e não fiquei nervosa! As respostas brotavam ao final de cada questão e em 12 minutos terminei e prova e li o veredicto: 29 pontos – APROVADA!

Fim da primeira etapa. Ah, essa foi fácil! Difícil mesmo vai ser achar um fusca pra chamar de meu...

28 fevereiro, 2008

Da saudade


Hoje acordei e sem querer já me danei a pensar na vida sem você por perto. Fui montando uma rotina diferente para tentar suprir os buracos deixados com sua partida. E assim, ainda sonolenta, arrisquei por alguns minutos refazer os passos do dia.

Em cada sala que esperava encontrar vazia, você ainda estava. Em cada almoço regado à conversa fiada, cada segredo compartilhado, e num café no meio da tarde, era seu rosto que surgia. E quando seus inquietos olhos verdes me miravam, me dava conta de que mais uma prospecção havia dado errado. Então, dava dois passos para trás, fechava os olhos e começava tudo de novo. Em vão...

Sua ida é nobre, justa e deveria ser cercada de alegria. Mas como aceitar isso, se alegria mesmo é o ritmo manso da sua voz, a sua presença sempre materna, as palavras precisas nas horas em que todos já calaram? Alegria é ter identificado desde o primeiro olhar uma grande amiga, a mais segura, pirada, madura e infante que já conheci. Sem mistérios, mas indecifrável. A verdade sem cortinas, mas com ternura.

Agora confesso o quanto vai me custar perder tanto num momento tão frágil. Não é a hora de ficar sem uma amiga, mas, ora, eu não posso escolher tudo! Resisti um mês inteiro. Tentei ser madura e racional como de costume. Hoje não deu, acordei com essa saudade que, mesmo cruel, chega como um presente para enternecer minha alma perturbada por coisas pequenas.

E o peito escurecido pela mesquinhez, a decepção e a até a raiva, volta a ser terra fértil para o amor quando sente a sua saudade.

À Gê...

12 fevereiro, 2008

As trevas depois da luz


Sou uma pessoa feliz por vários motivos. Um deles é a sorte de ter encontrado tantos irmãos e irmãs ao longo de minha curta estrada. Os nomes nem vêm ao caso, porque todos sabem que o são, mas hoje preciso citar alguns deles para contar essa história. Marcelle, minha irmã de carne; Mainha, que me pariu por mera circunstância do destino; Riva, o amor que me esteia e fortalece; e Adriana, a louca mais divertida do mundo. Foi ela quem me entregou essa semana um CD cheio de fotos do nosso carnaval. Fotos que nem precisam de legenda, mas merecem.

Por ter vivido um carnaval atípico, acabei ficando ansiosa demais para o único dia em que poderia brincar: o dia dos Amantes de Glória. Preparei a fantasia, os adereços, finalizei os detalhes. Saímos de casa no maior alto astral, com um litro de vodka embaixo do braço e muito a fim de ficar sem noção.

Chegamos tarde na Rua da Guia - local da concentração - por isso nos adiantamos em “iniciar os trabalhos”, e não ficar para trás de quem já havia começado há duas horas. Vodka, gelo, refrigerante. Mistura, distribui, vira.

- Põe logo outro, que tô com sede!
- Lá vai...
- Agora sim! Corre que o bloco tá saindo!
- ‘Simbora!

Não tínhamos dinheiro para pôr o bloco na rua esse ano. Na verdade, mal conseguimos pagar a orquestra. Mas deu certo e lá estávamos nós e a galera do Maestro Mendes juntos novamente, em mais uma segunda-feira. Os amigos, as fantasias, o estandarte cujo talabarte sempre quebra no meio do desfile, os filhos, os pais, aquele rastro verde invadindo as ruas apertadas do Recife Antigo, cavando espaço onde não cabe mais nada, mudando de plano em cada esquina e alterando o percurso. Uma alegria que só quem é de Glória reconhece e ama.

Foi em êxtase de amor, felicidade e realização que sorvi como quem bebe a vida cada gota que passava pelo meu copo e depois, pela minha vista. Não sei de onde partiu a idéia genial, mas resolvi beber tudo de todos, especialmente da garrafa que transpirava de tão gelada nas mãos de meu amigo Giba. Era whisky e eu nem gosto de whisky. Mas desejava aquele como nunca desejei outro.

E foi bem no meio da Rua Bom Jesus, entre tropeções, pulos e o hino dos Amantes, que consegui driblar a resistência do dono da garrafa e tomá-la. Bebi com gosto, uma, duas, três vezes, sei lá. Depois devolvi o prêmio a quem pertencia, virei de costas e segui o fluxo.

Àquela altura o bloco atingiu a perfeição. O verde das camisas estava mais vivo e quando eu pulava, ganhava novos tons, misturados com branco e um pouco de rosa. Então, me mexi muito, dei voltas em torno de mim mesma sem parar, braços abertos. Bem rápido, e mais rápido... Essa é minha última lembrança da segunda-feira. Uma visão pessoal e indescritível: o carnaval mais fantástico e inacreditável do mundo!!!

Depois disso, algumas breves palavras: Acorda. Samu. Coca cola. Banho. Ai, que frio! Quando acordei na terça-feira, roupa trocada, banho tomado, deitada na minha cama, olhei para Riva e tive medo de perguntar. Ele falou primeiro:

- Você tá melhor?
- Tô enjoada e tonta. A gente perdeu o carnaval, não foi?

Ele sorriu e não respondeu. As ligações foram chegando e o quebra cabeça do meu apagão foi montado. Eu desliguei logo depois da tal “rodada fantástica”, vomitei até a alma, e só voltei para casa carregada por Riva e Fábio, namorado de Adriana. Um espetáculo vergonhoso, mas devidamente registrado por esses mui amigos que, apesar da situação, tentavam me reanimar e me transportar com o maior bom humor.

O resto do dia foi de moleza no corpo, distonia, um tremor interno, tontura, dor, muita dor. Mas a ressaca física seria uma bobagem se viesse sozinha. Meu porre me deixou um presente bem pior: a ressaca moral de ter acabado com a festa das pessoas que mais amo. Com o único dia de carnaval de minha mãe, com o show de Alcione que Marcelle não viu, e o da Mangueira, tão esperado por todos (especialmente por Adriana, que deixou de ir ao desfile no Rio para assistir à Velha Guarda comigo, no Marco Zero).

Superei o mal estar e fui ao Mister Chin tentar ser útil. Corpo resolvido. Restava curar a alma, ainda doente de tanta culpa. E por isso esse post é para todos que estavam ao meu lado quando nem eu estava. Porque, diferente do que eu merecia, não tiveram mais clima de ir à farra depois de me verem desmaiada e ainda conseguiram sorrir aliviados quando me viram no dia seguinte.

- Que bom que tu está de volta... Pensei que ia te perder para sempre.
- Desculpa, gente, nunca mais faço isso!

Promessa é dívida.

06 fevereiro, 2008

Anotações de quarta-feira



Foi na sexta-feira, depois do Lili e já perto de voltar para casa que dei de cara com ele. Estava misturado a tantos outros, uns 50 talvez, e eram tão parecidos que nem sei como nosso encontro aconteceu. Só sei que ele foi o primeiro que peguei no tabuleiro. Pus na cabeça e pronto, não tirei mais.

Nesse pré-carnaval tão atípico, quando não me dediquei como de costume às fantasias e planejei só a da saída dos Amantes, aquele chapéu cruzar meu caminho na véspera do Sábado de Zé Pereira mais parecia um presente de deuses pagãos. Era colorido, mas tinha a alma verde e rosa, como a minha anda. Sem falar que me dava um ar de "show woman". Com ele na cabeça, me senti algo entre apresentador de circo e Chacrinha, e só queria dizer bem alto e de braços abertos: "respeitável público".

Sim. Ali estava meu novo companheiro
de farra. Precisava perguntar o preço, embora isso nem importasse. Não queria negociar, apenas pagar e oficializar logo que a gente pertencia um ao outro. E foi com um sorriso descarado no rosto que sai desfilando pelo Recife Antigo com o mais lindo adereço que já tive, ansiosa para o dia amanhecer e mostrá-lo a todo mundo.

Cumpri à risca a programação diurna do Carnaval: Olinda de sábado a terça-feira.
Mesmo sem fantasia, criei um look "sem noção" para cada dia, e com o chapéu na cabeça e o espírito de grande estrela da TV comecei mais uma folia de Momo. Riva comigo.















Não enfrentamos nenhuma multidão. Não acompanhamos nenhuma troça e quase não subimos ladeiras. Também não levamos banho de pistola, nem torramos a cabeça sob o sol quente. Ficamos na sombra, ouvimos frevo o dia inteiro, fizemos novos amigos, sorrimos e beijamos muito. Para hidratar, água de coco. Deu tempo até para descansar e jogar paciência nas horas de pouco movimento.

Foi assim nosso Carnaval no Mister Chin, que ainda nos proporcionou a nobre missão de alimentar foliões alegres, famintos e cansados. Um Carnaval
bem diferente dos outros anos. Mas muito, muito bom.

01 fevereiro, 2008

Mr. Chin: o cansaço nosso de cada dia


Pensei, por esses dias, em escrever um livro: a difícil arte de ser empreendedor. Nada muito extenso ou aprofundado, poucas páginas – se possível, ilustradas com fotos de antes e depois – onde contaria minha recente experiência como colaboradora / quase empresária do ramo de alimentos.

No início do ano Riva decidiu abrir uma filial de um restaurante chinês: o Mister Chin. Claro que imaginei que isso alteraria nosso ritmo de vida, mas nada muito drástico... Ledo engano! O que parecia um divertido desafio empreendedor, cercado de conversas sobre a Lei da Atração e muita comida gostosa, não demorou em se transformar em horas e horas de puro cansaço, estresse e mau humor. É... Muito mau humor (até então desconhecido em tamanha proporção) apresentado a mim pelo Mr. Chin.

Inauguramos cedo demais, com muitos pontos pendentes, que resolvemos ao longo dos dias, à custa de muito transtorno e erros. Mesmo assim, o primeiro dia foi uma festa. Recebemos os amigos entre sorrisos e descartáveis cheios de yakisoba. Quando tudo acabou, vi que fazer parte daquilo não tinha nada de sonho.

Os poucos dias que tirei de folga da Câmara foram gastos ali dentro. Sim, gastos. Os mais desgastantes de que me recordo. Acordei, dormi, sonhei Mr. Chin. Não tive um segundo de sossego. Acabei antecipando a volta ao trabalho como repórter, e só após dois dias sendo Mack-jornalista senti retornar minha paz de espírito.

Nem sei quantas vezes me culpei por estar me sentindo assim em relação a um investimento de Riva. Não só financeiro, mas profissional, porque vi quantas vezes ele também esteve sem paciência e morto de cansado, mas ficava lá, bolando formas de otimizar o trabalho.

Mas a culpa logo foi esquecida diante da consciência, da percepção de minha verdade. Eu não sou aquilo! Não tenho vocação para cuidar de verduras na Ceasa, carnes, embalagens, compras diárias, fornecedores, cuidados com o preparo, pagamento de funcionários... Isso me deixa exausta, sem luz, uma morta-viva, ou melhor: uma viva-muito-morta!

Eu sou leveza, encontros breves, fechamento de jornal, tempo para ler, inspiração, novela, ações sociais, rua. Parece que nasci com isso entranhado, por isso meu trabalho nunca doeu, e sempre tive tempo para sorrir, cantar, sambar. Desde que o Mr. Chin abriu nunca mais escrevi, cantei, nem dancei sem sentir culpa por não estar lá trabalhando. Um trabalho que parece não ter fim!

Isso é que é dilema!

Não quero deixar Riva carregar esse fardo sozinho. Mas também não quero que isso roube uma das poucas coisas que conquistei nesses quase 30 anos: minha qualidade de vida.

Esse Carnaval não será de farras. Só de trabalho – mas consegui reservar o dia dos Amantes de Glória, porque ninguém é de ferro. Quando a Quarta-feira de Cinzas passar, minha rotina na Câmara volta ao normal e ainda não sei quanto tempo me sobrará para ser empreendedora.

Para quem tem na veia um sangue que borbulha, para os cheios de energia e idéias inovadoras, para quem adora acordar cedo, esse negócio de ser empresário é fantástico.

Para mim, aspirante à escritora, boêmia e sossegada, é pesado demais!

Pronto. O livro está feito. Habilite-se quem quiser.

29 janeiro, 2008

Isaltina


Há meses tentava engravidar e não conseguia. A situação já beirava o trauma quando tivemos a grande idéia: adotar um cachorro. Algo bem pequeno, que não nos desse muito trabalho e pudesse me deixar mais tranqüila para gerar o esperado filho.

Após semanas de procura vã, recebemos a notícia de que “ela” havia nascido. Chegou aos meus braços, embrulhada em uma toalha de rosto, uma coisinha preta, com manchas brancas no pescoço, focinho e patas. Era peluda e pequena como eu queria, mas desde a primeira noite experimentei o cansaço da maternidade. Diferente do que esperava, ela dava trabalho! Seguia os meus passos por toda a casa, se desse meia volta, pisaria nela. Só dormia encostada em mim, se eu saísse, começava o berreiro por mais carinho. Passávamos tanto tempo juntas que chegava a sentir seu cheiro mesmo quando ela não estava por perto.

Como qualquer filho, escolher o nome foi uma ciência. E como logo vi que ela seria única, resolvi lhe dar um nome à altura: Isaltina, a cachorra enlouquecida. A criatura mais eufórica, alegre e incansável que já cruzou o meu caminho. Passaram dias, meses, anos... O escândalo pela vida só aumentava. Com tanto carisma, não demorou em se tornar um membro da família e o xodó dos apaixonados por cachorro.
Tinha verdadeira tara por garrafas pet – mantinha várias espalhadas pela casa e quase sempre carregava uma na boca, para poder morder o dia inteiro. Sua tendência cômica era agravada por um erro no corte do rabo, que fez com que ela nunca conseguisse balançá-lo. Sempre que tentava, era ele quem sacodia o resto do corpo, que se arrastava pelo chão em forma de “u”.

O tempo passou e Isa cresceu, cresceu muito. E ocupava espaço demais na vida de todos lá em casa. Ganhou o próprio sofá, livre acesso a todos os lugares, sentava ao centro de qualquer conversa de família, recebia com festa e se despedia dos convidados, almoçava conosco, assistia às novelas aos pés de voinha, circulava pela cozinha para filar as sobras dos preparos, dormia e acordava tarde, como todos nós.

Uma vida sedentária, que lhe deixou obesa e agravou seu problema cardíaco. O cansaço era constante nos últimos anos e a gente costumava dizer que morava uma Toyota na garganta dela. Em dezembro, Isaltina completou sete anos e, no começo desse mês, aparentou mais cansaço que o de costume, e uma estranha moleza no corpo.

Sabe-se lá porque razão, na última visita que fiz a casa de minha avó, sabia que estava vendo Isa pela última vez. O eufórico coração de Isaltina não agüentou e, na semana passada, ela não acordou.

Na família, um dia de pranto, desconsolo e muita saudade. Na casa, um silêncio incomum, uma calma inquietante, um vazio sem compensação. Na gente, o tempo parado, o pensamento longe, seguindo as lembranças de uma cachorra-louca, que nunca mais vai nos fazer sorrir...

10 dezembro, 2007

Quase mãe


Ela estava brincando e meio desatenta quando me chamou de mãe. Mas eu não, quando percebi que aquele momento chegou.

Para mim, a expressão foi a mais séria que já ouvi. Representava tudo que construímos desde o primeiro olhar, tão reticente e comedido. Ela me deixava insegura, em pânico. Como era possível? Tão pequena e desafiadora. Tão verdadeira e decidida. Sempre me encarou. Nunca me temeu.

No dia em que senti que éramos amigas, quase não durmo. Não importava o que acontecesse ou onde estivéssemos. Entre nós havia cumplicidade e confiança.

Não lembro quando, finalmente, desarmei. O instante em que pude sorrir ao vê-la chegar, porque passei a sentir alegria no lugar do medo. Medo de errar, de deixá-la se machucar, de não fazê-la feliz, de não ser boa o suficiente...

De certa forma, há muito tempo já me sentia um pouco “mãe”, mas não o seria enquanto ela não oficializasse essa situação. Partiria dela o comunicado solene do nascimento de uma nova relação. E sempre estive ciente de que talvez aquele momento não chegasse nunca. Até que ele ecoou...

Olhei desconfiada. Achei que era um lapso infantil. Não era! Ela falou, e falou de novo, e muitas outras vezes. Naquela palavra minúscula, meu espírito materno aguçado. O sonho de cuidar de um filho - adiado por minhas próprias escolhas. A consciência de não ser sua mãe de verdade, mas de ter o coração aberto pra sê-la durante o tempo que ela quiser, em todas as horas que precisar, e nas que não precisar também.

Conquistá-la foi um grande desafio. Receber seu amor é um dos maiores presentes que já ganhei.

19 novembro, 2007

Aos anjos


Quero vivê-lo em cada sussurro
na melodia da tua voz que me (en)canta.


Quero cada segundo de teu silêncio
da paz no teu rosto enquanto dormes.


Quero tua boca brincando na minha

mordendo o lábio com sede de nós.


Quero teus passos ao lado dos meus

fazendo seguro um caminho que é nosso.


Quero senti-lo, calor no meu frio

quero o calafrio em noites vermelhas.

Quero esse brilho tomando meu rosto

enquanto te mira, te cerca, te adora.

12 novembro, 2007

Ai, que calor!

foto: Bernardo Soares

Minha cidade ferve como nunca
Transparece o calor em cada detalhe
No suor escorrendo das faces brilhantes
Nas camisas manchadas, no caminhar de cabeça baixa
No alvoroço dos corpos que procuram não se encontrar.

De dentro do caldeirão que é a minha cidade
Sinto a pele arder quando o sol bate
Em vão, brinco de prender a respiração
Na tentativa de não provar da fumaça preta que escapa dos ônibus
E retoco novamente a maquiagem derretida.

Ao meu lado, atletas magricelos correm entre os carros
E penduram doces nos retrovisores
Outros, cadeirantes, driblam o trânsito vendendo canetas a um real
E o canal presenteia os passantes com o cheiro do Recife
A cidade fervorosa, que brilha como nunca.