
10 março, 2008
Descoisada

04 março, 2008
A habilitação - parte I
Desde que acabou o carnaval substitui a literatura pela leitura diária do Código de Trânsito Brasileiro (até meu novo exemplar de Gabriel Garcia Marques voltou à prateleira). Nas últimas semanas, me senti uma adolescente às vésperas do vestibular. Cheguei a recusar convites para farras, com um argumento incontestável: “Tô estudando para a prova do Detran”. As amigas balançavam a cabeça e sorriam irônicas: “Só você perde tempo estudando isso, Maxandra”. É, só eu, mas em compensação, quem tiver qualquer dúvida sobre direitos e deveres do condutor, pode me perguntar.
Estudei tudo: placas, penalidades, multas, direção defensiva, mecânica, primeiros socorros. Li, reli, fiz e refiz os questionários, desenhei possibilidades, anotei cada palavra do professor. Mesmo assim não pude evitar passar quase todo o tempo da fila de espera revisando a apostila.
Três horas de fila chega a ser uma crueldade, mas acabei tendo tempo de sobra para estudar e pensar na vida. Foi quando percebi que, de repente, o Universo planejou uma conspiração para me fazer sair do lugar.
Sou tranqüila e demente em excesso. Não tenho grandes ambições, nem costumo vislumbrar mudanças. Talvez por isso o destino precise dar um empurrãozinho de vez em quando. Então, me joga nas mãos mil oportunidades, todas ao mesmo tempo, para testar meu poder de lidar com elas. Novos rumos profissionais, possibilidade de equilibrar as finanças e até de conseguir a tão protelada carteira de motorista.
Tudo remexendo em minha cabeça, uma coisa esbarrando na outra meio sem direção, e eu tentando clarear as idéias, separar as novidades em montinhos e descobrir por onde começo. Até que chamaram meu número: 001 (a numeração virou porque mil pessoas foram atendidas antes de mim).
Entrei na sala e encarei o computador com o espírito preparado. Ensaiei uma tremedeira, mas respirei fundo e não fiquei nervosa! As respostas brotavam ao final de cada questão e em 12 minutos terminei e prova e li o veredicto: 29 pontos – APROVADA!
Fim da primeira etapa. Ah, essa foi fácil! Difícil mesmo vai ser achar um fusca pra chamar de meu...
28 fevereiro, 2008
Da saudade
Hoje acordei e sem querer já me danei a pensar na vida sem você por perto. Fui montando uma rotina diferente para tentar suprir os buracos deixados com sua partida. E assim, ainda sonolenta, arrisquei por alguns minutos refazer os passos do dia.
Em cada sala que esperava encontrar vazia, você ainda estava. Em cada almoço regado à conversa fiada, cada segredo compartilhado, e num café no meio da tarde, era seu rosto que surgia. E quando seus inquietos olhos verdes me miravam, me dava conta de que mais uma prospecção havia dado errado. Então, dava dois passos para trás, fechava os olhos e começava tudo de novo. Em vão...
Sua ida é nobre, justa e deveria ser cercada de alegria. Mas como aceitar isso, se alegria mesmo é o ritmo manso da sua voz, a sua presença sempre materna, as palavras precisas nas horas em que todos já calaram? Alegria é ter identificado desde o primeiro olhar uma grande amiga, a mais segura, pirada, madura e infante que já conheci. Sem mistérios, mas indecifrável. A verdade sem cortinas, mas com ternura.
Agora confesso o quanto vai me custar perder tanto num momento tão frágil. Não é a hora de ficar sem uma amiga, mas, ora, eu não posso escolher tudo! Resisti um mês inteiro. Tentei ser madura e racional como de costume. Hoje não deu, acordei com essa saudade que, mesmo cruel, chega como um presente para enternecer minha alma perturbada por coisas pequenas.
E o peito escurecido pela mesquinhez, a decepção e a até a raiva, volta a ser terra fértil para o amor quando sente a sua saudade.
À Gê...
12 fevereiro, 2008
As trevas depois da luz
Por ter vivido um carnaval atípico, acabei ficando ansiosa demais para o único dia em que poderia brincar: o dia dos Amantes de Glória. Preparei a fantasia, os adereços, finalizei os detalhes. Saímos de casa no maior alto astral, com um litro de vodka embaixo do braço e muito a fim de ficar sem noção.
Chegamos tarde na Rua da Guia - local da concentração - por isso nos adiantamos em “iniciar os trabalhos”, e não ficar para trás de quem já havia começado há duas horas. Vodka, gelo, refrigerante. Mistura, distribui, vira.
- Põe logo outro, que tô com sede!
- Lá vai...
- Agora sim! Corre que o bloco tá saindo!
- ‘Simbora!
Não tínhamos dinheiro para pôr o bloco na rua esse ano. Na verdade, mal conseguimos pagar a orquestra. Mas deu certo e lá estávamos nós e a galera do Maestro Mendes juntos novamente, em mais uma segunda-feira. Os amigos, as fantasias, o estandarte cujo talabarte sempre quebra no meio do desfile, os filhos, os pais, aquele rastro verde invadindo as ruas apertadas do Recife Antigo, cavando espaço onde não cabe mais nada, mudando de plano em cada esquina e alterando o percurso. Uma alegria que só quem é de Glória reconhece e ama.
E foi bem no meio da Rua Bom Jesus, entre tropeções, pulos e o hino dos Amantes, que consegui driblar a resistência do dono da garrafa e tomá-la. Bebi com gosto, uma, duas, três vezes, sei lá. Depois devolvi o prêmio a quem pertencia, virei de costas e segui o fluxo.
Àquela altura o bloco atingiu a perfeição. O verde das camisas estava mais vivo e quando eu pulava, ganhava novos tons, misturados com branco e um pouco de rosa. Então, me mexi muito, dei voltas em torno de mim mesma sem parar, braços abertos. Bem rápido, e mais rápido... Essa é minha última lembrança da segunda-feira. Uma visão pessoal e indescritível: o carnaval mais fantástico e inacreditável do mundo!!!
Depois disso, algumas breves palavras: Acorda. Samu. Coca cola. Banho. Ai, que frio! Quando acordei na terça-feira, roupa trocada, banho tomado, deitada na minha cama, olhei para Riva e tive medo de perguntar. Ele falou primeiro:
- Tô enjoada e tonta. A gente perdeu o carnaval, não foi?
O resto do dia foi de moleza no corpo, distonia, um tremor interno, tontura, dor, muita dor. Mas a ressaca física seria uma bobagem se viesse sozinha. Meu porre me deixou um presente bem pior: a ressaca moral de ter acabado com a festa das pessoas que mais amo. Com o único dia de carnaval de minha mãe, com o show de Alcione que Marcelle não viu, e o da Mangueira, tão esperado por todos (especialmente por Adriana, que deixou de ir ao desfile no Rio para assistir à Velha Guarda comigo, no Marco Zero).
Superei o mal estar e fui ao Mister Chin tentar ser útil. Corpo resolvido. Restava curar a alma, ainda doente de tanta culpa. E por isso esse post é para todos que estavam ao meu lado quando nem eu estava. Porque, diferente do que eu merecia, não tiveram mais clima de ir à farra depois de me verem desmaiada e ainda conseguiram sorrir aliviados quando me viram no dia seguinte.
- Que bom que tu está de volta... Pensei que ia te perder para sempre.
- Desculpa, gente, nunca mais faço isso!
06 fevereiro, 2008
Anotações de quarta-feira
Foi na sexta-feira, depois do Lili e já perto de voltar para casa que dei de cara com ele. Estava misturado a tantos outros, uns 50 talvez, e eram tão parecidos que nem sei como nosso encontro aconteceu. Só sei que ele foi o primeiro que peguei no tabuleiro. Pus na cabeça e pronto, não tirei mais.
Nesse pré-carnaval tão atípico, quando não me dediquei como de costume às fantasias e planejei só a da saída dos Amantes, aquele chapéu cruzar meu caminho na véspera do Sábado de Zé Pereira mais parecia um presente de deuses pagãos. Era colorido, mas tinha a alma verde e rosa, como a minha anda. Sem falar que me dava um ar de "show woman". Com ele na cabeça, me senti algo entre apresentador de circo e Chacrinha, e só queria dizer bem alto e de braços abertos: "respeitável público".
Sim. Ali estava meu novo companheiro de farra. Precisava perguntar o preço, embora isso nem importasse. Não queria negociar, apenas pagar e oficializar logo que a gente pertencia um ao outro. E foi com um sorriso descarado no rosto que sai desfilando pelo Recife Antigo com o mais lindo adereço que já tive, ansiosa para o dia amanhecer e mostrá-lo a todo mundo.
Cumpri à risca a programação diurna do Carnaval: Olinda de sábado a terça-feira. Mesmo sem fantasia, criei um look "sem noção" para cada dia, e com o chapéu na cabeça e o espírito de grande estrela da TV comecei mais uma folia de Momo. Riva comigo.
Não enfrentamos nenhuma multidão. Não acompanhamos nenhuma troça e quase não subimos ladeiras. Também não levamos banho de pistola, nem torramos a cabeça sob o sol quente. Ficamos na sombra, ouvimos frevo o dia inteiro, fizemos novos amigos, sorrimos e beijamos muito. Para hidratar, água de coco. Deu tempo até para descansar e jogar paciência nas horas de pouco movimento.
Foi assim nosso Carnaval no Mister Chin, que ainda nos proporcionou a nobre missão de alimentar foliões alegres, famintos e cansados. Um Carnaval bem diferente dos outros anos. Mas muito, muito bom.
01 fevereiro, 2008
Mr. Chin: o cansaço nosso de cada dia
Pensei, por esses dias, em escrever um livro: a difícil arte de ser empreendedor. Nada muito extenso ou aprofundado, poucas páginas – se possível, ilustradas com fotos de antes e depois – onde contaria minha recente experiência como colaboradora / quase empresária do ramo de alimentos.
No início do ano Riva decidiu abrir uma filial de um restaurante chinês: o Mister Chin. Claro que imaginei que isso alteraria nosso ritmo de vida, mas nada muito drástico... Ledo engano! O que parecia um divertido desafio empreendedor, cercado de conversas sobre a Lei da Atração e muita comida gostosa, não demorou em se transformar em horas e horas de puro cansaço, estresse e mau humor. É... Muito mau humor (até então desconhecido em tamanha proporção) apresentado a mim pelo Mr. Chin.
Inauguramos cedo demais, com muitos pontos pendentes, que resolvemos ao longo dos dias, à custa de muito transtorno e erros. Mesmo assim, o primeiro dia foi uma festa. Recebemos os amigos entre sorrisos e descartáveis cheios de yakisoba. Quando tudo acabou, vi que fazer parte daquilo não tinha nada de sonho.
Os poucos dias que tirei de folga da Câmara foram gastos ali dentro. Sim, gastos. Os mais desgastantes de que me recordo. Acordei, dormi, sonhei Mr. Chin. Não tive um segundo de sossego. Acabei antecipando a volta ao trabalho como repórter, e só após dois dias sendo Mack-jornalista senti retornar minha paz de espírito.
Nem sei quantas vezes me culpei por estar me sentindo assim em relação a um investimento de Riva. Não só financeiro, mas profissional, porque vi quantas vezes ele também esteve sem paciência e morto de cansado, mas ficava lá, bolando formas de otimizar o trabalho.
Mas a culpa logo foi esquecida diante da consciência, da percepção de minha verdade. Eu não sou aquilo! Não tenho vocação para cuidar de verduras na Ceasa, carnes, embalagens, compras diárias, fornecedores, cuidados com o preparo, pagamento de funcionários... Isso me deixa exausta, sem luz, uma morta-viva, ou melhor: uma viva-muito-morta!
Eu sou leveza, encontros breves, fechamento de jornal, tempo para ler, inspiração, novela, ações sociais, rua. Parece que nasci com isso entranhado, por isso meu trabalho nunca doeu, e sempre tive tempo para sorrir, cantar, sambar. Desde que o Mr. Chin abriu nunca mais escrevi, cantei, nem dancei sem sentir culpa por não estar lá trabalhando. Um trabalho que parece não ter fim!
Isso é que é dilema!
Não quero deixar Riva carregar esse fardo sozinho. Mas também não quero que isso roube uma das poucas coisas que conquistei nesses quase 30 anos: minha qualidade de vida.
Esse Carnaval não será de farras. Só de trabalho – mas consegui reservar o dia dos Amantes de Glória, porque ninguém é de ferro. Quando a Quarta-feira de Cinzas passar, minha rotina na Câmara volta ao normal e ainda não sei quanto tempo me sobrará para ser empreendedora.
Para quem tem na veia um sangue que borbulha, para os cheios de energia e idéias inovadoras, para quem adora acordar cedo, esse negócio de ser empresário é fantástico.
Para mim, aspirante à escritora, boêmia e sossegada, é pesado demais!
Pronto. O livro está feito. Habilite-se quem quiser.
29 janeiro, 2008
Isaltina
Após semanas de procura vã, recebemos a notícia de que “ela” havia nascido. Chegou aos meus braços, embrulhada em uma toalha de rosto, uma coisinha preta, com manchas brancas no pescoço, focinho e patas. Era peluda e pequena como eu queria, mas desde a primeira noite experimentei o cansaço da maternidade. Diferente do que esperava, ela dava trabalho! Seguia os meus passos por toda a casa, se desse meia volta, pisaria nela. Só dormia encostada em mim, se eu saísse, começava o berreiro por mais carinho. Passávamos tanto tempo juntas que chegava a sentir seu cheiro mesmo quando ela não estava por perto.
Sabe-se lá porque razão, na última visita que fiz a casa de minha avó, sabia que estava vendo Isa pela última vez. O eufórico coração de Isaltina não agüentou e, na semana passada, ela não acordou.
Na família, um dia de pranto, desconsolo e muita saudade. Na casa, um silêncio incomum, uma calma inquietante, um vazio sem compensação. Na gente, o tempo parado, o pensamento longe, seguindo as lembranças de uma cachorra-louca, que nunca mais vai nos fazer sorrir...
10 dezembro, 2007
Quase mãe

Para mim, a expressão foi a mais séria que já ouvi. Representava tudo que construímos desde o primeiro olhar, tão reticente e comedido. Ela me deixava insegura, em pânico. Como era possível? Tão pequena e desafiadora. Tão verdadeira e decidida. Sempre me encarou. Nunca me temeu.
No dia em que senti que éramos amigas, quase não durmo. Não importava o que acontecesse ou onde estivéssemos. Entre nós havia cumplicidade e confiança.
Não lembro quando, finalmente, desarmei. O instante em que pude sorrir ao vê-la chegar, porque passei a sentir alegria no lugar do medo. Medo de errar, de deixá-la se machucar, de não fazê-la feliz, de não ser boa o suficiente...
De certa forma, há muito tempo já me sentia um pouco “mãe”, mas não o seria enquanto ela não oficializasse essa situação. Partiria dela o comunicado solene do nascimento de uma nova relação. E sempre estive ciente de que talvez aquele momento não chegasse nunca. Até que ele ecoou...
Olhei desconfiada. Achei que era um lapso infantil. Não era! Ela falou, e falou de novo, e muitas outras vezes. Naquela palavra minúscula, meu espírito materno aguçado. O sonho de cuidar de um filho - adiado por minhas próprias escolhas. A consciência de não ser sua mãe de verdade, mas de ter o coração aberto pra sê-la durante o tempo que ela quiser, em todas as horas que precisar, e nas que não precisar também.
Conquistá-la foi um grande desafio. Receber seu amor é um dos maiores presentes que já ganhei.
19 novembro, 2007
Aos anjos

Quero vivê-lo em cada sussurro
na melodia da tua voz que me (en)canta.
Quero cada segundo de teu silêncio
da paz no teu rosto enquanto dormes.
Quero tua boca brincando na minha
mordendo o lábio com sede de nós.
Quero teus passos ao lado dos meus
fazendo seguro um caminho que é nosso.
Quero senti-lo, calor no meu frio
quero o calafrio em noites vermelhas.
Quero esse brilho tomando meu rosto
enquanto te mira, te cerca, te adora.
12 novembro, 2007
Ai, que calor!
Minha cidade ferve como nunca
Transparece o calor em cada detalhe
No suor escorrendo das faces brilhantes
Nas camisas manchadas, no caminhar de cabeça baixa
No alvoroço dos corpos que procuram não se encontrar.
De dentro do caldeirão que é a minha cidade
Sinto a pele arder quando o sol bate
Em vão, brinco de prender a respiração
Na tentativa de não provar da fumaça preta que escapa dos ônibus
E retoco novamente a maquiagem derretida.
Ao meu lado, atletas magricelos correm entre os carros
E penduram doces nos retrovisores
Outros, cadeirantes, driblam o trânsito vendendo canetas a um real
E o canal presenteia os passantes com o cheiro do Recife
A cidade fervorosa, que brilha como nunca.
26 outubro, 2007
A busca

Sorveu cada gota doce que lhe passou pelos lábios
Quem dera uma vida com o mesmo sabor...
Por hora, mais lhe lembra o gelo,
Incomodando a garganta, trincando os dentes.
Bebeu tudo bem rápido,
Com a sede de quem precisa perder logo a razão
Pediu outra, e mais outra.
Ainda entendia tudo.
Cada cor, cada palavra, cada olhar fazia sentido.
Os enxergava com tanta clareza, que preferiu parar.
Foi buscar outro caminho para longe da verdade.
23 outubro, 2007
Transcender
18 outubro, 2007
Simples asssim

Há tempos não fazia isso: o exercício não físico, mas espiritual de me integrar à terra, ao mato, àquilo que não precisa de adorno para ser verdadeiramente belo.
Pra começar, uma viagem sem engarrafamentos até Bezerros, de onde seguimos à Serra Negra. Logo na chegada, me encantei com um teatro daqueles que só tinha visto nos livros de mitologia grega. Daqueles em formato de meia lua, ao ar livre, projetado para levar o som até o espectador mais distante. Pisar em um palco como esse foi especialmente mágico. Na hora, não contei pra ninguém, só me transportei em silêncio até um tempo que não foi meu, mas está em mim.
A partir do palco, que também era mirante, teve início a trilha. Casas, jardins, pedras, grutas, bichos e nós, como crianças descobrindo um mundo novo. No rosto das pessoas que passavam, a mesma cor vermelha da terra pisada; nos gestos, a simplicidade; em tudo, encontros com pedaços de mim: a menina índia que mora no corpo amarelo da jornalista, de face grosseira e os olhos rasgados.
Todos os dias uso artifícios para disfarçar minhas origens. Para ser mais urbana, tiro os pés do chão e calço saltos. Para ser mais comum, desenho novos olhos, que parecem ser maiores. Ali, caminhando ao lado de meu franzino guia, só queria me encontrar.
A busca foi recompensadora. Chegamos a lugares lindos. A porta do vento, porque parece uma porta e faz vento. A pedra da escada (e não vou nem explicar o motivo do nome), a gruta do amor, o pau casamenteiro, a casa colorida, o papagaio que faz pose para a foto, os patos autistas, a pescaria numa poça entre pedras.
O pôr do sol indicou o caminho de volta e descanso já estava garantido. Nos hospedamos no melhor hotel de Bezerros! O quarto escolhido tinha vista para a praça, que nesse fim de semana transformou-se em pátio de eventos e ficou lotada. À noite, as crianças deram um show em cima do coreto, enquanto os adolescentes jogavam todo seu charme vestindo suas melhores roupas.
Resolvemos entrar no clima e seguimos rumo à festa. E como quem encara a maior das aventuras, pagamos a altíssima quantia de um real e cinqüenta pelo ingresso e giramos por quase meia hora na roda gigante, a principal atração do local. Ela, com ares de pouco confiável, nos encantou com suas luzes e cores, e nos levou a um canto mágico, há tempos esquecido.
Infantes, ali ficamos deixando o vento bater no rosto e a vida girar rápida e sem a menor pressa de parar.
16 outubro, 2007
Amadora
Dos maiores vazios
Das avassaladoras paixões
Das mais devastadoras saudades
Nascem as palavras que se eternizam
O cotidiano e a rotina
Alimentam a banalidade
A mesmice não fecunda a alma
Porque a poesia nasce da pele em chamas.
Eu, poeta,
Quero versos eternos.
Eu, amadora,
Preciso ser amante e amada
Para escrever; para sobreviver.
08 outubro, 2007
Dela
Ela é linda. Em seu caminhar manso, em seus olhos brilhantes, no sorriso sempre discreto. Mas tamanha delicadeza não a descreve com perfeição. Apesar de pequena e esguia, seu porte e até a forma como senta ou carrega a bolsa já demonstram altivez e parte de sua força. Não lembro de ter conhecido nada nem ninguém que me emocionasse mais que a presença dela: Dona Carmelita.
Para qualquer outro, mais uma avó deseducadora e irresponsável como tantas outras em um subúrbio do Recife. Para mim, o mais forte impulso; o melhor exemplo; a educação reta, mas divertida; a compreensão larga; a sabedoria personificada; o maior do amor. Eu, essa cria por ela moldada.
Desde criança sempre soube que quando não conseguisse mais administrar meus problemas, voinha encontraria uma forma de interceder e resolvê-los. Procurava não abusar, mas sei que dei bastante trabalho e lhe privei de várias horas de sono.
Hoje, mulher feita da matéria dela, até tento esconder minhas dores para poupá-la, mas a danada descobre. Outro dia, uma cartomante me disse que sou bruxa, “como sua avó”, arrematou. Não duvido! D. Carmelita é de uma sensibilidade assustadora - nada lhe escapa - além de deter o poder de ler meu olhar mesmo quando minha boca tenta mentir.
É assim que ela continua me salvando todo dia. E se, às vezes, me acho forte por apoiar seu braço para que não caia na rua, logo vejo que isso não é nada, porque é ela quem segura meus tombos, cada vez maiores.
Tenho comigo o que tantos mortais sonham em ter a vida inteira: um super-herói particular, um anjo que me recebeu como mãe, de braços e corações abertos, que nasceu para fazer de mim uma mulher melhor.
07 outubro, 2007
Sem querer

Distraídos que se olharam
Não sentiram
Mas deixaram no rastro, um cheiro doce
E um ar de contemplação
No rosto de olhos rasos.
Distraídos que tocaram
Além dos corpos
Marcaram a fogo a pele morena
E com traços de anjos caídos
Pintaram poesia sobre a razão.
Distraídos que se ataram
Sem maldade
Como quem nasce do outro
Do mesmo sangue e carne
De iguais sinais no universo.
Distraídos, coitados, distraídos
Entregaram
Até o que não lhes pertencia
O rumo, a paz, o tino
E uma desconhecida verdade.
26 setembro, 2007
Hoje não. Amanhã.

Das coisas que amo na vida, poucas me garantem um bom futuro. Ir à praia e ao cinema; viajar; sambar até de madrugada; comer muito chocolate.
Ficar em casa também é um presente. Lá posso colorir minhas caixinhas; assistir aos filmes do lado de Riva até perceber que ele dormiu e que eu tenho que arrastá-lo ao quarto; ouvi-lo tocar violão; ler descompromissadamente, pelo mero prazer de descobrir novos lugares no universo; fazer música em dupla; fazer amor, dormir.
A questão é que os prazeres não dão dinheiro (ao menos para mim). E se eu quiser uma vida boa de verdade, talvez deva mudar os hábitos. Fazer como minhas amigas e devorar apostilas de concurso. Criar algum projeto incrível. Estudar para um mestrado ou quaisquer dessas coisas grandiosas, que dão orgulho de se contar.
Essa semana arrisquei, abri mão das coisas boas para estudar e fiz meu primeiro concurso para jornalista. O resultado foi bem pior do que imaginava. Tudo bem... Não dava pra conseguir de primeira.
De qualquer forma, resolvi investir. Pra mim o futuro está sempre tão distante... Não dá nem pra considerar, mas, por algum motivo, estou pensando diferente agora. Sei nem por onde começar a mudança. Abandonar hábitos gostosos pela obrigação de cuidar de um amanhã incerto até no fato de existir.
Talvez seja essa a lição que deva tirar da fase que estou vivendo. É hora de proteger meu futuro. Olhar para frente com mais cuidado e responsabilidade, decididamente, não vai ser simples. Por isso, espero ter paciência, obstinação e, se possível, um tempinho extra para os pequenos prazeres.
25 setembro, 2007
Outono

Ela não se move.
E se não o faz é por, simplesmente,
Não saber onde está
Nem para onde ir.
Jogada, folha seca,
Vaga no ritmo do vento.
Tempo parado é inércia de espírito
E o dela está quieto.
Mas o corpo frágil ainda sonha
Em, qualquer dia desses,
Acordar diferente.
Virar bicho faminto
Com desejos e necessidades de bicho
Sair em busca do alimento, do abrigo.
Da alegria, do risco.
Existir sem pensar no amanhã
Sem emoção, sem planos, covarde.
Ser folha é como não ser viva.
Por isso, inveja os bichos.
E sonha em criar pés ou asas.
21 setembro, 2007
04 setembro, 2007
Presentes de família
Um dia inteiro de céu cinza no Recife. A chuva não deu trégua e eu, pelo vidro da janela da sala, olhava atravessado para ela que não parava de cair. Acho que o mundo inteiro já sabe que sou avessa à chuva. Claro que compreendo sua importância, mas não gosto, ora! É um sentimento meio infantil, de birra mesmo, quando percebo que o dia não vai ser quente e sim, cinza.Talvez seja porque more aqui e, desde pequena, tenha sido obrigada a ligar uma noite chuvosa a um dia seguinte de morte nos morros. De uns tempos para cá isso até vem acontecendo com menos freqüência, mas não foi o suficiente para me libertar do desgosto pelas tempestades.
Mas não é sobre isso que quero escrever. Falei da chuva para contar que foi sob um toró impiedoso que fui à casa de voinha hoje. Ela insistiu que passasse lá porque tinha uns presentes para me dar. Fui, ganhei meus presentes e vim para casa lamber as crias.
Eram dois livros. O primeiro, cheirando a novo, é a mais recente publicação sobre Teorias da Comunicação de Massa. Estava precisando dele para estudar, mas não tinha grana para comprar. Voinha investigou, catou o livro pelas livrarias do Recife e me deu. Como ela conseguiu tamanha façanha, ainda não sei, mas amei a surpresa. Minha véia é muito linda mesmo, além de impossível quando quer conseguir alguma coisa.
Abri meu novo livro e tratei de iniciar a história de sua vida. É uma espécie de batismo que tenho o hábito de fazer com meus livros. Coloco a data e a circunstância em que chegou a minhas mãos e até o sentimento que tenho por ele.
Anos depois, quando dou de cara com algum perdido em antigas gavetas, leio o batismo e logo retorno àquele momento. Sem isso, minha memória me trairia e eu perderia mais uma boa lembrança.
Terminado o ritual, segurei o segundo livro, uma edição de 1993, de Violetas na Janela (uma publicação espírita ditada por Patrícia à Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho). Disse a minha mãe que queria relê-lo e como ela havia perdido o dela, foi ao sebo buscar outro. O livro custou cinco reais e apesar da capa um pouco gasta, ele está em ótimo estado. Quando o abri, não pude deixar de sentir um misto de emoção e cumplicidade: ele também foi batizado! E que bela cerimônia:
“Oginha, este livro não é um simples livrinho espírita. É para que você comece a entender e acreditar que a vida não termina com a morte do corpo físico, e que através da morte do corpo que realmente começamos a viver, amar e entender o verdadeiro sentido da vida e o porquê das coisas que não entendemos ou insistimos em não querer ver ou aceitar. Para você, Oginha, com todo amor e carinho de sua mãe. Em 03-10-98. Te amo. Mainha”
Na capa, o nome da felizarda escrito em caneta cor de rosa: Geórgia Carolina.
Depois de tudo isso, preciso acrescentar ao batismo de meu novo livro que, ele chegou em meio à chuva, mas acompanhado de alegria.



