16 agosto, 2006

Entre homens e fadas


Meus amigos são feitos de uma matéria especial: algo entre os homens e as fadas. Têm uma varinha mágica nas mãos e o poder de transformar solidão em companhia. Eles não aparecem sempre que espero, mas nunca faltam quando preciso. E, quando chegam, renovam minhas forças, ouvem meus lamentos, não criticam meus erros, mostram-me outros caminhos e levam-me com cuidado a um lugar seguro, como se a simples presença deles pudesse me proteger de todos os males. Foi assim esse fim de semana que, de fadado à dor, transformou-se em alegria.

Cerveja preta e conversa mole varando a noite. E o novo dia começa na estrada, rumo ao mar. Sol morno, boa música, novos e velhos amigos contando histórias e fazendo sorrir. Praia. Paisagem. Paz.


Mais conversa mole e cerveja preta até chegar o pôr-do-sol em ritmo de bolero. Mãos dadas. Cheiro na flor do pescoço. Surpresa. Noite feliz. Talvez precoce. Talvez precisa. Sem pretensões, como deveria ser tudo na vida.

O sol que nasce vem dar um outro bom dia, rumo a outros mares. Mais estrada, os mesmos amigos. Mergulho em águas novas e limpas. Vento no rosto. Brincar tal crianças e peixes. Soltar os cabelos. Respirar a brisa. Dormir exausta e muito feliz.

A vida acaba de recomeçar (de novo).

À Talita, a fada do fim de semana.

08 agosto, 2006

Rumo certo


De volta ao colo
De volta ao carinho
De volta ao abraço que sempre foi meu
No mesmo sorriso
Com a mesma alegria
Como se o tempo não passasse
E o amor parasse o futuro
Pra se eternizar em nós
Todo dia.

Encontro

Recife, 3 de agosto de 2006

Te tive sob minhas lentes
ao acordar, gargalhar
caindo em pranto
fazendo charme.
Tantas, tantas vezes
despenteado, barbado, safado
desprotegido, cansado, molhado
Mil olhares, incontáveis momentos.
Em cada encontro,
a alegria de me saber em você.
Em cada olhar,
teu amor de volta.
E talvez seja assim pra sempre.
Ao menos até hoje nada mudou.

01 agosto, 2006

A vida é um pneu furado



Como todos sabem: capotei!

Não foi só naquela noite na estrada, por causa de uma “tartaruguinha” furadora de pneus. Capotei minhas férias inteiras! A cada dia, a cada instante.

Um mês inteiro me debatendo contra a vida, sacudindo o corpo, desorientada, com a vista turva - porque o óculos voou longe no primeiro sacolejo. Com os pés descalços, sem saber onde guardar a bagagem, nem onde me abrigar pra seguir a viagem.

Primeiro, ouvi aquele som estranho, sinal de que alguma coisa não está indo bem. Depois, foi tudo muito rápido, só vi o mundo todo girando e a sensação de não haver mais nada que eu pudesse fazer para mudar meu destino ou pelo menos o final daquele acidente de percurso. Estava tudo acabado! Ribanceira abaixo, parei. Tonta, cega, trêmula, nervosa, com medo do escuro, mas sem nenhum receio de ir em frente.

Sim. Capotei todos os dias. Mas, diferente daquele carro, eu estava sozinha, e até gritei. Ninguém ouviu.

Agora passou. Sem dores no corpo, com as últimas marcas desaparecendo, me preparo pra outra viagem. Tem outro dia vindo por aí.

Vaga lembrança


O amor passou por aqui.
Foi tão rápido e devastador, que alguns nem acreditam.
Eu sei que passou. Porque não sou mais a mesma.
O amor arrancou minhas roupas e minha paz
me tirou do rumo, me levou de casa, me largou na rua.
O amor calou meu Carnaval e ofuscou minha folia
rabiscou meus papéis e secou meus tinteiros.
O amor me mostrou o poder da verdade e a dor da mentira
me pôs em pecado, enfraqueceu minhas orações, fortaleceu minha fé.
O amor despenteou os meus cabelos, suou meu corpo

e estremeceu minhas pernas, depois, me despertou com um sorriso,
sambou no meu juízo, cantou pra eu dormir e,
enquanto sonhava, ele fugiu, covarde,

sem sequer dizer adeus.

18 julho, 2006

De luto


O que fazer senão chorar a morte de um amor?

A morte do meu amor eu choro com desespero e convulsão. Arranco cabelos, rasgo a pele, grito alto pra pôr pra fora toda a dor (porque por algum lugar ela há de sair).

Na morte do meu amor, meu corpo estremece solitário, vaga sem norte, como quem ainda procura o velho porto seguro. Olho o cadáver do ser amado, acaricio seu rosto, mas seu semblante não mais se ilumina com meu carinho, nem seu corpo se arrepia ao meu toque. Então, desisto, volto a chorar. De todos os meus poros saem lágrimas. A alma precisa ser limpa, a pele, lavada.

Tudo no mundo é finito, exceto as histórias de amor. Elas permanecem, mesmo quando ele, o próprio amor, já foi. Histórias sobrevivem em detalhes que não conseguem ser esquecidos, em cheiros, em músicas, em lugares, no pôr-do-sol, na lua cheia, num sabor, no brilho do olho direito. E quando não há mais o que escrever, além de “fim”, há de se chorar. Deixar todos os sentidos penarem pela ausência de novos capítulos, até se acostumarem com o inevitável: é preciso começar de novo. Outra história. Outro amor. Sim, e claro, outro fim.

Qualquer dia desses, com o corpo erguido e o rosto limpo, inicio outro livro. Hoje não. Ainda não. Hoje eu só quero chorar bem alto essa saudade que acelera o coração e dá uma fisgada na coluna a cada lembrança. Quero ser criança assustada, com medo do escuro. Quero fazer manha, pedir colo, dizer que não sei para onde ir.

Quero chorar a morte do meu amor como quem chora o fim da minha ilusão, da minha derradeira alegria, da minha própria vida. Pra um dia, breve, ainda no inverno, minha alma serenar e musicar alguma coisa mansa, lembrando que o amor passou, mas eu fiquei.

26 junho, 2006

Junina



São João deve até ter dormido esse fim de semana. Mas eu não! Não mesmo!

Dizem que funciona assim: ele precisa ficar dormindo, enquanto o povo todo comemora seu nascimento, acendendo fogueiras e soltando fogos. Se um dia ele acordar, o mundo acaba! Então é melhor nem arriscar, e torcer pra o barulho dos rojões, o chiado dos buscapés e a luz das estrelinhas não incomodar seu cochilo sagrado. Porque do jeito que a gente comemora, o santinho ia acordar assustado com a confusão, e teria todas as razões pra dar um fim ao mundo em plena festa de aniversário.

Brasileiro, fogoso do jeito que é, tinha que inventar alguma coisa pra aumentar a diversão e a semvergonhice da festa. Foi daí que surgiu o forró. Coisa do diabo! Um esfrega-esfrega, um suadeiro, boca no cangote, nó na perna, aperto na cintura! Virgem Maria! Sei nem porque está ligado a uma data santa. Eu nunca vou entender esses costumes sacro-profanos brasileiros, mas continuo aproveitando todos assim mesmo! Porque esses pecados coletivos deve ter menos peso na hora do juízo final, né?

E foi com esse espírito que saí do Recife rumo ao Sertão, na sexta-feira. Dessa vez, não levei as amigas de costume, nem fiz as farras sem limites dos anos passados. E entre algumas grandes ausências sentidas e outras presenças intensamente comemoradas, curti uma festa em família, mas feliz! Muito feliz! Como nunca pode deixar de ser quando se está em Arcoverde.

Coco Raízes. Poesia. Forró pé-de-serra. Amigos. Uma cana pra aquecer do frio e dar dor de cabeça. Festa na rua. Show de buscapés. Abraços. Sorrisos.

Agora acabou. São João pode até acordar. Ano que vem tem mais.

09 junho, 2006

A difícil arte.. de escolher - Parte II



Transitar pelas ruas da vida reconhecendo a hora de seguir em frente, ajustar a velocidade, respeitar os sinais e quebrar nas esquinas não é nada fácil. Mas todo mundo precisa fazer.

O negócio nem sempre dá certo. O pior é que além de nos cobrarmos por bons resultados no final de cada trecho, ainda esperamos que a escolha do outro satisfaça nossas expectativas. O problema é que o outro tem sua própria forma de fazê-las e, quando a gente vê, desencontrou.

Aí é que o caldo desanda, a gente se decepciona e pronto! Acabou-se o mundo! Pelo menos o nosso, até percebermos que tudo estava mesmo era escrito em algum plano de bordo invisível. Tudo: até aquela dor da impotência, por não entender como o outro pôde dobrar uma esquina deixando para trás alguém tão fantástico - e modesto - quanto nós.

E quando cansamos de esperá-lo voltar, vamos embora. Mas ir embora também foi uma escolha, que talvez ninguém nunca entenda.

Isso deveria ser ensinado na escola...

08 junho, 2006

A difícil arte... de escolher


A vida é assim. Feita de escolhas.
Colorido ou preto e branco
Analógico ou digital
Água ou vinho
Ser hippie ou capitalista
Destro ou canhoto
Ateu ou cristão
Dormir até mais tarde ou chegar cedo na praia
Fazer farra pela madrugada ou fazer amor
Adormecer nos braços da paz
Ou viver o êxtase de uma noite de samba
Às vezes seria bom ter os dois!
Às vezes até podemos ter...
Mas hoje eu escolhi.
Entre abraçar o mundo e ser abraçada
Escolhi o mais seguro.
Mil vezes pedi a Deus “a sorte de um amor tranqüilo”.

Recebi.
Aqui estou.

03 junho, 2006

Madrugada


No meio da noite, um suspiro de alegria
um sorriso quase irônico, mudando a face que já nem se reconhecia.

No meio da noite, um braço inesperado
velho conhecido, me enlaça e me faz dormir em paz.

No meio da noite, segurança
a paz rondando meus sonhos, dizendo que não me abandonou.

Também comigo, o medo do sol nascer
e ser obrigada a despertar e me redescobrir: sozinha.

Amanhã nada vai mudar.
Não terei um cúmplice, um amor, um ombro.

Amanhã tudo volta a seu lugar.
Inclusive eu.

Madura pra brincar de ser moderna
mas não o suficiente pra ser feliz sozinha, no meio da próxima noite.

02 junho, 2006

Só por enquanto


Deliberei sofrer.
Minha tendência a "Pollyana moça" não me permitiu fazer isso por quase três décadas.
Agora escancarei.
Resolvi maturar um pouquinho minha dor.
Pagar pra ver até onde ela me leva,
ou se não vai aguentar viva dentro de mim por muito tempo.
Mas não sofro por amor, e sim pela falta dele.
Sofro ao lembrar da menina do blog cor de rosa que habitava aqui antes dessa mulher em preto e branco tomar seu lugar.
Sofro pela falta de sonhos, de planos.
Pelos foras provocados.
Pelos danos irreparáveis.
Pelos caminhos sem volta.
Sofro ao me flagrar fazendo ou dizendo coisas que a menina cor de rosa não faria ou diria.
Sofro por não ser mais "Pollyana", por não ser rosa,
por ser uma nova mulher, que ainda não sabe o que quer da vida.
E enquanto não se acha, vai sofrendo.
Dizem que assim é que se aprende.

31 maio, 2006

As baixelas

Ando pensando em recomeços

Já fiz isso tantas vezes, que perdi a conta. Mas essa será a primeira em que ele acontece sem a minha vontade. Acabo de me dar conta de ter sobrevivido a um grande furacão. O danado derrubou minha casa, me arrancou pedaços e o corpo ainda dói - reflexo da faxina nos destroços. Mas estou aqui, no meio da rua, trazendo na bagagem o que restou, esmolando afeto e teto, sem saber qual o próximo passo. Me vendo nessa situação, percebo ser essa a hora de recomeçar, planejar onde estacionar, e escolher o lugar para guardar as malas e voltar à vida. Não será a primeira vez.

Desde criança, moro à conta-gotas. Deixo mudas de roupas em casas de amigos, parentes, namorado. Meu humor e carência ditavam onde iria ficar por aquela noite, semana, mês ou ano. Nenhum lugar teve meu jeito, nunca tive um quarto, vivi de encaixes. Não foi ruim.

Cada chegada era uma conquista. A felicidade de fazer parte da história de mais uma família, a satisfação de compartilhar novos sonhos, levar alegria a outro lar. Cada mudança, um recomeço, uma nova oportunidade de fazer as malas, deixar um pedaço de mim e levar as lembranças de meus companheiros.

Não sei quanto de mim larguei para traz em cada partida. Às vezes achava que estava levando coisas demais; em outras, preferi não pegar nada. Eu sou a soma desses pedaços roubados, esquecidos, colados em mim ao longo da estrada. Retratos, músicas, caixas, vestidos, se renovam em cada porto. E lá vou eu para mais uma viagem.

Hoje, passada a angústia da mais recente partida, dei por falta das baixelas de vidro. Lembro que ia guardar, mas eram frágeis, pesadas, e preferi deixar para o final. Acabei pondo coisas demais na mala. Para cada objeto recolhido, mais uma parte de mim ficava pelos cantos. Levei quase tudo. Deixei minha história e as baixelas. A história, não tenho como recuperar. Os vidros não me farão falta.

Carrego o suficiente. Já posso recomeçar.

25 maio, 2006

Melancolia


A cabeça vazia, de tão cheia.
Tempo amargo, boca seca,
embate de mim, entrave.
Eu, melancólica.
A primeira a acordar dos sonhos.
De castelo de nãos, no reino da espera.
Melancólicas frustações; sadismo e acidez.
Batendo o mesmo prego em espumas, os olhos irritados.
Eu, tola e intolerante.
Agora, sem pressa; sem pressão.

Vagando na rua em noites de chuva
Sem porto, sem abrigo.
Eu, arrogantemente ridícula e muda.
Incógnita, indecifrável, oculta.
Sorriso escondido por trás de palavras caladas.

Olhar desviado, temendo ser lido.
Eu, sem eu.
O caos buscando a luz.
Mas ainda escrevendo...

06 abril, 2006

Possuída

Todo dia um desafio: esconder meus demônios em um lugar diferente
Longe de minha vista ou distante de meus desejos
Pra não me deliciar com pecados, nem morrer por eles.

Demônios que mandam eu pular da varanda
Que me fazem temer o poder de uma criança na rua
Que jogam meus restos na mesma rua

Demônios que dão preguiça e confortam no ócio
Que pedem mais uma dose, mais um trago
Demônios fortalecidos em alucinações e angústias

Demônios que maltratam meus desafetos
Demônios que gritam na minha cabeça
E não me deixam dormir até tarde, nem lembrar dos meus sonhos.

Demônios que assassinam anjos
Apagam a luz das risadas
Empestam a mente de vermes e traças

Perseguem, corroem.
Fazem pensar ser partes sujas de mim
E que meu poder de amar é finito; mas o de tudo poder, não.

Mentirosos, insolentes, traiçoeiros, traidores
Vingativos, rancorosos, temidos e temerosos
Fingem ser eu nas horas que esqueço quem sou

Demônios projetados, esperados
Prontos pra me receber e me dominar
Demônios combatidos todo dia.
Demônios vencidos, pelo menos hoje.

03 abril, 2006

Sobre flores e outros nascidos


Esses dias descobri uma coisa engraçada. Eu, que sempre me orgulhei de estudar as "coisas da vida", me dei conta que não sabia como nasce uma flor.

...

Nasci em uma família historicamente católica, e acabei sendo responsável por sua grande mudança doutrinária, quando tive a vida salva, ainda bebê, após uma cirurgia espiritual feita pelo Dr. Fritz, incorporado no médico Edson Queiroz. Depois do "milagre", todos lá em casa passaram a acreditar que havia algum mistério envolvendo aquele homem e o universo. Uma criança desenganada pela Igreja, terreiros e, claro, pela Medicina, não poderia ficar bem depois de ter o dedo indicador de um "possuído" enfiado em seu pescoço! Mas eu fiquei! Em duas semanas, me curei de uma ferida que não cicatrizava, e hoje não passa de um tracinho com cara de microintervenção cirúrgica.


Quando cresci e ouvi essa história absurda, resolvi tentar entender como isso poderia acontecer, e fui estudar um pouco mais sobre a vida na Terra e fora dela. Mas nunca fui muito boa em Ciências ou Biologia. Na verdade, eu não entendo NADA sobre o assunto e seria incapaz de dizer até quais são as partes de uma célula. A vida que andei estudando esse anos nunca estava ligada à matéria, só à alma. Talvez por isso tenha me esquecido das flores.

...

Quando olhava para elas, pensava que nós sempre precisávamos plantá-las para existirem. Aqueles campos coloridos, cheinhos de rosas, gerânios e flores do campo, certamente, seriam decorrência de um extenso trabalho mecânico e humano, claro!

- Sim, mas e nas matas, como as flores surgiam?
- Bem... Por geração espontânea?

É, definitivamente, eu nunca havia pensado nas flores. Não que eu seja antiromântica. Ao contrário! Sou até demais. Mas vejo no romantismo algo além buquês ou pétalas vermelhas em banheiras.

...

Eu jamais me importei com as flores! Uma pena... Talvez tivesse descoberto um pouco antes que elas precisam de outros seres para se reproduzir.

Humanos e animais só precisam de outros humanos e animais para continuarem existindo. Eu estaria aqui com ou sem flores. E Isaltina estaria lá em casa com ou sem abelhas. Mas as flores não estariam em lugar algum sem as abelhas! Porque são elas que ajudam na troca das células reprodutoras entre as flores, tornando possível a geração de uma outra flor.

Meus cabelos crescem sozinhos. Minhas unhas crescem sozinhas. As flores, não. Girassóis e violetas não dão continuidade à espécie apenas sacodindo sementes no chão! E também seria meio impossível todos terem sido plantados pelo homem! Como eu nunca pensei nisso antes?

...

Sempre me considerei tão esperta e inteligente, mas acabei esquecendo de olhar os pontos mais simples. As flores... Todo dia lá, olhando pra mim, e eu nunca me perguntei de onde elas teriam vindo!

Que coisa feia!

24 março, 2006

Luzes da vida


de manhã vem o sol,
atravessa a janela e esquenta o rosto
invade o quarto
e me faz levantar.


lentes escuras para encarar as ruas
luzes das telas e dos flashes
trabalho, diversão, informação
lá se vai o dia.


a tarde chega
e, antes de ir,
como quem quer me agradar,
deixa um tom rosa no céu.


a cor do amor se transforma
e, quando a noite vem,
velas iluminam os cômodos
perfumam a casa.


mais tarde, apago o fogo
e acendo a lanterna: vermelha!
pra colorir minha paixão

e iluminar meus sonhos.

19 março, 2006

Cada um com a sua...

Do Ás ao Rei me mandou essa corrente:

"Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs aviso do 'recrutamento'. Ademais, cada participante deve reproduzir este 'regulamento' no seu blog".

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Preciso ressaltar que esse post é, antes de tudo, uma prova de amor. Sou absolutamente contra correntes e jamais moveria uma palha para dar continuidade a qualquer uma delas. No entanto, como o convite partiu do meu marido lindo, e consegui um tempo livre para escrever, aqui estão listadas cinco das minhas manias. Para não quebrar minha tradição anti-correntes, não vou indicar nenhum blog a fazer a mesma coisa. Logo, essa brincadeira não passa daqui, se depender de mim.

Manias

Fiquei um tempão pensando em cinco manias exclusivas e até pensei que não iria encontrar. Depois lembrei que sou fixa demais para não acumular manias. O simples fato de ser “fixa” me faz ter mania de quase tudo, como sempre ir aos mesmos bares e restaurantes e, quando possível sentar na mesma mesa, sorrir para o velho garçom amigo e dizer: o de sempre.

Tenho mania de tomar cajarosca no Empório, caipirosca no Garrafus, de só beber vodka com guaraná diet, comer bifun no Xangai, sanduíche de ricota e tomate seco no Bugaloo e tempurá no Tepã. Essas manias são minhas, só minhas. Juntando todas, já passaram de cinco.

Mas como podemos diferenciar manias de hábitos? Tudo listado acima, por exemplo, percebo como hábitos. Manias são aquelas esquisitas, como roer unha até doer, jogar "snake" no celular nas horas vagas, pisar primeiro com o pé direito quando levanto da cama ou entro em algum lugar importante, beijar a medalhinha em meu pescoço toda vez que saio ou volto pra casa, e dizer “ê” pra passar o tempo e minimizar a chatice de tarefas repetitivas como procurar nomes numa agenda de celular, digitar ou procurar textos no computador, mexer panelas ou arrumar o guarda-roupa. Só que nenhuma dessas manias é só minha. Com exceção do “ê”, que deve ser feito apenas por mim e Adriana (de quem adquiri a mania), todas as outras devem fazer parte da rotina de milhares de pessoas.

Ah! Vou tentar pensar em algumas parecidas comigo, deixar de conversa mole e começar logo essa lista.

1 - Uma mania que me segue desde a época da faculdade é a de sempre – eu disse SEMPRE – ter à mão bloco e caneta. Isso vale para o dia-a-dia e se estende à praia, festas de casamento e formaturas ou a um simples encontro com a galera no bar (onde o kit é ainda mais imprescindível).

Assim, posso anotar tudo de fantástico que vejo e ouço para lembrar depois, já que minha memória não consegue fazer isso sozinha.

2 - Uma mania estranha, mas que não consigo deixar, é de dormir completamente em cima da cama. Explico. Quando deixo alguma parte de corpo pra fora, seja a mão, o braço ou a pontinha do pé, tenho a impressão de que algum ser do mal vai surgir debaixo da minha cama e puxar o membro “pendurado” – e eu junto, claro! - para algum lugar terrível e sem volta.

Apesar de ter consciência da impossibilidade disso acontecer, não consigo me sentir à vontade pra pegar no sono enquanto não estou completamente protegida e, de preferência, cobertíssima pelo lençol.

3 - A tecnologia nunca poderia ficar de fora da lista de manias de uma pessoa comum, e minha mania tecnológica é a de girar o mouse duas vezes em sentido horário sempre que pego nele.

Eu não havia percebido, mas desde que minha chefe observou e me contou, fico atormentada, querendo me controlar pra não fazer e não consigo! É involuntário. Eu fico digitando, digitando... e quando vou pegar no danado do mouse, rodo ele de novo. Acho que isso deve ter surgido em algum desses micros onde o mouse estava imundo e eu precisava sacudir pra ele pegar no tranco. Bem, é só uma suposição. Seja lá qual for a real origem da mania, o importante é que ela está aqui, e não consigo mudar.

4 - Ah! Eu converso MESMO com os bichos na rua. Claro que há os contatos mais freqüentes, como cachorros e vacas. Mas se outras espécies derem bobeira, vou pra junto também.

É mais forte que eu. Se eles passam do outro lado da rua, já estou atravessando pra dar um cheirinho ou pelo menos alisar a cabeça do bicho. Independente de raça, tamanho ou estado de limpeza, eu vou me aproximar. Por uma questão de sorte, ou empatia natural, nenhum nunca avançou. Acho que eles gostam da minha voz especializada em diálogos com animais. Quem menos gosta dessa mania é o meu marido que, quando não consegue evitar o “agarrado”, já vai gritando: na boca não!!!!!

5 - E por falar nele... Aí está minha maior mania: o meu Ás, o meu Rei.
Mania de coçar sua cabeça até ele dormir e de procurá-lo ao meu lado assim que acordo. Mania de sentir saudade quando ele fecha a porta ou se despede, e de mandar mensagens de “te amo” no meio da tarde. Mania de fazer carinho e cócegas, de beijar manso e cheirar o cangote. Mania de fechar os olhos quando ele encosta no meu rosto e de sorrir ao ouvir sua voz ou nome. Mania de acreditar que ele é o amor da minha vida e que tudo isso será eterno. Mania de achar ele o melhor músico, o melhor escritor, o melhor marido, o melhor cozinheiro, o melhor contador de histórias e o maior dos “enrrolões”, porque me faz acreditar de verdade nisso tudo, e amá-lo ainda mais.

17 março, 2006

Dia Internacional do Luto

Há 10 dias, entre uma matéria e outra, preparei um texto para o Dia Internacional da Mulher. Mas esse negócio de ser mulher é tão complicado, que acabei não tendo tempo de postar. Se ser jornalista já é uma missão e tanto, ser blogueira, orkuteira, colega, esposa, dona de casa, filha, neta, irmã, amante, companheira e sexy ao mesmo tempo é ainda mais difícil!

Resultado: o tal 8 de março passou, literalmente, em branco nesse blog fuleiro. Mas parece que foi só aqui mesmo... No resto do mundo todos os pequenos - e grandes - espaços foram reservados para elogiar, parabenizar e fazer discursos exaltando as conquistas femininas e a importância da mulher na sociedade. Ridículo!

Explico. No último dia 8, não me achei com a menor vontade de comemorar. Meu desejo era mesmo o de protestar. Em todos os lugares as mulheres são preteridas (mas isso os homens nunca vão perceber). Até parece que as civilizações pensaram suas culturas para reduzir nossa participação social. Aqui no Recife, onde vejo de perto a discriminação, a situação não está nada boa.

No dia em que todo mundo fingia respeitar as mulherada. A cidade amargava 72 assassinatos de mulheres só esse ano! A maior parte, vítima de um parente próximo ou do "companheiro". Uma vergonha! Outra característica das vtimas e que elas são, em sua maioria, negras e pobres.


Os homens negros e pobres aqui também morrem cedo. Eles começam no crime ainda crianças. Praticam furtos, consomem e traficam drogas. Logo acabam sendo mortos pela polícia, por adversários e até pelos comparsas.

As mulheres negras e pobres seguem um outro caminho. Elas freqüentam a escola, reprovam pouco e só se afastam dos estudos para terem seus filhos, cujos pais, negros e pobres, estão envolvidos em algum crime. Por não terem formação profissional, acabam ficando em casa, cuidando das crianças - uma nova a cada ano - e sendo sustentadas, muito precariamente, por seus homens.

Mas no dia em que eles enchem a "cara de cana" ou voltam pra casa de mau humor, é nelas que descontam todas as insatisfações e ansiedades. Eles as molestam, as violentam, as espancam. Quando têm sorte, elas se recuperam, e rezam quietas para o rompante demorar a acontecer de novo. Mas 72 mulheres do Recife não tiveram tanta sorte.


Elas tentaram fazer diferente. Não participaram do tráfico de drogas, não cometeram assaltos, não mataram ninguém. Apenas amaram seus homens e pariram seus filhos. Ainda assim, morreram cedo. Cedo demais...

......

Enquanto recebi, no dia 8, uma rosa vermelha, pensei nessas mulheres, mortas pelo filho da mãe com quem dormia todo dia! A surra que levou ou a bala que atravessou seu corpo antes delas morrerem devem ter doído bastante. Mas não tanto quanto ver a mão que já a acariciou, ser levantada contra seu rosto.

Nós, mulheres estudadas, cultas e independentes, jamais entenderemos as razões que fazem alguém permanecer em casa sob ameaça de vida. Talvez porque nunca tenhamos passado fome, ou por termos uma família protetora, ou uma grana guardada para imprevistos. Talvez até por conhecermos nossa força de trabalho e carregarmos um bom currículo, que logo nos abriria novas portas. Elas não têm nada disso!

Os números que justificam as comemorações do Dia Internacional da Mulher falam de conquistas como o direito à educação e à cidadania, ao voto e à carteira de motorista. Eles destacam as cientistas, juízas, senadoras, pilotas, mecânicas. E daí? Podemos ser o que quisermos. Afinal, temos um cérebro. Ridículo seria tentar nos manter, ao longo da evolução social, submissas como animais domésticos.

Não posso deixar de avaliar tamanha resistência à inserção da mulher nos espaços de poder, como medo da nossa soberania. Para mim, fora o detalhe dos órgãos sexuais, poucas coisas diferem homens e mulheres. Por isso, não classifico minha postura como feminista, mas sim, igualitária. Mulheres e homens podem ser igualmente sábios, capazes, fortes, persistentes e dedicados. Mas há entre nós um grande diferencial: a sensibilidade. O principal defeito de fabricação de muitos "cabras-macho" por aí.

O que eu sei é que dificilmente mataríamos o homem com quem vivemos porque tomamos um pórre ou estamos em TPM. O que eu sei é que não faríamos acordos ilícitos com o dinheiro público e dormiríamos em paz uma noite inteira. O que eu sei é que até as próprias mulheres ainda não conseguiram impôr sua importância social. Uma pena...

Tenho um marido lindo e carinhoso, um emprego estável, uma família unida e amorosa, grana para farras e bobagens. Tenho uma vida maravilhosa, mas faço parte de menos de 10% das brasileiras. Enquanto não tiver feito alguma coisa pra mudar isso, não terei nada a comemorar, nem merecerei parabéns.

02 março, 2006

Ressaca

Quarta-feira de Cinzas
De sol e sossego
A calmaria do povo
O despertar de um sonho
de fadas e heróis

Quarta-feira de Pó
Pra baixar a poeira
Descansar o corpo
Pesar os pecados

Quarta-feira de Brisa
De sombra e folhas secas
Despedidas e pés calejados

Dia de apagar as luzes
Varrer os confetes
Guardar as fantasias
Recolher os tambores

Quarta-feira de Saudade
De fim de ilusão
E começo de espera
Falta um ano pra o Carnaval...

23 fevereiro, 2006

De volta

Algumas coisas nos param e outras nos levam.

O amor mesmo - aquele de águas mansas - me pára.
Com ele eu só quero o ócio de planar num peito aconchegante, a dormência do repouso das pernas em outras pernas, uma fungada com cheiro amadeirado e o leve entrelace de dedos pra se fazer um só.
Com ele vivo uma dança mágica de olhos e corpos, embalada por uma música que mais ninguém ouve.
O amor me pára e me tranquiliza em momentos que queria eternizar, porque neles nada mais me falta e de nada preciso.

Já a paixão - quando a alma joga confetes e se deixa levar como num torpor de lança-perfume - me leva longe.
Seu fogo me leva às palavras, aos berros, à exibição. Seu movimento cansa o corpo, sua a pele, inquieta até o silêncio nostálgico de tempos de paz.
Me leva à busca, ao cansaço, à persistência, às lágrimas e saltos. E depois, me deixa o tédio da solidão real, consumada. Porque paixão é Carnaval: alegra, enfeita, encanta, cansa e acaba.

Quero a fórmula mágica de um amor que também me leve, me carregando cuidadoso rumo à plenitude, aos versos, à novas canções.
Quero que esse amor me renove, sem esquecer que sou feita de paixão.

............................................

Ao amor que me leva longe!