27 fevereiro, 2007

Talvez, uma TPM...


Foto: meu amigo Léo


Há dias em que nem estou. Trabalho, bebo um suco, atravesso a rua. E mesmo assim, não estou. Fico só pensando em onde estaria se...

Se tivesse estudado mais ou arriscado mais. Se tivesse chegado um pouco mais cedo ou esperado mais um instante. Se não tivesse amado tanto, nem temido tanto, nem escrito algumas palavras. Se fosse um pouco menos honesta, um pouco mais ambiciosa, ou mais sisuda. Se tivesse feito diferente, onde diabos eu estaria?

É em dias assim, quando não estou, que dedico o tempo a inventar futuros. Todos impossíveis, fantásticos, mas que cabem perfeitamente na minha história. Nesses dias me transformo numa menina criativa em seu mundo encantado. Sou pura imaginação e nostalgia de falsos momentos.

Às vezes moro em um apartamento grande e antigo, com uma penteadeira cor-de-rosa no canto da sala, almofadas floridas pelo chão, fotos dos amigos pelas paredes e um gato gordo e amarelo dormindo encostado à porta da cozinha.

Em outros dias, estou toda encasacada, usando um gorro vermelho e um lindo cachecol de fios dourados. Viajo de trem pela Europa acompanhada de um grande amor. Estamos de férias.

Também posso dar aulas numa universidade. Sou poliglota e doutora em comunicação. Há anos não vou ao Brasil. Quem sabe ano que vem não levo as crianças para visitarem a avó?

Eu poderia ter sido tantas mulheres. Na verdade, seria uma só, mas as opções são diversas. Claro, SE eu tivesse feito alguma coisa diferente no caminho... Sei de cada atitude que me levaria a esses destinos, de cada lugar onde poderia estar. Mas na hora não sabia! Queria ser livre e não me comprometer. E sou! Mais livre impossível! E agora?

Agora queria estar no aeroporto. Talvez embarcando para Salamanca, ou Madri, ou Berlim. Queria ir longe! Mas ainda estou aqui. Uma jornalista, solteira, meio sem teto, com alguma grana sobrando, mas morrendo de medo de me comprometer com meu futuro. Morrendo de medo de perder o que nunca conquistei. Vivendo de ilusão...

É, definitivamente, hoje, eu ainda não cheguei!

23 fevereiro, 2007

No lugar


Eu estou aqui
Fazendo sei lá o quê
Vivendo a paz de nós dois
Confiando mais em mim
E um pouco mais em você

Estou aqui sem esperar
Caminhando junto
Curtindo os passos que nunca demos
E que agora chegam leve
Como quem segue o rumo certo (será?).

Só sei que estou aqui
Sem saber se deveria ficar
Sem saber (ainda) se é o meu lugar
Sem ter a menor idéia da cara que deve ter esse lugar.
Na verdade, quem disse que eu preciso ter um lugar?

Eu, simplesmente, estou!
Onde quis estar todos esses dias
Onde quero estar hoje
E amanhã...
Amanhã, quem sabe?...

Quero estar enquanto houver verdade
Enquanto ouvir sorrisos
Enquanto os olhos brilharem
O beijo for doce
E o abraço, o melhor lugar do mundo.

Quero ficar por perto
Por mais um reveillon
Por mais um carnaval
Por mais um ano, ou sempre...
Bem aqui, onde estou!

06 fevereiro, 2007

Mas é Carnaval... que alegria!


Foi no dia 9 de fevereiro de 1907 que, pela primeira vez, o ritmo contagiante que marcava o Carnaval do Recife ganhou nome: FREVO, porque fazia ferver a multidão nas ruas.

E apesar de a palavra comemorar 100 anos, está longe de ser considerada antiga. Ao contrário, ela renova-se a cada Carnaval, enquanto arrasta os foliões pelas ruas, trocando passos ao som do ritmo que esquenta os pés e o corpo.

É só chegar fevereiro e as cores tomam conta do Recife para esperar por mais uma festa inesquecível. E não há como não ser! Costumo dizer que Carnaval, até quando é ruim, é bom! Espero por ele o ano inteiro, é a chance de ser quem eu quiser, de realizar todos os sonhos, de desconhecer os limites, de amar o mundo, de poder não dar satisfação e ainda estar tudo bem. Porque é Carnaval!

Eu vivo o frevo. A orquestra de metal, a de pau e corda. Sigo e me esqueço. Sigo levada pela multidão e carregando minha alegria. Como fada, arqueira, colombina, espanhola, vilã ou heroína. Vivo a sede de mais um frevo, de mais um passo, de mais um gole, de mais um beijo.

Vivo o encanto dos olhares infantis, de fantasias que viram verdade por um dia. Vivo o aperto das ruas de Olinda, o sol na cabeça, a roupa ensopada, a decoração do Recife Antigo, a curiosidade por trás de uma máscara.

Vivo a rapidez de uma festa que tem quatro dias (ou cinco) pra ser o que quiser, mas não se contenta em terminar na Quarta-feira de Cinzas. Ela nos acompanha o resto do ano, em cada lembrança, cada novo amigo, cada reencontro, nas magias que só acontecem no Carnaval.

Não sei frevar, mas pulo, sacudo os pés sem parar, do jeito que a música mandar. Sábado uma menina me abordou no meio da prévia dos Amantes e disse: “Menina, tu freva muito!”. Eu estava bêbada, mas não pude esquecer o comentário. Apenas sorri, dei um cheiro nela - que levou um gole da minha vodka - e saí “frevando”. Coisa boa!

Então vi que frevar é mais que ser um passista de sombrinha. E é por isso que ele virou a marca do Recife. Porque não tem regra, mas tem alma. Igualzinho a todo mundo nessa cidade: incansável, criativo, sonhador.

Nos outros dias sou Mack, jornalista, romântica, chocólatra, faladeira. Mas em fevereiro não tenho nome. Sou Lily, Joana, Conxita, sou a Glória e sua Amante. Tenho a alma de mulheres sem pudores, que respiram música e euforia, e deixam sua marca por onde passam.

Por isso, nem adianta chamar! Mas, se quiser, pode me seguir. E nesse caminho criar histórias, deixar lembranças, tornar realidade a fantasia de mais um Carnaval. Porque pra descobrir o segredo de completar 100 anos com tanta vida, é preciso viver!


Nos vemos pelo mundo!

25 janeiro, 2007

Todo dia


Quem já viu?

Me apaixono todo dia. Por quem tem voz grossa, fala bonito, usa um bom perfume ou um terno bem cortado. Nunca por cabeludos. Advogados, engenheiros; sisudos ou dados demais; com barba, sem barba; com olhos ternos ou sinalizadores de perigo. Me apaixono por gente, porque gente interessante nunca vai faltar! Que bom!

Me apaixono por velhos. Por cada uma das rugas, as quais fico tentando decifrar se são fruto de sol ou de noites mal dormidas. Me encanto com a forma de caminhar, a segurança mantida por uma bengala, os passos calculados, o ritmo paciente. Paro tudo só pra contemplar os gestos lentos, o jeito de falar, a desinibição, a sabedoria. Me apaixono pelos sábios, sonhando em um dia chegar lá, virar gente grande, amadurecer.

Me apaixono por palavras, algumas de gente que, às vezes, nem conheço. Versos sobre amores semelhantes aos meus; histórias conhecidas, contadas de forma diferente; rimas ricas ou prosas sem métrica. Folheando livros ou páginas na internet. Em todo canto a palavra me comove, e esse afeto logo vira mais uma paixão.

São paixões passageiras. Na maioria das vezes, acabam caindo no esquecimento. Tornam-se infinitamente especiais naquele instante, quando o tempo parece parar em nome da contemplação, quando o instante é o mais belo de toda uma vida. No instante seguinte, surge outra paixão, outra palavra, outro caminhar, outro cheiro. E tudo já se foi...

Mas nem sempre é assim. Há paixões renovadas diariamente. Carrego comigo uma assim. Ela nasce em cada encontro, cada olhar, tocar de lábios, roçar de pele, em cada amanhecer. E não morre com a distância, nem quando outras surgem. Ao contrário, me acompanha enquanto me apaixono, fugaz, tantas e tantas outras vezes.

Me apaixono todo dia. Uma paixão renascida, fortalecida, imortal; que não perturba, não tira o sono nem a moral; que deixa no corpo o calor suficiente para esquentar o sangue, e a serenidade necessária para suportar a saudade. Uma paixão companheira, que deseja ser renovada todo dia.

24 janeiro, 2007

Batuque


Adoro palco! Desde cedo soube ter nascido para o mundo. Jamais seria dessas pessoas que se infurnam em um laboratório para fazer estudos, ou do tipo que vive avaliando a teoria dos outros para formular ainda mais teorias. Não! Meu negócio é a prática.

Sou especialista em gente. Em deixar gente feliz, admirada, confusa, mexida. Gosto do poder de transformar pessoas. Transformar pessoas tristes em alegres; descrentes, em esperançosas; amargas, em verdadeiros docinhos. E mesmo não sendo uma pessoa com muitos talentos, sempre encontrei um jeito de fazer a diferença.

Sim, tenho cá o meu charme, mas não sei cantar, sou meio desengonçada para dançar, e tocar algum instrumento, então! Houve um tempo em que pensei ser impossível! Sempre gostei mesmo de escrever, e tinha uma especial cara de pau para fazer qualquer coisa que pedissem sem sentir um pingo de vergonha.

E foi assim que resolvi mexer com as pessoas por meio das palavras e do teatro. Deu certo. Todo mundo se emocionava e se divertia. Mexer com gente é como brincar de ser Deus, ou melhor, é saber que só se faz isso com a autorização Dele. Por isso, me orgulho tanto.

Ultimamente resolvi arriscar um pouco mais. Atravessei uma alfaia em meus ombros e saí por aí, encantando de crianças a velhos. É fantástico perceber o sorriso nascer de faces curiosas. O som não é harmônico, nem suave, nem comum. Mas alguma coisa no sangue de todo brasileiro faz a nossa memória genética dar sinal quando ouve o bendito batuque.

Nossos antepassados estão ali, nossa história, e melhor, nosso presente. A felicidade de sacodir mesmo sem saber dançar, de entrar na brincadeira, de não pagar ingresso, de seguir e parar quando bem entender. Enquanto vejo esse monte de gente acompanhar um batuque, esqueço das dores no corpo e dos calos nas mãos. Esqueço de tudo!

Esse fim de semana, passando em frente a uma pousada, o grupo recebeu a companhia de um turista europeu, vestido de roupão de veludo vinho, fumando um charuto e calçando uma sandália de couro. Sem falar dos bebês, dos idosos, dos curiosos... cada um com seu encanto, com sua paixão...

E eu aqui, feliz, por ver isso tudo e pelo grandiosos poder de transformar as pessoas.


Sem isso, nada faria sentido.

18 janeiro, 2007

Entre amigas


Estrada
Engenho
Cachoeiras
Gente simples

Cidade do interior

Pitanga no pé
Canções antigas
Pensamento distante

Sossego
Vinho seco
E uma promessa:
Abstrair o que não tem jeito!

Bonito pode não ter mudado nada em nós, mas nos deu dias lindos!
Uma forma perfeita de começar o ano.

17 janeiro, 2007

Renascer


Foto: Riva Spinelli


O ano não foi fácil.

Sim. Essa parte todo mundo já sabe. Ouvi até falar – não sei se por mero consolo – que não foi fácil para um monte de gente. “O pior ano da minha vida”, alguns disseram. Eu concordo. Claro que aos 28 não tenho lá uma grande referência de vida, mas que esse foi o pior... isso foi!

Enfim. O importante é que acabou!

Pra mim, 2006 pareceu despedir-se desde dezembro. Assim que senti o calor daquela energia boa vinda do nascimento de Cristo, minhas dores do ano foram passando. O pé ainda estava quebrado, a tensão de ficar ou não no emprego ainda me fazia pensar em ir embora do Recife, a mágoa ainda tirava o sono, as recordações causavam pontadas no final da espinha. E mesmo assim, alguma parte de mim insistia em ser melhor, em fazer melhor! Melhor que qualquer feito do ano, que qualquer sentimento.

Foi aí que pensei sobre o perdão.

“Uma ação sublime, que nos coloca aos pés de Deus”, me disse hoje uma amiga. Esse perdão estava longe de fazer bem ao “ser” perdoado, mas tinha o poder de me salvar! Salvar minha alma, meu corpo e, principalmente, o resto dos meus dias. Por meses e meses nem consegui respirar de tanta mágoa. Mas no dia que resolvi encará-la sem medo, descobri que ela era mesmo filha do amor. Um amor tão sincero e intenso, que não me deixava motivos para ser triste. Então perdoei. Perdoei a mim, por ter me permitido morrer um pouco. Perdoei a “ele”, que tem tanta sede de viver.

Só não sei se as pessoas vão me perdoar...

Por isso foi tão difícil dizer onde e com quem queria estar na virada do ano. Uma decisão tão simples e tão complexa! Racionalmente, deveria ficar ao lado de minhas amigas e de minha mãe, incansáveis nos momentos em que eu mesma já não tinha mais força. Mas eu sou feita de emoção e o amor fala mais alto. Sabia bem qual o único lugar onde estaria feliz no Reveillon.

E é para lá que fui!

Foi para ele que dei meu último olhar de 2006 e o primeiro de 2007. Os últimos beijos, gozo e desejo de “amor e verdade”, e os primeiros de um novo ano. Ao seu lado comtemplei as últimas estrelas de um ano escuro, e o primeiro nascer do sol de uma fase de esperanças. Comecei o ano assim, feliz! Mas, sobretudo, leve.


Me leve ano. Me leve...

05 janeiro, 2007

Achada. Perdida.

Foto: Riva Spinelli


É em paz que me sinto aqui.
Enquanto meu braço enlaça tua cintura,
meu peito encosta em tuas costas
e meu nariz respira teu pescoço.

Aqui esqueço de tudo e vivo nós dois.
Nossos olhares e beijos em sorriso.
Vivo o que é de verdade.

É essa paz que justifica minha persistência,
que fortalece minha esperança,
que aumenta a tolerância.

É essa paz que me mantém ao teu lado,
que me dá a sensação de estar no caminho certo.
Ah! Paz insana!
Tão insana quanto eu!

20 dezembro, 2006

Para sempre


À Giu e Lu.
Porque eu acredito na eternidade no amor, e vocês assim serão.

"Tudo quanto na vida eu tiver
Tudo quanto de bom eu fizer
Será de nós dois

Uma casa num alto qualquer
Com um jardim e um pomar se couber
Será de nós dois

E depois, quando a gente quiser
Passear, ir pra onde entender
Não importa onde a gente estiver
Estaremos a sós

E depois, quando a gente voltar
O menino que a gente encontrar
Será de nós dois

E de noite quando ele dormir
O silêncio do tempo a fugir
Será de nós dois

E por fim, quando o tempo fugir
E a saudade nos der de nós dois
E a vontade vier de dormir
Sem ter mais depois

Dormiremos sem medo nenhum
Pois aonde puder dormir um
Podem dormir dois"

Canção de nós dois - Vinícius de Moraes

13 dezembro, 2006

Canção da partida


Não. Não quero mais saber de ti
Nem de seus passos
Nem de seus risos
Nem quero ouvir de tuas saudades

Não. Não quero mais me ver em ti
Sobre o teu peito
Sob teu corpo
Entrelaçada em teus lençóis

Não. Não quero mais lembrar de nós
De nossa casa
De nossos olhos
Do tempo em que eles eram só...

Só do outro,
Só felizes
Só verdade
E eternidade.

Não. Já fui embora, já esqueci
Não sonho mais
Não quero mais
A tua voz a me embalar

É. Estou seguindo por aí
Uma outra estrada
Que talvez
Me leve a um lugar de paz.

06 dezembro, 2006

Conselhos de fim de ano...

Foto: meu amigo Léo


Em meio à ventania
Manter-se firme
Deixar os cabelos balançarem
O corpo ser levado
Mas não cair!

Em meio à tempestade
Buscar refúgio
Algum ponto seco
Algum ponto a salvo

E quando não der mais
Render-se à chuva
Sentir a água no rosto
Abrir os olhos para assistir ao espetáculo
Sem temer o frio, nem a gripe.

Em meio à duvida
Ficar vazio
Esperar o tempo abrir
O destino agir
As soluções chegarem em forma de sonho
Entre conversas fiadas
Numa mesa de bar
No enredo de um filme bobo

Ficar vazio e esperar...
Em breve, tudo vai mudar.


Talvez eu tenha férias forçadas a partir de janeiro.
Alguém tá afim de uma prainha?

04 dezembro, 2006

Ainda sobre o amor...

A música do dia e mais uma definição sobre essa história de amar...

O velho e a flor

Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor
Assim falou:

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê
Em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia.
É uma alegria e, de repente,
Uma vontade de chorar...

Vinícius de Moraes



O que é, o que é?


O textinho abaixo não é meu. É de um grande amigo, Mauh Spinelli (esse ao meu lado na foto), mas que merece seu espaço hoje. Bem hoje!

"aí descobri, que amor não é nada disso...
que amor é outra coisa...
que amor não queima, nem congela, nem machuca...
amor não trai, nem usa, nem ignora...
amor te da certeza, te dá caminho, te dá a mão...
amor te faz dormir tranqüilo, te faz acordar feliz...
amor não tira o ar, nem os espaços, nem os momentos..
não te tira o amor próprio, nem os amigos...

o amor chega pra completar,
e, se um dia ele acaba, em nenhum momento te deixará incompleto...

esse "amor" que dói é ilusão, é doença, é tanta coisa...
só não é amor!!
e só depois que descobri isso, é que me senti livre para seguir..."

01 dezembro, 2006

Segredos...


Algumas músicas ainda não ouço.
Alguns lugares, não freqüento.
Algumas histórias, prefiro nem contar.
No mais, tudo bem.

Já acordo sem idéia fixa.
Já durmo (de madrugada, é claro!).
As lembranças passam por mim, mas não ficam.
E vêem sozinhas, sem a saudade.
Essa parece ter encontrado um refúgio no passado.
Em breve, será como tantas outras:
Mera recordação.

Já as músicas e os lugares, sempre terão uma referência,
Porque algumas coisas nunca mudam
Insubstituíveis, dizem...
Mas a saudade sempre muda de cheiro, de endereço, de cor.
A saudade é volúvel...
Sorte a nossa!

29 novembro, 2006

Do meu jeito


Às vezes escrevo com sorrisos nos lábios
Outras, com lágrimas nos olhos.
Franzindo a testa
Levantando as sobrancelhas
Sorrindo sozinha
Com vontade de chorar
Tudo no mesmo dia
Numa harmonia de gestos e sentimentos que só eu sei
Mas não explico, só conto!

O jeito de escrever denuncia a tristeza, a solidão,
A esperança de fazer diferente, a alegria de me surpreender.
Tem minuto que a vida é boa
E no seguinte, já não tem mais tanta graça assim.
E é nesse passinho manso que andam meus escritos,
Com o mesmo ritmo do coração:
Instável, confuso, adolescente!

Nostálgica


Às vezes a saudade aperta...
Geralmente, quando a solidão vira a marca registrada do dia.
Meses e meses assim, sem ter com quem dividir histórias, compartilhar planos.
Tarefa difícil para quem nunca esteve sozinha por mais de uma semana.
Agora o silêncio é rotineiro.
A noite é companheira.
E as músicas promovem quase um diálogo.
Todos passam tanto tempo ao meu lado quanto os cadernos e as canetas.
Os olhos pequenos arregalam e apertam conferindo se alguém chegou.
Ninguém!
Não! Não é tão mau assim!
Me suportar sozinha também é me saber um pouco mais auto-suficiente, reflexiva, crítica e, principalmente, exigente com quem pode invadir o meu espaço.
A parte ruim é não ter para quem me dar...
Então vou guardando sorrisos, contos, carinhos, desejos e poemas.
Como quem guarda um presente raro à espera do dono.
Sinto saudade deste “dono”, cuja face, desconheço.
Dos afagos que não recebi, dos beijos que não lhe dei.
Sinto saudade dele e de tudo de bom que sou, quando não sou sozinha.

20 novembro, 2006

Sem escolha


Entre todas as cores do mundo, escolhi você.
Entre todas as combinações de verdes, amarelos, vermelhos e azuis.

Você foi o eleito!
A cor dos seus olhos, dos pêlos, da pele.
Exatamente você.
Entre todos que já cruzaram o meu caminho.


Desde o primeiro encontro até ontem.
Desde o primeiro olhar à mais recente despedida.
Desde o primeiro beijo à saudade que sinto dele.
Apenas você foi o escolhido.

E me escolheu, pra fazer de mim uma morada,
Um corpo que te carrega por onde vou, por todo o dia,
Do primeiro ao último pensamento.

Você está.

Um carinho infinito.
Uma espera paciente.
O olhar mais terno.
Meu melhor sorriso.
Tudo seu.
Tanto, tanto, que nem sei mais onde esconder.
E fica tudo estampado no rosto,
Marcado nos gestos,
Levando meus passos sempre na direção dos seus.


Entre tantos sentimentos, o maior me escolheu.
A soma da admiração com o afeto,
Da cumplicidade com o companheirismo,
Da amizade com a paixão,
Da paz com o desejo.


O amor!
Esse sentir que nunca foi feliz, por que nunca foi inteiro.
Um sentir que por ser meu - e não nosso - mais parece uma criança que pede colo.
Mas que também sabe ser batalhador, persistente, descarado, sem vergonha de se mostrar.
Um sentir raro e belo,

Mas cansado de ser tão sozinho...

16 novembro, 2006

Enquanto


Pensamentos atormentados provocam insônia.
Meus olhos ardem, mas não fecham.
Esperam, atentos, o momento da chuva na alma estiar.
Mas o tempo ainda está nublado.
Aqui dentro, um diário, a TV sem som e eu,
Esperando a noite virar dia, pra tentar recomeçar.

10 novembro, 2006

Senta que lá vem história


Quinta-feira, primeiro dia do feriadão. 2 de novembro, 11horas.

Manhã muito quente (como vêm sendo todas esse mês). O sol começava a ferver o quarto e acordei. Tentei levantar, mas a cabeça ainda girava de tanta caipirosca ingerida na Toca da Joana, no dia anterior. Show de Bu Moraes e mais um (des)encontro nada romântico com o cachimblema. Sim, mas voltando à manhã de quinta, tentei de novo tirar a cabeça do travesseiro, lentamente. Talita acordou e ficou pentelhando pra gente ir logo porque as duas mães já estavam na praia nos esperando há horas!

Boa Viagem lotada. Dificuldade pra estacionar. Cadeiras todas ocupadas. Era quase uma da tarde quando conseguimos sentar na frente do Recife Palace pra jogar dominó. Nem pensei em tomar cerveja! "Traz uma água, moço!"

Era lua cheia e o mar sabia muito bem disso. "Tava virado", como diria minha avó. A maré estava enchendo e já havia carregado nossas sandálias umas cinco vezes. "Seguuuura!!!" Lá da minha cadeirinha, ficava olhando o povo se acabar debaixo d'água. Altos caldos. Todo mundo saia feito cachorro que acabou de levar um banho, sacudindo a cabeça, desorientado. "Melhor não entrar..."

Na areia, depois de ganhar três partidas de dominó, finalmente deitei pra descansar. Mas a prima de Talita começou a ter uma reação alérgica à água oxigenada que tinha acabado de pôr no corpo, e pediu para eu ir com ela até um chuveiro. "Preciso tirar logo isso!". Andamos um tempo e nada de chuveiro. "Melhor entrar na água. Eu te seguro. A gente agüenta", eu sugeri.

Gente!!!! A água não chegou nem no joelho e já começou a nos derrubar. Foi tanta da queda. Caí de queixo, de barriga, de bunda. Levantava e caía de novo, na mesma hora. Um desespero. "Vamos tentar sair!!!! Me segura!!!!" E quem disse que o mar deixava? Puxava a gente de volta pelas pernas. Foi aí que fui sugada. Parecia uma roupa de seda dentro da máquina de lavar em modo completo! Eu nem pisei no chão, mas senti muito bem quando o meu dedo do pé tocou na batata da perna. Dor do ca-ra-lho!!!!!


Assim que a onda baixou, falei pra prima de Talita. "Quebrei meu pé. Tenta me puxar daqui...". Que nada, ainda levei umas três arrancadas de Iemanjá. Até que consegui chamar um homem, que me carregou para a areia.

Depois disso, uma passada em casa para tirar os dois quilos de areia que estavam no biquíni e no cabelo, e logo segui rumo ao Esperança.

Diagnóstico: Tornozelo quebrado.

Tempo de castigo com gesso: dois meses.

Ontem voltei lá para uma reavaliação, morrendo de medo de entrar na faca. Mas o doutor reduziu o prazo do gesso para 45 dias e nem precisou colocar pino no meu pezinho. Espero estar nova antes do dia 8, para poder subir o Morro e agradecer a Nossa Senhora da Conceição pelo presente de um tornozelo quebrado.

Esse bendito pé tá doendo que só. Tem hora que vejo estrelas. Tô andando de muletas o dia inteiro. Uma dificuldade pra tudo, principalmente porque agora moro em um duplex, né? Mas eu sei que esse era o único jeito de reduzir o meu ritmo. Eu tava demais! Paquera demais, cada um mais alma sebosa que o outro (e eu deixando eles por perto). Cachaça demais! Chegando em casa às 5h da manhã, dia sim outro também! E ainda por cima, pensando que sofrer por ser traída era a pior coisa que poderia me acontecer.

Agora percebo que não é não! E só nessas situações extremas é que a gente enxerga com clareza as besteiras que andamos valorizando.

Então é isso. Pé quebrado. Muitos filmes locados todas as noites. Segunda temporada de Lost como grande companheira. Visita dos verdadeiros amigos (sim, porque os de farra vão esperar eu ficar boa para poder tomar uma). Trabalhando menos na Câmara. Saindo nada! Praticamente um retiro espiritual! E todo o resto no mesmo lugar de sempre...

Sem tirar, nem pôr.

08 novembro, 2006

Coisas do destino...


Essa semana fui forçada a pensar na força do acaso e em todos os elementos capazes de mudar nossa vida em fração de segundos.

Somos resultado de uma sucessão de “ses”, de cada escolha - por mais banal que ela seja - e também da combinação de cada passo dado com passos dos outros sete bilhões de habitantes da terra. A avaliação está matemática demais para uma jornalista, mas não dá pra ser diferente.

Hoje preciso divagar sobre a razão de estar aqui, de castigo em cima de uma cama por dois meses. Serão pelo menos 60 dias sem tocar tambor, pegar ônibus, correr da chuva, sambar na sexta-feira, usar o banheiro do primeiro andar da Toca, descer as escadas para atender ao telefone, lavar a sola do pé direito, tomar banho de mar, ir ao vucu, à auto-escola...

Ah! É coisa demais para abrir mão sem racionalizar um motivo para tudo isso acontecer justamente comigo, exatamente agora, precisamente no meu tornozelo!

Mas como calcular o acaso? Como controlar o destino? Como identificar uma coincidência? Certos acontecimentos estão além do controle humano, por mais atentos que estejamos aos sinais do Universo.

Feitiçaria, olho grande, destino, predestinação, falta de sorte, carma, acaso, coincidência, castigo, osso fraco, teimosia, lerdeza. Sei lá qual foi a razão! Só sei que não interpretei os sinais, e aqui estou!

Deve haver um motivo para eu estar naquele exato lugar quando a onda deu nó de marinheiro com meus dedos e minha canela. “Mas eu nunca vi ninguém quebrar o pé no mar!” É, talvez a probabilidade seja de uma em um milhão. A mesma de um raio cair dentro de um estádio de futebol lotado e atingir a cabeça do vendedor de flau (coitado). É de uma em um milhão, mas como vive repetindo Talita, “quando acontece com a gente é de 100%”.

Eu poderia ter acertado os números da Mega Sena, escolhido a cartela premiada do Pernambuco dá Sorte ou cruzado com Gianechini essa semana, enquanto ele curte a maior dor de cotovelo. Eu poderia ter feito um milhão de coisas no primeiro dia do meu feriadão. Inclusive viajado de moto mundo a fora, se meu novo ex-paquerinha não fosse tão relapso e desatento aos sinais.

Mas nããããão... Eu estava bem ali, no meio daquela onda! Pois é, acontecimentos estranhos são mais comuns do que imaginamos, e são eles que nos fazem refletir os detalhes irrelevantes da nossa vida.

..................

A verdade é que estou tratando isso como um desejo do Universo de reduzir o meu ritmo. Menos encontros com um cachimblema que vem tirando meu juízo, menos álcool consumido, menos possibilidades de pecar contra a carne... hehehehe E também uma chance de estudar coisas que deixei para traz desde que surtei, há três meses. Um tempo para mim, meus livros, minhas músicas, meus textos, minhas pinturas e, principalmente, para peneirar as pessoas que me amam. Vai ser importante ver quem vai ficar ao lado dessa aleijadinha no ano que vem, quando eu voltar a andar e sambar.

....................

Quer saber se eu estou p... da vida?

Claro que não! Tão mesmo é adorando ver minha coxa definida de tanto pular feito saci!