Meu aniversário
Algumas caipiroscas
Grandes amigos
Burburinho
Música alta (bem alta)
Saudade de Tê e Lu, de Mabi e Bá
Ausência de Al
Gabi presente
Sem ele
Sem vontade alguma de ter ele (oba!)
Amassada de tantos abraços
Taça esborrando de bons desejos
Boas energias
Bons olhares
Eu, completa
Inteira
Madura
Segura
Feliz
Plena de esperanças
Levemente tonta
Absurdamente serena
Bolo recebido de presente
Pedido de paz às velinhas
Cobertura de chocolate
Lambida de dedo
Muitos encontros
Conversa fiada
Tranqüilidade
Certeza:
Será massa ter 28 anos!
Vamos beber...Vamos sambar...Vamos fazer a vida andar...
Passeando em Porto, entre sorvetes e surfistas, ela chamou minha atenção. Ao longo do dia, já havia me encantado com vestidos, biquínis, barrigas morenas, olhares curiosos e com uma rede cor-de-laranja que ficaria fantástica em meu novo quarto, mas, a princípio, confesso, não a percebi.Fazia tempo que não ia até lá. As ruas agora são exclusivas para os pedestres. Os carros não têm mais vez, estacionam pelas redondezas. Construíram várias pracinhas charmosas dividindo e colorindo a passagem, pintaram e reformaram todas as casas – até as mais simples. A cidade, mais do que nunca, parece ter sido feita para encantar e deixar a todos com saudade na hora de partir.
Fiz aquele mesmo caminho dezenas de vezes por diversas razões, ao longo de minha vida: paquerar, namorar, jantar, tomar sorvete, comprar artesanato, chegar à praia, beber Carreteiro, curtir a um show. Mas nunca a havia visto ali, bem no meio do caminho. Na verdade, nem sei se ela existia. Pelo tamanho e a pintura recente, talvez seja mesmo mais uma das novidades do lugar.
Estava aberta. E como sentia meu coração fechado, as portas escancaradas me pareceram um convite a uma visita. Lá fui. Entrei com o pé direito, pedi licença e me emocionei com tanta simplicidade. “Os simples de coração são queridos por Deus”, diz sempre um amigo meu. Ao centro, uma cruz, um altar modesto e uma imagem da Virgem de Fátima abençoando o espaço pouco maior do que ela.
Como deve ser, fiz os tradicionais três pedidos concedidos a todos que entram pela primeira vez em uma igreja. Certamente, naquele silêncio, um anjo de passagem deve ter me ouvido. Em tempos de mentira, Porto foi um presente de Verdade na minha vida. Deixou a certeza de que não estou sozinha e que ainda há muitos caminhos coloridos a percorrer.Ah, os pedidos! Esses eu não conto. São segredos entre mim e o céu.
Sou músicas
Retratos
VestidosBorboletas e
Flores.
Sou cores:
Rosa sempre
Laranja às vezes
Tricolor há pouco tempo.
Sandália havaiana,
Salto alto
Baque na rua.
Sou romance
Observação
Abraço
Carinho nos cabelos
Conversa fiada
Papo cabeça.
Sou poesia
Caminhada na praia
Medo de bola e de tubarão
Garrafa d’água
Aula de Português
Aula de percussão.
Sou janela quebrada.
Chocolate alemão
Vinho tinto
Caminho sem destino
Olhar ao longe
Óculos escuros.
Sou espera
Perdão
Angústia
Decepção.
Sou desejo que o tempo leve
Que a vida cure
Que a alma limpe
Os olhos sequem
O sorriso surja
E a chuva passe.
Quero fazer um samba alegre
Um batuque em clima de domingo de sol
Mas meu pandeiro não vibra
O tambor está rouco
Violão, não tenho quem toque
E no lugar da cuíca,
Quem chora sou eu.
Quero fazer um samba alegre
Mas só faço lamentos................................................................"Silêncio, por favor, enquanto esqueço um pouco a dor no peito"
Meus amigos são feitos de uma matéria especial: algo entre os homens e as fadas. Têm uma varinha mágica nas mãos e o poder de transformar solidão em companhia. Eles não aparecem sempre que espero, mas nunca faltam quando preciso. E, quando chegam, renovam minhas forças, ouvem meus lamentos, não criticam meus erros, mostram-me outros caminhos e levam-me com cuidado a um lugar seguro, como se a simples presença deles pudesse me proteger de todos os males. Foi assim esse fim de semana que, de fadado à dor, transformou-se em alegria.
Cerveja preta e conversa mole varando a noite. E o novo dia começa na estrada, rumo ao mar. Sol morno, boa música, novos e velhos amigos contando histórias e fazendo sorrir. Praia. Paisagem. Paz.
Mais conversa mole e cerveja preta até chegar o pôr-do-sol em ritmo de bolero. Mãos dadas. Cheiro na flor do pescoço. Surpresa. Noite feliz. Talvez precoce. Talvez precisa. Sem pretensões, como deveria ser tudo na vida.
O sol que nasce vem dar um outro bom dia, rumo a outros mares. Mais estrada, os mesmos amigos. Mergulho em águas novas e limpas. Vento no rosto. Brincar tal crianças e peixes. Soltar os cabelos. Respirar a brisa. Dormir exausta e muito feliz.
A vida acaba de recomeçar (de novo).
À Talita, a fada do fim de semana.
De volta ao colo
De volta ao carinho
De volta ao abraço que sempre foi meu
No mesmo sorriso
Com a mesma alegria
Como se o tempo não passasse
E o amor parasse o futuro
Pra se eternizar em nós
Todo dia.
Recife, 3 de agosto de 2006Te tive sob minhas lentes
ao acordar, gargalhar
caindo em pranto
fazendo charme.
Tantas, tantas vezes
despenteado, barbado, safado
desprotegido, cansado, molhado
Mil olhares, incontáveis momentos.
Em cada encontro,
a alegria de me saber em você.
Em cada olhar,
teu amor de volta.
E talvez seja assim pra sempre.
Ao menos até hoje nada mudou.
Como todos sabem: capotei!
Não foi só naquela noite na estrada, por causa de uma “tartaruguinha” furadora de pneus. Capotei minhas férias inteiras! A cada dia, a cada instante.
Um mês inteiro me debatendo contra a vida, sacudindo o corpo, desorientada, com a vista turva - porque o óculos voou longe no primeiro sacolejo. Com os pés descalços, sem saber onde guardar a bagagem, nem onde me abrigar pra seguir a viagem.
Primeiro, ouvi aquele som estranho, sinal de que alguma coisa não está indo bem. Depois, foi tudo muito rápido, só vi o mundo todo girando e a sensação de não haver mais nada que eu pudesse fazer para mudar meu destino ou pelo menos o final daquele acidente de percurso. Estava tudo acabado! Ribanceira abaixo, parei. Tonta, cega, trêmula, nervosa, com medo do escuro, mas sem nenhum receio de ir em frente.
Sim. Capotei todos os dias. Mas, diferente daquele carro, eu estava sozinha, e até gritei. Ninguém ouviu.
Agora passou. Sem dores no corpo, com as últimas marcas desaparecendo, me preparo pra outra viagem. Tem outro dia vindo por aí.
O amor passou por aqui.
Foi tão rápido e devastador, que alguns nem acreditam.
Eu sei que passou. Porque não sou mais a mesma.
O amor arrancou minhas roupas e minha paz
me tirou do rumo, me levou de casa, me largou na rua.
O amor calou meu Carnaval e ofuscou minha folia
rabiscou meus papéis e secou meus tinteiros.
O amor me mostrou o poder da verdade e a dor da mentira
me pôs em pecado, enfraqueceu minhas orações, fortaleceu minha fé.
O amor despenteou os meus cabelos, suou meu corpo e estremeceu minhas pernas, depois, me despertou com um sorriso, sambou no meu juízo, cantou pra eu dormir e,
enquanto sonhava, ele fugiu, covarde, sem sequer dizer adeus.
O que fazer senão chorar a morte de um amor?A morte do meu amor eu choro com desespero e convulsão. Arranco cabelos, rasgo a pele, grito alto pra pôr pra fora toda a dor (porque por algum lugar ela há de sair).
Na morte do meu amor, meu corpo estremece solitário, vaga sem norte, como quem ainda procura o velho porto seguro. Olho o cadáver do ser amado, acaricio seu rosto, mas seu semblante não mais se ilumina com meu carinho, nem seu corpo se arrepia ao meu toque. Então, desisto, volto a chorar. De todos os meus poros saem lágrimas. A alma precisa ser limpa, a pele, lavada.
Tudo no mundo é finito, exceto as histórias de amor. Elas permanecem, mesmo quando ele, o próprio amor, já foi. Histórias sobrevivem em detalhes que não conseguem ser esquecidos, em cheiros, em músicas, em lugares, no pôr-do-sol, na lua cheia, num sabor, no brilho do olho direito. E quando não há mais o que escrever, além de “fim”, há de se chorar. Deixar todos os sentidos penarem pela ausência de novos capítulos, até se acostumarem com o inevitável: é preciso começar de novo. Outra história. Outro amor. Sim, e claro, outro fim.
Qualquer dia desses, com o corpo erguido e o rosto limpo, inicio outro livro. Hoje não. Ainda não. Hoje eu só quero chorar bem alto essa saudade que acelera o coração e dá uma fisgada na coluna a cada lembrança. Quero ser criança assustada, com medo do escuro. Quero fazer manha, pedir colo, dizer que não sei para onde ir.
Quero chorar a morte do meu amor como quem chora o fim da minha ilusão, da minha derradeira alegria, da minha própria vida. Pra um dia, breve, ainda no inverno, minha alma serenar e musicar alguma coisa mansa, lembrando que o amor passou, mas eu fiquei.
São João deve até ter dormido esse fim de semana. Mas eu não! Não mesmo!Dizem que funciona assim: ele precisa ficar dormindo, enquanto o povo todo comemora seu nascimento, acendendo fogueiras e soltando fogos. Se um dia ele acordar, o mundo acaba! Então é melhor nem arriscar, e torcer pra o barulho dos rojões, o chiado dos buscapés e a luz das estrelinhas não incomodar seu cochilo sagrado. Porque do jeito que a gente comemora, o santinho ia acordar assustado com a confusão, e teria todas as razões pra dar um fim ao mundo em plena festa de aniversário. Brasileiro, fogoso do jeito que é, tinha que inventar alguma coisa pra aumentar a diversão e a semvergonhice da festa. Foi daí que surgiu o forró. Coisa do diabo! Um esfrega-esfrega, um suadeiro, boca no cangote, nó na perna, aperto na cintura! Virgem Maria! Sei nem porque está ligado a uma data santa. Eu nunca vou entender esses costumes sacro-profanos brasileiros, mas continuo aproveitando todos assim mesmo! Porque esses pecados coletivos deve ter menos peso na hora do juízo final, né?E foi com esse espírito que saí do Recife rumo ao Sertão, na sexta-feira. Dessa vez, não levei as amigas de costume, nem fiz as farras sem limites dos anos passados. E entre algumas grandes ausências sentidas e outras presenças intensamente comemoradas, curti uma festa em família, mas feliz! Muito feliz! Como nunca pode deixar de ser quando se está em Arcoverde.Coco Raízes. Poesia. Forró pé-de-serra. Amigos. Uma cana pra aquecer do frio e dar dor de cabeça. Festa na rua. Show de buscapés. Abraços. Sorrisos. Agora acabou. São João pode até acordar. Ano que vem tem mais.
Transitar pelas ruas da vida reconhecendo a hora de seguir em frente, ajustar a velocidade, respeitar os sinais e quebrar nas esquinas não é nada fácil. Mas todo mundo precisa fazer.O negócio nem sempre dá certo. O pior é que além de nos cobrarmos por bons resultados no final de cada trecho, ainda esperamos que a escolha do outro satisfaça nossas expectativas. O problema é que o outro tem sua própria forma de fazê-las e, quando a gente vê, desencontrou.Aí é que o caldo desanda, a gente se decepciona e pronto! Acabou-se o mundo! Pelo menos o nosso, até percebermos que tudo estava mesmo era escrito em algum plano de bordo invisível. Tudo: até aquela dor da impotência, por não entender como o outro pôde dobrar uma esquina deixando para trás alguém tão fantástico - e modesto - quanto nós.E quando cansamos de esperá-lo voltar, vamos embora. Mas ir embora também foi uma escolha, que talvez ninguém nunca entenda.Isso deveria ser ensinado na escola...
A vida é assim. Feita de escolhas.
Colorido ou preto e branco
Analógico ou digital
Água ou vinho
Ser hippie ou capitalista
Destro ou canhoto
Ateu ou cristão
Dormir até mais tarde ou chegar cedo na praia
Fazer farra pela madrugada ou fazer amor
Adormecer nos braços da paz
Ou viver o êxtase de uma noite de samba
Às vezes seria bom ter os dois!
Às vezes até podemos ter...
Mas hoje eu escolhi.
Entre abraçar o mundo e ser abraçada
Escolhi o mais seguro.
Mil vezes pedi a Deus “a sorte de um amor tranqüilo”.Recebi.
Aqui estou.
No meio da noite, um suspiro de alegriaum sorriso quase irônico, mudando a face que já nem se reconhecia.No meio da noite, um braço inesperadovelho conhecido, me enlaça e me faz dormir em paz.No meio da noite, segurançaa paz rondando meus sonhos, dizendo que não me abandonou.Também comigo, o medo do sol nascere ser obrigada a despertar e me redescobrir: sozinha.Amanhã nada vai mudar. Não terei um cúmplice, um amor, um ombro.Amanhã tudo volta a seu lugar.Inclusive eu. Madura pra brincar de ser modernamas não o suficiente pra ser feliz sozinha, no meio da próxima noite.
Deliberei sofrer. Minha tendência a "Pollyana moça" não me permitiu fazer isso por quase três décadas.Agora escancarei. Resolvi maturar um pouquinho minha dor.Pagar pra ver até onde ela me leva, ou se não vai aguentar viva dentro de mim por muito tempo.Mas não sofro por amor, e sim pela falta dele.Sofro ao lembrar da menina do blog cor de rosa que habitava aqui antes dessa mulher em preto e branco tomar seu lugar.Sofro pela falta de sonhos, de planos.Pelos foras provocados.Pelos danos irreparáveis.Pelos caminhos sem volta.Sofro ao me flagrar fazendo ou dizendo coisas que a menina cor de rosa não faria ou diria.Sofro por não ser mais "Pollyana", por não ser rosa, por ser uma nova mulher, que ainda não sabe o que quer da vida.E enquanto não se acha, vai sofrendo.Dizem que assim é que se aprende.
Ando pensando em recomeços
Já fiz isso tantas vezes, que perdi a conta. Mas essa será a primeira em que ele acontece sem a minha vontade. Acabo de me dar conta de ter sobrevivido a um grande furacão. O danado derrubou minha casa, me arrancou pedaços e o corpo ainda dói - reflexo da faxina nos destroços. Mas estou aqui, no meio da rua, trazendo na bagagem o que restou, esmolando afeto e teto, sem saber qual o próximo passo. Me vendo nessa situação, percebo ser essa a hora de recomeçar, planejar onde estacionar, e escolher o lugar para guardar as malas e voltar à vida. Não será a primeira vez.
Desde criança, moro à conta-gotas. Deixo mudas de roupas em casas de amigos, parentes, namorado. Meu humor e carência ditavam onde iria ficar por aquela noite, semana, mês ou ano. Nenhum lugar teve meu jeito, nunca tive um quarto, vivi de encaixes. Não foi ruim.
Cada chegada era uma conquista. A felicidade de fazer parte da história de mais uma família, a satisfação de compartilhar novos sonhos, levar alegria a outro lar. Cada mudança, um recomeço, uma nova oportunidade de fazer as malas, deixar um pedaço de mim e levar as lembranças de meus companheiros.
Não sei quanto de mim larguei para traz em cada partida. Às vezes achava que estava levando coisas demais; em outras, preferi não pegar nada. Eu sou a soma desses pedaços roubados, esquecidos, colados em mim ao longo da estrada. Retratos, músicas, caixas, vestidos, se renovam em cada porto. E lá vou eu para mais uma viagem.
Hoje, passada a angústia da mais recente partida, dei por falta das baixelas de vidro. Lembro que ia guardar, mas eram frágeis, pesadas, e preferi deixar para o final. Acabei pondo coisas demais na mala. Para cada objeto recolhido, mais uma parte de mim ficava pelos cantos. Levei quase tudo. Deixei minha história e as baixelas. A história, não tenho como recuperar. Os vidros não me farão falta.
Carrego o suficiente. Já posso recomeçar.
A cabeça vazia, de tão cheia.
Tempo amargo, boca seca,
embate de mim, entrave.
Eu, melancólica.
A primeira a acordar dos sonhos.
De castelo de nãos, no reino da espera.
Melancólicas frustações; sadismo e acidez.
Batendo o mesmo prego em espumas, os olhos irritados.
Eu, tola e intolerante.
Agora, sem pressa; sem pressão.Vagando na rua em noites de chuvaSem porto, sem abrigo.
Eu, arrogantemente ridícula e muda.
Incógnita, indecifrável, oculta.
Sorriso escondido por trás de palavras caladas.Olhar desviado, temendo ser lido.Eu, sem eu. O caos buscando a luz.
Mas ainda escrevendo...
Todo dia um desafio: esconder meus demônios em um lugar diferente
Longe de minha vista ou distante de meus desejos
Pra não me deliciar com pecados, nem morrer por eles.
Demônios que mandam eu pular da varanda
Que me fazem temer o poder de uma criança na rua
Que jogam meus restos na mesma rua
Demônios que dão preguiça e confortam no ócio
Que pedem mais uma dose, mais um trago
Demônios fortalecidos em alucinações e angústias
Demônios que maltratam meus desafetos
Demônios que gritam na minha cabeça
E não me deixam dormir até tarde, nem lembrar dos meus sonhos.
Demônios que assassinam anjos
Apagam a luz das risadas
Empestam a mente de vermes e traças
Perseguem, corroem.
Fazem pensar ser partes sujas de mim
E que meu poder de amar é finito; mas o de tudo poder, não.
Mentirosos, insolentes, traiçoeiros, traidores
Vingativos, rancorosos, temidos e temerosos
Fingem ser eu nas horas que esqueço quem sou
Demônios projetados, esperados
Prontos pra me receber e me dominar
Demônios combatidos todo dia.
Demônios vencidos, pelo menos hoje.
Esses dias descobri uma coisa engraçada. Eu, que sempre me orgulhei de estudar as "coisas da vida", me dei conta que não sabia como nasce uma flor.
...
Nasci em uma família historicamente católica, e acabei sendo responsável por sua grande mudança doutrinária, quando tive a vida salva, ainda bebê, após uma cirurgia espiritual feita pelo Dr. Fritz, incorporado no médico Edson Queiroz. Depois do "milagre", todos lá em casa passaram a acreditar que havia algum mistério envolvendo aquele homem e o universo. Uma criança desenganada pela Igreja, terreiros e, claro, pela Medicina, não poderia ficar bem depois de ter o dedo indicador de um "possuído" enfiado em seu pescoço! Mas eu fiquei! Em duas semanas, me curei de uma ferida que não cicatrizava, e hoje não passa de um tracinho com cara de microintervenção cirúrgica.
Quando cresci e ouvi essa história absurda, resolvi tentar entender como isso poderia acontecer, e fui estudar um pouco mais sobre a vida na Terra e fora dela. Mas nunca fui muito boa em Ciências ou Biologia. Na verdade, eu não entendo NADA sobre o assunto e seria incapaz de dizer até quais são as partes de uma célula. A vida que andei estudando esse anos nunca estava ligada à matéria, só à alma. Talvez por isso tenha me esquecido das flores.
...
Quando olhava para elas, pensava que nós sempre precisávamos plantá-las para existirem. Aqueles campos coloridos, cheinhos de rosas, gerânios e flores do campo, certamente, seriam decorrência de um extenso trabalho mecânico e humano, claro!
- Sim, mas e nas matas, como as flores surgiam?
- Bem... Por geração espontânea?
É, definitivamente, eu nunca havia pensado nas flores. Não que eu seja antiromântica. Ao contrário! Sou até demais. Mas vejo no romantismo algo além buquês ou pétalas vermelhas em banheiras.
...
Eu jamais me importei com as flores! Uma pena... Talvez tivesse descoberto um pouco antes que elas precisam de outros seres para se reproduzir.
Humanos e animais só precisam de outros humanos e animais para continuarem existindo. Eu estaria aqui com ou sem flores. E Isaltina estaria lá em casa com ou sem abelhas. Mas as flores não estariam em lugar algum sem as abelhas! Porque são elas que ajudam na troca das células reprodutoras entre as flores, tornando possível a geração de uma outra flor.
Meus cabelos crescem sozinhos. Minhas unhas crescem sozinhas. As flores, não. Girassóis e violetas não dão continuidade à espécie apenas sacodindo sementes no chão! E também seria meio impossível todos terem sido plantados pelo homem! Como eu nunca pensei nisso antes?
...
Sempre me considerei tão esperta e inteligente, mas acabei esquecendo de olhar os pontos mais simples. As flores... Todo dia lá, olhando pra mim, e eu nunca me perguntei de onde elas teriam vindo!
Que coisa feia!