02 agosto, 2007

Presentes

Foto: Catha (mãe de Davi)

As férias acabaram e eu praticamente não percebi que elas aconteceram. Duas semanas e nada novo. Nenhuma programação fabulosa, nenhuma aventura, farras quase inexistentes. Dias de puro sossego (com exceção dos períodos agitados pela energia infinita das crianças ocupando todos os lugares da casa). Mas no meio de tudo isso vivi momentos lindos e a maioria envolvendo minhas amigas.

É sempre tão piegas falar delas. Soa tão bobo, tão lugar comum... Mas é assim que sinto, como se elas fossem a grande força que me revigora, um impulso, uma alegria sem fim, a única chance de ser eu de verdade sem medo de não ser mais amada.

Perceber que os anos passam e estamos cada vez mais próximas, conforta minha alma, me dá paz. Ver os amores chegarem, as famílias se formarem, as carreiras se solidificarem, os filhos nascerem... Estar do lado na comemoração da casa nova, conhecer o novo namorado, compartilhar conquistas e perceber que agora não entendemos mais tanto assim de baladas, mas sabemos muito sobre cozinha e até sobre mamadeiras.

A gente cresceu! Agregamos, trouxemos mais gente para nossas vidas, mas sem esquecer quem está na base, quem conhece nosso segredo mais obscuro, quem nos reconheceria entre mil pessoas só pelo jeito de escrever, pelo pedido na mesa do bar, por cada uma de nossas escolhas. Às vezes nem nos surpreendemos mais, e se um dia percebemos o imprevisível, parece que o amor fica ainda maior! Com a gente, até as brigas são fantásticas, porque foi assim, batendo de frente, que ajudamos a outra a amadurecer.

Posso dizer sem medo que o melhor dia de minhas férias foi esse aí, na casa de Catha, todas juntas. As vidas cada vez mais diferentes, os destinos levando algumas para bem longe e a gente encontrando um dia no ano onde podemos ser só uma da outra, sem hora pra acabar. São esses raros encontros que me dão a certeza de que pelo menos uma coisa nessa vida é eterna.

Ai, como é ótimo ser piegas!

23 julho, 2007

Cara nova


Descobri como mexer nesse bendito blog.

Catuquei daqui

Fiz careta dali

E aqui está.

A Mack de hoje

Com muito vermelho e vida!

Pensativa

Foto: Riva Spinelli

São tantos planos, tantos segredos, tantos sonhos, que às vezes fica difícil conversar, manter contato com quem está ao lado. Aí fico assim, meio calada, criando, vivendo minhas mentiras inúteis e inconseqüentes. Partes de meu mundo alternativo, mas que em tempos de ócio parecem tomar proporções maiores e acabam superando a realidade.

Tenho tantas crenças nas quais só eu acredito e se contar, vão me achar louca. Tenho umas idéias alucinadas sobre o futuro, mas só confesso muito bêbada, aos mais amigos – aqueles que não vão deixar de me amar por causa disso e ainda vão sorrir com tamanha criatividade. Tenho uma vida inteira para ser vivida do jeito que eu quiser, como sempre desejei, com um final feliz e a chance de refazer as cenas que não ficaram boas ou deixar outras durarem até que eu canse daquele momento.

Na vida real não é assim. Essa vida onde a gente leva chuva sem querer, despela de tanto tomar sol, sai atrasada para o trabalho, acorda cedo mesmo de ressaca e o esmalte descasca na primeira vez que lavamos um prato, não dá pra ser feliz o tempo inteiro... Na minha mente, tudo é possível!

Há uns dias ando do lado de lá do mundo. Um exercício tolo, típico de quem não tem nada melhor para fazer ou de quem não quer mesmo fazer nada além de descobrir até onde essa mulher escondida em mim seria capaz de ir. Ela é tão romântica que me assusta; tão esperançosa que me lembra uma criança, sem limites, sem medos, com força para qualquer empreitada, mas pouca capacidade de execução.

Nunca soube tão bem o que ser criança desde que deixei de ser uma. Meus segredos, sonhos e aventuras impossíveis estão todos por aqui! Ah! Deixa ficar...

18 julho, 2007

Pelo mundo

Foto: Léo


Eu me encanto com tudo
Tudo que muda todo dia
Tudo que me faz diferente

Eu me encanto com cada sorriso - que é único
Com os olhos dos desesperançados
E o som que rompe o silêncio da noite

Eu me encanto com as dobras no braço da criança
e as rugas no rosto do velho
Com o tom laranja no céu de fim de tarde
E o prateado do rio que se espreme entre a cidade

Eu me encanto com tudo
Tudo que se reinventa todo dia
Tudo que me transforma.

10 julho, 2007

Bem vinda!


Já fazia uns dias, o espaço parecia menor. Maria tentava se mexer, empurrava as paredes flexíveis que a cercavam, mas não se sentia mais tão confortável. Na verdade, tudo andava muito repetitivo ultimamente, e ela já conhecia de cór aquele lugar. A mesma paisagem, as mesmas vozes conversando com ela de vez em quando. De onde viriam?

Lá em sua casa, apesar de sentir-se um pouco sozinha, Maria tinha tudo que precisava; comida abundante, sossego e aquele clima que ela adorava. Mas, com o passar do tempo, sentiu que não dava pra continuar ali. Ela queria mais.

Foi numa madrugada chuvosa que resolver arrumar as malas e ir embora. Êpa! Que malas? Maria não tinha sequer a roupa do corpo. Tudo bem... sairia nua mesmo, ninguém iria se importar. Acordou todo mundo em casa, mobilizou a família. Maria sabia o que queria, por isso fez tudo muito rápido. Veio ao mundo às 6h15 de uma nublada manhã de julho.

Quando saiu, pensou que essa idéia de aparecer nua talvez não tenha sido muito boa. Além daquele frio que nunca havia sentido, todos a olhavam admirados. A maioria estava sorrindo, mas um cara grandão do outro lado do vidro chorava sem parar. Mesmo sem entender nada, solidária, ela também chorou.

As roupas logo vieram. “Cor de rosa! Adorei!” Melhor assim. Agora estava tudo certo, bem do jeito que ela esperava. Maria pôde ver o rosto de todas aquelas vozes que conversavam com ela quando ainda morava na antiga casa de água. Pôde ver cores diferentes, sentir outras texturas. Esse mundo novo era muito melhor do que imaginava e já estava ansiosa para olhar tudo com muita atenção. Mas, só depois.

Agora, Maria queria mesmo era ficar por ali, naquele lugar fofinho que a colocaram e de onde ela podia olhar o tempo todo para o rosto emocionado da moça ao seu lado. Ela, a moça, ainda não havia dito uma palavra, mas a olhava como quem admira um balé de borboletas coloridas, como quem vê a mais rara das flores. Talvez por isso Maria sentisse por ela algo diferente, um sentimento estranho e grande demais para caber em seu pequeno coração, uma vozinha dizendo baixinho que aquela moça seria o grande amor da sua vida.

À Vanessa e Maria Júlia, com meus maiores desejos de felicidades eternas.

08 julho, 2007

Marília de Dirceu

Foto: meu amigo Léo


Marília adora comédias românticas e tem pavor a sangue em qualquer aspecto, seja ao vivo ou pela TV. Ela treme com imagens mais fortes e tem pesadelos quando se impressiona com alguma cara feia.

Dirceu adora filmes de guerra e ação. Exatamente aqueles onde ela morre de sono quando a briga se estende por mais de dois minutos. “Tão cansativo...”. Mesmo assim, entram em acordo, e são capazes de passar horas se divertindo e se emocionando com as histórias que os outros contam.

Marília adora madrugadas. Para ela, essa é melhor hora pra tudo! Conversar, beber, pensar, escrever, amar... De dia é praticamente uma inútil. Antes das 9h, de tão descoordenada, é incapaz de formular uma frase inteligente ou de sequer encaixar uma chave na fechadura.

Dirceu costuma acordar cedo, mesmo quando não tem compromissos. O sol chega e lá está ele, todo disposto a fazer o dia começar. Em compensação, sempre antecipa o término das noites e costuma pegar no sono antes de Marília ensaiar seu primeiro bocejo.

Mesmo diante de algumas pequenas diferenças, é ao lado um do outro que se sentem felizes. Outro dia – enquanto Marília estava toda perfumada, fatalmente vestida com sua lingerie mais sexy, e Dirceu roncava ao seu lado sem nenhuma cerimônia – pensava que essa é mesmo a vida que escolheria entre qualquer outra opção. Era esse o retrato de fiel de um conto de fadas na cabeça dela: paz, estabilidade, tranqüilidade, carinho.

Lenine tocava no DVD, chovia muito desde a manhã e o mormaço a obrigava a manter uma fresta da janela aberta. O travesseiro já estava úmido, o sono não encontrava um cúmplice e dava espaços para as lembranças brincarem. Lembrou do tempo que ficaram separados. Ele entregou-se à bebida, às farras e às mulheres (nada mal...). Ela caiu nos braços da loucura. Dias e noites sem um norte, madrugadas de música, embriaguês e solidão (uma merda de vida).

Talvez ele não merecesse outra chance, mas Marília achou que merecia, e deu a si mesma o presente do perdão. Assim, perdoou não a ele, por haver mentido, mas a ela própria, por haver perdido a sanidade. Pediu também perdão a Deus por tanto ter se maltratado, mal dizido e odiado, por ter fraquejado como nunca. E, quando se sentiu forte o suficiente para largar as muletas, soube que nada que não viesse de Deus a derrubaria.

E desde o dia em que o ódio vestiu de novo a roupa cor de rosa do amor, tudo mudou pra melhor. E agora, passar um dia inteiro de chuva dentro de casa e ouvir Dirceu ressonar ao seu lado na cama à noite, é exatamente o que ela espera. Ele também fez novas escolhas. Deixou de dormir embalado pelo álcool, entre pernas diferentes a cada noite, e permitiu que apenas Marília evocasse seu sono fazendo cafuné e o velasse até que o dela chegue (nada mal...).

No final, todos querem “a sorte de um amor tranqüilo”.

28 junho, 2007

À primeira vista

Foto: meu amigo Léo


Ele era moreno, quase da minha altura e apareceu ontem lá na parada de ônibus (aquela onde tudo acontece). Vi sua magreza aproximar-se. Gostei dos olhos, eram grandes, escuros e bons. Aqueles olhos ficaram marcados em mim. Tanto, que hoje me peguei tentando desenhá-los. Não consegui.

Esbocei o corpo esguio, as pernas longas, os pés descalços. Fiz um rascunho das mãos com dedos também muito longos, mas parecendo não terem lugar no mundo. Elas se mexiam sem parar e às vezes se encontravam bem em frente ao peito. Então paravam. Meu desenho, de traços precários e quase indistinguíveis, seria incapaz de traduzir o que não saia da minha cabeça.

Desde que se aproximou, diferente de minha reação habitual, não tive medo. Ao contrário, me dediquei a observá-lo em tudo. Como se estivéssemos em câmera lenta e eu não tivesse mais nada a fazer. Foi então que percebi o que tanto me chamou a atenção: o sorriso. Eu não conseguia entender porque ele sorriu pra mim. Por que havia me dado aquele presente logo depois que o ignorei? Talvez porque fosse melhor do que eu no quesito querer bem.

Dei mais uma olhada e conferi: descalço, roupas sujas, talvez 12 anos, talvez mais. Brincava entre os dedos com uma moeda de cinqüenta centavos que acabara de receber. Os dentes de cima haviam caído, os de baixo estavam pequenos e podres. Mesmo assim, logo depois de eu negar-lhe um trocado, agradeceu sorrindo e parou ao meu lado meio que sem ter pra onde ir.

Como é de praxe, o ônibus demorou a chegar e ocupei o tempo conversando com meu companheiro de espera, aquela figura que abria minha manhã de uma forma especialmente diferente. Ele mora no Alto do Pascoal. O pai foi assassinado e a mãe está desempregada. Na casa onde vive ainda cabem a avó e sete irmãos. “Não como desde ontem. Muita chuva pra conseguir trocado na rua. Hoje já deu pra sair. Com esse dinheiro dá pra comprar cinco pães. Ainda falta o café e o pão para o resto dos meus irmãos. Só volto pra casa quando tiver tudo”.

Pensei se realmente não tinha uns trocados para ele. Catuquei, catuquei. Achei umas moedas. Cinco minutos depois o ônibus chegou. Subimos juntos. Eu sentei. Ele pediu dinheiro aos passageiros, mas não conseguiu mais nada. Desceu na parada seguinte. Provavelmente nunca mais vou vê-lo.

O céu estava cinza e a chuva já havia molhado um palmo da barra da minha calça, mas, surpreendentemente, eu não estava irritada. Estava feliz por tê-lo conhecido e tinha algo mais importante com que me preocupar. O que fazer para esse menino não passar fome e mendigar até ficar adulto? Ainda não sei.

18 junho, 2007

Sexta-feira, 15

Chegar ao trabalho é sempre uma experiência única. Mesmo saindo de casa todos os dias na mesma hora e pegando o ônibus da mesma linha, há alguma novidade ao longo do translado. Hoje, por frações de segundos, perdi a primeira leva de ônibus e tive que esperar 10 minutos para que outros viessem. Dez minutos que se transformam em uma eternidade de infinitas observações.

Minha parada fica em frente a um conhecido colégio público do bairro, o EPOM, isso é ótimo, porque me ajuda a ocupar o tempo de espera olhando o comportamento dos alunos. Hoje um grupo de meninas vestindo uma blusa onde estava escrito: “Humanas – Fera EPOM 2008 saiu da escola conversando animadamente. “A gente somos iguais, Camila. Marcamo a mesma resposta!”, constatou uma delas. Acho que ela vai mesmo ficar uma fera com o resultado do vestibular 2008.


...........


Saí de casa meio estranha, meio sem saber direito porque estava indo. Essa história de trabalhar dois expedientes não me faz bem. Não sou uma pessoa feliz quando tenho a obrigação de acordar cedo e já entender de tudo, encontrar pessoas e fazer perguntas inteligentes. Ser cordial, simpática e esperta de manhã não é nada fácil (ao menos para mim). Mas preciso representar a Câmara, por isso, lá vou eu!

Hoje, em plena sexta-feira, acordei assim, meio estabanada, afim de não ser personagem, só observar. Então peguei o caderno para começar a anotar tudo enquanto o ônibus não vinha. Até que ele chegou. Eu o vi, mas não quis dar sinal de parada. Mesmo assim ele parou e abriu a porta de entrada bem na minha frente para um senhor descer.

Pensei o mais rápido que pude, guardei caderno e caneta na bolsa e subi. PEI! Meti o joelho na porta! Que dor arretada! Ainda bem que tinha um lugar para sentar lá no fundão. Quando me acomodei, fui conferir o local do acidente. Droga! A calça havia rasgado e o sangue estava aparecendo pelo buraquinho. Eca! Não dava pra chegar à Câmara daquele jeito. Logo para uma Sessão Solene do presidente! Mas eu já estava atrasada...

Resolvi ligar para lá. A Sessão ainda não havia começado e ainda por cima o dia estava lindo, seria bom aproveitar um pouquinho do sol. Então corri à loja de roupas mais próxima para comprar uma calça baratinha, mas que fizesse mais frente que aquela arrombada. Todas caras! “Eu não vou dar 50 reais numa calça se tenho dezenas em casa. Vou ficar com a rasgada mesmo. Acho que ninguém vai nem perceber”.

Pronto. Eu estava ainda mais atrasada, mas ao menos não gastei dinheiro à toa. Hora de voltar à Câmara. Oxente! O céu escureceu... “Já está chuviscando e esqueci a sombrinha! Se correr dá tempo”. Que tempo que nada! Aconteceu uma daquelas chuvas descontroladas de pingos pesados e enquanto corria, comecei a sorrir. Lá estava eu, atrasada, de calça rasgada, joelho cortado, e toda ensopada. E foi assim que cheguei à Câmara.

Enquanto tentava disfarçar o estado lastimável colocando uma maquiagem e vestindo um blazer seco, Léo chegou:

- Eita, Mack, massa o visual da calça!

- Homem, dei uma porrada no ônibus e pra completar, tomei o maior toró.

- Que toró? Choveu hoje não.

Olhei para o céu e um lindo dia de sol me olhou de volta.

- Eu não acredito!

Meu Deus... O dia está só começando!

31 maio, 2007

Previsão do tempo: nublado

Foto: Bernardo Soares

O céu nublado.
A chuva com vontade de estiar.
O vento bravo atravessando a janela, invadindo o apartamento e sacudindo as persianas.
Eu, com sono, tento dar um cochilo em plena manhã que, pra mim, continua sendo a melhor hora do dia para dormir.

As noites continuam amigas.
Talvez seja assim para sempre, independente do estado de espírito.
Feliz, sozinha, rodeada de amigos, tranqüila ou cheia de gás.
Gosto do ar silencioso da noite, dos tons de cinza e lilás nas nuvens, de ficar acordada junto com a lua, olhando a cidade.
Gosto das luzes acesas mostrando onde há vida, do mormaço das noites do Recife, de tudo que as mentes produzem quando o sol se vai.

Então me mantenho acordada.
Pensando, navegando, lendo algum novo livro, assistindo a mais um filme.
Os olhos não dão o menor sinal de cansaço.
Mas, de dia vem essa moleza, o bocejo intercalado com a espreguiçada, essa vontade de fazer nada...
Nos dias de sorte, como hoje, obedeço a vontade do corpo.

Agora, em plena uma da tarde, com a maquiagem disfarçando o rosto inchado, começo meu dia.
Mas o Recife, esse não está com a menor cara de quem começou o dele.
O céu ainda não abriu e as folhas das palmeiras do Parque 13 de Maio se acariciam de leve de vez em quando.
Enquanto o cachorro dorme espalhado na grama úmida.

Eita dia preguiçoso...

20 maio, 2007

Breve conto de amor


Lá estava ela, sentada na sala, terminando mais uma costura. Enquanto ele acabava de chegar da rua, enxugando o suor da testa antes de recolocar o boné na cabeça. Seu Basto se joga no sofá e trata de atualizar a esposa sobre as novidades da rua.

As obras do mercadinho vizinho iam de vento em popa. Os colegas mais novos já haviam deixado o currículo para tentar trabalhar por lá, seria ótimo. Para ele também, que poderia comprar tudo tão perto. O bairro já não era mais o mesmo. Não havia segurança nem para ir à esquina. “Assaltaram mais uma moça ontem bem aqui na frente de casa. Levaram a bolsa e o celular”, ele conta indignado.

Dona Lena ouve, mas não responde. Estava mesmo era pensando nas dores da perna que só faziam aumentar. Ansiosa, mal via a hora de fazer logo a ressonância da coluna para descobrir o que danado a atormentava há tantos anos. O exame era caro, mas os filhos ajudariam a pagar. “Cara mesmo vai ser a cirurgia. Será que vou ter que operar?”, ela pergunta, mudando de assunto sem nem perceber. “Se operar, vai dar tudo certo. Eu não tô bonzinho aqui, mulher? Você é muito mais forte que eu”, responde ele com ares de certeza. “Que nada”, retorna ela fazendo muxoxo.

Ele a olha, tira o boné novamente, coça os cabelos brancos e diz como quem volta no tempo. “Isso é tão braba! Bem que meus amigos diziam para eu escolher outra, que mulher pequena é uma desgraça de difícil, mas eu nunca quis saber de mais ninguém. Desde menino eu sabia que iria casar com ela”. E completou, com ares de eterno romântico. “Ela é a mulher mais bonita que já vi na vida. Acho isso até hoje, quando a vejo sentada aí, ajeitando as costuras”. “Tá certo. Tu gosta mesmo é que eu faça teu almoço!”, alfineta, novamente, Dona Lena.

O telefone toca. Uma, duas, três vezes.
- Vai atender, homem.
- Vou nada. Já ia te pagar três reais pra tu ir pra mim.
- Pois eu pago cinco e tu vai.
- Vou mesmo, e só precisa pagar dois, que é o troco dos três que ia te dar.

E nessa pisadinha, já estavam casados há 49 anos. Conheceram-se ainda crianças, enquanto corriam pelas calçadas de uma cidade pequena no interior da Paraíba. Ela, aos dez anos, usava vestidos floridos em tons de amarelo e só aparecia na rua acompanhada da mãe, indo ou voltando da escola. Tinha as pernas finas e era a menor da turma, mas seus cachos cor de ouro balançavam fácil com o vento e carregava no rosto um sorriso mais delicado e sereno que o de um bebê, como ele costuma definir até hoje.

Ele trabalhava no armazém do pai em frente à casa dela, tinha onze anos, mas ajudava entregando algumas encomendas. A vida era boa, porque além da ganhar uns trocados dos clientes, sempre encontrava tempo de fugir para uma volta de bicicleta com os amigos pelo quarteirão.

Quando cresceram e ela já ia sozinha ao colégio, ele sentiu que era hora de tomar uma iniciativa. Todos esses anos não trocaram palavra. Ele apenas a observava do outro lado da rua, enquanto ela olhava curiosa para aquele menino agitado, sempre sorridente e cercado de amigos.

No dia em que conseguiu convencê-la a aceitar uma carona em sua bicicleta, sabia que ela iria aceitar o pedido de casamento, que não demorou a acontecer. Lena e Basto casaram aos 18 anos e tiveram seis filhos. Para ela, cada gravidez era mais complicada que a anterior. A última filha foi gerada em alto risco, aos 44 anos. “Graças a Deus, todos nasceram saudáveis. Basto não cansava de fazer menino. Isso é fácil! O pior é que era para eu carregar!”, revela indignada com a injustiça imposta pela natureza.

Ao longo desses anos, como todos os casais que alcançam marca tão longínqua num relacionamento, superaram vários problemas. Ele ficou seis anos sem andar, mas recuperou-se, graças a uma cirurgia que só pôde ser feita no Recife. O tempo de recuperação foi longo, por isso resolveram não voltar à terra natal e trazer parte da família para a capital. Aqui terminaram de criar os filhos, fizeram novos amigos e começaram uma fase mais feliz de suas vidas, com mais saúde e estabilidade financeira.

No final do ano passado Seu Basto descobriu um tumor na próstata. “Foi tudo muito bom. O tumor era benigno. As enfermeiras eram ótimas. O hospital era particular. Um luxo que só vendo! O plano pagou tudo. Se não fosse aquela dorzinha da sonda eu até tinha gostado de ficar doente”, conta orgulhoso por ter vencido mais uma batalha.

Agora esperam pelos resultados dos exames de Dona Lena. Tenho certeza que dará tudo certo novamente. De todos os problemas que tiveram, nenhum inclui uma briga séria. Mas arengar... isso eles fazem todos os dias, como quem brinca de barra bandeira no meio da rua.

Para Riva, inesgotável fonte de inspiração.

14 maio, 2007

Dando as caras


Estou há um mês longe do meu blog... e só percebi isso agora, quando passei por aqui e li a data.

A produção de texto está em ritmo lento. Confirmando minha teoria de que quanto mais vivemos intensamente, menos tempo temos para escrever. Não é à toa que os textos mais fantásticos que já li são de autores depressivos, com temas sofridos. Eles têm tempo de sobra para as letras...

Florbela Espanca é a minha favorita, houve épocas em que precisava tê-la comigo em tempo integral, como uma amiga, uma cúmplice de dor. Mas não a procurei mais de duas vezes esse ano. Estamos em energias diferentes ultimamente.

Às vezes quero escrever sobre o amor. Ensaio uma ou outra frase. Paro. Temo não ter propriedade para o assunto. Acho que é isso que estou vivendo agora - o amor. Como sempre, o de sempre, mas com tantas coisas novas acontecendo...

Fatos reais. Conquistas reais. Dessas que as pessoas conseguem ver e não são apenas fruto da minha imaginação. Meu amor vive hoje o que ele sonha desde que nasceu, nem lembro quando... Talvez numa sala cheia de computadores, trocando olhares em almoços corridos ou na hora em que ouvi a voz dele no rádio do carro pela primeira vez.

Desde esse dia, quero mais. Espero, batalho, choro, sorrio, e tudo parecia não ultrapassar o meu mundo fantástico, um espaço onde ninguém nunca esteve de verdade, mas onde tudo funciona (ao menos pra mim). Agora meu amor faz parte do dia-a-dia. Ele CONVIVE!!!!

Ando tão perplexa com essa constatação, que, confesso, não estou conseguindo escrever sobre o assunto. É como se o sentimento estivesse em fase de observação, como uma criança pré-matura que você nunca sabe se vai ou não sobreviver, como uma plantinha seca em fase de recuperação. Era isso o meu amor no começo ano. É lindo, emocionante e reconfortante perceber que, depois de tanto cuidado, ele começa a ganhar independência, dar bons frutos.

Quando penso, então, em escrever sobre ele, vejo que vou usar palavras já ditas nos tempos em que não era real. E como não acho justo comparar esse sentimento novo com o antigo, vou deixando ele assentar sem o verbo, só com a vida de cada dia. Me apaixonando toda manhã. Um dia de cada vez.

E se ainda resta alguma dúvida... Sim, meninas, a vida está BOA!

13 abril, 2007

Sobre tatuagens


Eu aconselho a todos.
É tão bom fazer!
Sentir a dor.
Entender que aquele é um momento nosso, quando escolhemos uma cicatriz.

Mas antes de tudo é preciso saber o que se está marcando. Porque isso vai representar um pedaço da nossa vida, como uma queda inesquecível, ou a marca de um ato heróico...

O primeiro passo é escolher um símbolo. Algo que a gente saiba que será nosso pra sempre.

Quando eu estiver velhinha - se é que comendo tanta porcaria eu vou conseguir ficar velhinha - vou ter orgulho de ter desenhado a flor que mora em meu pescoço, e de ter marcado meu pé com um pedaço de fé, e de tantas outras marquinhas que estão maturando na minha cabeça, só esperando o dia certo pra nascer.

Depois de ter certeza que achou o traço perfeito, é hora de encarar o desafio e, claro, a dor! Sim! Dói. Doeu MUITO no pé. MUITO. Mil vezes mais que a das costas (mas essa não conta, porque foi feita em circunstâncias atípicas de dor na alma)

No primeiro dia em que olhei para a feita de fé, e a vi toda avermelhada, como uma sombra no meu pé, fiquei me perguntando se havia feito a coisa certa. Não contei pra ninguém. Guardei a dúvida só pra mim. Esperei o dia acabar, o outro chegar, e olhei de novo. Ela é linda. Combina com meus sapatos. Combina comigo. Não errei!

É, de fato, um pouco estranho ficar com tanto acesso a um desenho no corpo. Então, recomendo que a primeira tatuagem seja feita em um lugar meio escondido dos olhos, e consecutivamente, da auto-crítica. Assim fica mais fácil de lidar com ela e não nos culpar tanto nos dias em que a gente quase se arrepende de ter se marcado tão profundamente.

Quase nunca vejo minha flor. Às vezes esqueço que ela está aqui, tão perto do meu juízo. Melhor assim... O felino vem por aí. O lugar ainda é segredo - até pra mim! Ele também ainda é um grande mistério. Tá só tomando forma, ganhando vida na minha vida. Quando estiver prontinho, vem ao mundo. Na hora certa. E essa hora, a gente sempre sabe qual é.

Para Maíra. Assim, quem sabe, ela não toma coragem!

De pé novo


Não sou o tipo de pessoa que consegue as coisas com facilidade. Isso não é uma reclamação, nem muito menos motivo de orgulho, é só uma constatação. Para mim, nada vem de graça!

Não tenho sorte no jogo (exceto nas poucas vezes em que bati no bingo dos Amantes de Glória). Não tenho grana sobrando. Não tenho estabilidade emocional ou familiar. Mas, no final das contas, acabo conseguindo tudo que quero. Claro, sempre à custa de muito esforço, trabalho e persistência.

Talvez tudo isso tenha me tornado essa pessoa insana. Tão crente, mas tão crente na força do Universo, ao ponto de acreditar que minha fé é capaz de transformar não só o meu destino, mas o de todo mundo ao meu redor.

Na minha concepção, tudo que acontece tem uma razão maior. Nada é por acaso. Não há coincidências, há planos! Um plano elaborado cuidadosamente antes mesmo de nascermos, e que vai determinar o que será necessário para nossa evolução aqui na Terra. Vai ver foi na hora de fechar esse "plano de vôo" que eu mesma pedi pra lutar MUITO antes de conquistar algo.

Que seja feita a vossa vontade!

Lembro quando quebrei o pé, há cinco meses. Ninguém entende como um pé vira sozinho dentro do mar, principalmente quando a maré está abaixo do joelho! Ninguém entende... Mas eu sei que eu tinha que ficar imóvel bem naquele dia! Se não tivesse quebrado o pé, algumas pessoas erradas teriam se aproximado e, certamente, eu não teria enxergado o valor de outras. Se pudesse caminhar, teria ido a lugares errados, teria errado mais que o costume! O destino fez o seu papel (diminuindo meu ritmo) e, nessa pisadinha, ultrapassei mais uma etapa.

Semana passada, venci outro obstáculo. Lutei até o último segundo para entender o porquê de estar sendo demitida. Além de precisar do emprego - porque não tinha nada em vista - também precisava fazer justiça! Rezei. Acreditei. E depois de fazer as malas e fechar a porta, alguma coisa aconteceu e ELES mudaram de idéia.

"A menina fica!"
"Mas, como?"
"Fica. E pronto!"

E aqui estou. Na mesma sala. No mesmo computador. Com os mesmos amados amigos. Com um Diário Oficial novo a cada dois dias. No mesmo lugar. Com a mesma fé. Ou melhor, com a fé ainda maior! Tão grande que precisou ficar registrada pra sempre no corpo... Fiz no pé direito - aquele que quebrou - e tô adorando olhar pra ela todo dia, me fortalecendo ainda mais.


E a vida?

A vida continua boa, passando tranqüila, a passos mansos e incessantes.

03 abril, 2007

Na rua

É verdade...
Escrevi palavas com sabor adocicado pra contar uma história que anda amargando meus dias e consumindo meus sonhos na última semana.

Fui demitida da Câmara.

Cargo político sem concurso é assim mesmo. Sabia que mais cedo ou mais tarde seria a hora de partir para outra. Só não esperava que fosse desse jeito. Torto. Injusto. Obscuro. Mas foi! E se foi, é hora de levantar a cabeça, comer muito chocolate até domingo e recomeçar um nova vida na segunda-feira.

Chorei bem menos do que gostaria. Não falei palavrão. Não dei um grito. O resultado disso é que somatizei a porcaria desse sentimento de perda e acabei ficando muito doente. Meu corpo inteiro dói. Os olhos ardem. A boca fica seca e leva um contínuo gosto amargo. A garganta arranha. O nariz entope. Melhor dizer que é gripe. "já já passa".

Soube da notícia na terça-feira passada, mas durante todos esses dias alguns vereadores e minha diretora (Germana) vêm tentando reverter a decisão tomada por apenas um. Sim! São 36 vereadores, um deles me demitiu e dizem que não podem fazer nada quanto a isso. Ah! E pasmem! Esse um não é o presidente da Casa! Interessante, não é?

Depois de tantas tentativas, percebi que por mais persistente que eu seja, não posso lutar contra algumas coisas. Ou melhor, posso até lutar, mas vencer é outra história... Estou indo agora rumo à última cartada. Consegui falar com ele para que o próprio me justifique, cara a cara, as razões da demissão. É provável que nada mude, mas uma super-brasileira não desiste nunca! E eu preciso dessa conversa pra trancar bem trancada a porta de minha passagem pela Câmara.

De antemão, comunico que estou à disposição do mercado de trabalho, e com muita certeza que o próximo emprego vai chegar mais rápido do que imagino...

P.S.: Na foto, Germana, Cata e eu, na minha despedida, sexta-feira.

Despedida


Entre linhas e vírgulas mal encaixadas em um Diário Oficial
Entre offs repetidos mil vezes, discursos gigantes e as lembranças de “lutas libertárias da cidade historicamente mais importante da América Latina
Entre a correria em busca de pautas e de fazer a coisa certa
Entre biscoitos de chocolate e segredos compartilhados.

Nossas histórias se acharam
E viraram sorrisos
E enxugaram lágrimas
Trocaram olhares cúmplices
Apoiaram quando não dava pra levar sozinho
E se completaram em abraços
Que só amigos de verdade sabem dar.

Foram assim meus dias aqui
Doces como o olhar de Sugahara
Agitados como a presença de
Catarina
E tão intensos quanto a de
Germana
Dias irretocáveis como o caráter de
Vivi
Sinceros como as palavras de seu Carlos
Leves como a vida que Léo leva
Tão marcantes quanto a brabeza de Ana Paula
E mais reais que a sem-vergonhice de Tonho.

Tudo aqui foi novidade e verdade
Descobri um mundo desconhecido
Amadureci
Tudo me fez mil vezes melhor,
Mais profissional, mais forte
E mais feliz.

Por isso valeu tanto.
Por isso até ir embora não pode ser ruim...
Aqui deixo algumas fotos e acho que alguns frutos
Comigo, levo uma saudade sem tamanho
E a certeza de que nada acabou.

Nos vemos pelo mundo...

21 março, 2007

Um quê de sei lá o quê


Sem computador em casa. Sem nem uma casa. Mas em casa...

Sem tempo pra pensar besteiras. Com tempo pra comprar besteiras. Com planos de fazer cada vez mais besteiras!

Descobrindo uma nova jornalista em mim a cada novo dia, a cada tentativa frustrada de fazer uma passagem legal. Sou abusada até no vídeo! Sim! Abusada! E com os olhos pequenos demais, as bochechas grandes demais, o sotaque carregado demais! Ai!!! Mas sentindo que está bem perto de conseguir trabalhar direito nessa tal de televisão.

Trabalhando muito. Amando demais. Bebendo além do prudente. Conquistando sempre.

Hoje disseram que sou o tipo de pessoa que consegue tudo na base do charme. Bem, eu achei que era da persistência, mas se há discordância sobre a questão... Fazer o quê?

"Jovem. Simpática. Risonha. Boazinha. Original. A representação fiel do canto da sereia"

Adorei!

08 março, 2007

Loucura


Dia da Mulher não dá pra passar sem pensar. Mas dessa vez, quis fazer diferente. E pensei em quando me tornei uma mulher. Definitivamente, não foi quando perdi a virgindade. Desde aquele dia, ainda me mantive uma menina por anos... Também não foi quando conheci a dor, nem a felicidade (se é que já as conheço, de fato).

Às vezes acho que me tornei mulher no dia em que resolvi enfrentar a proibição de Fábio e tocar alfaia. Outras vezes, penso que foi no dia em que tomei coragem de sair da casa dele, coloquei todas as minhas coisas num táxi e nem chorei. Pela primeira vez me senti forte, madura, louca o suficiente para ser uma mulher de verdade, com coragem para dirigir minha vida dali em diante.

Hoje sei que sou mulher. E penso que isso exige um pouco de pimenta, outro tanto de insanidade e muita, muita fé. Entre tantos ingredientes, esses talvez sejam o que mais fazem de mim essa mulher, blogueira, apaixonada, incansável!

Ah, o texto abaixo é de Anais Nin, uma escritora francesa, famosa pela publicação de seus diários. Pela semelhança de idéias, garantiu seu lugar no post de hoje.


O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim
que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa.
Mas não quero viver comigo mesma.

Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos,
Beber um Benedictine ardente.

Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.
Eu estava esperando.

Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,

Com estímulos sensuais em muitas direcções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
E entrei em erupção sem avisar.

05 março, 2007

Sob medida


Se você crê em Deus
Erga as mãos para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer, acertou
Na cabeça

Eu sou sua alma gêmea,
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã,
Eu sou seu incesto
Sou igual a você,
Eu nasci pra você,
Eu não presto,
Eu não presto!

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar,
Sou aquela
Eu sou filha da rua,
Eu sou cria da sua costela

Sou bandida,
Sou solta na vida
E sob medida pros carinhos seus
Meu amigo, se ajeite comigo
E dê graças a Deus

Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus uma prece
E agradeça ao Senhor
Você tem o amor que merece
De Chico Buarque - Para nós

27 fevereiro, 2007

Talvez, uma TPM...


Foto: meu amigo Léo


Há dias em que nem estou. Trabalho, bebo um suco, atravesso a rua. E mesmo assim, não estou. Fico só pensando em onde estaria se...

Se tivesse estudado mais ou arriscado mais. Se tivesse chegado um pouco mais cedo ou esperado mais um instante. Se não tivesse amado tanto, nem temido tanto, nem escrito algumas palavras. Se fosse um pouco menos honesta, um pouco mais ambiciosa, ou mais sisuda. Se tivesse feito diferente, onde diabos eu estaria?

É em dias assim, quando não estou, que dedico o tempo a inventar futuros. Todos impossíveis, fantásticos, mas que cabem perfeitamente na minha história. Nesses dias me transformo numa menina criativa em seu mundo encantado. Sou pura imaginação e nostalgia de falsos momentos.

Às vezes moro em um apartamento grande e antigo, com uma penteadeira cor-de-rosa no canto da sala, almofadas floridas pelo chão, fotos dos amigos pelas paredes e um gato gordo e amarelo dormindo encostado à porta da cozinha.

Em outros dias, estou toda encasacada, usando um gorro vermelho e um lindo cachecol de fios dourados. Viajo de trem pela Europa acompanhada de um grande amor. Estamos de férias.

Também posso dar aulas numa universidade. Sou poliglota e doutora em comunicação. Há anos não vou ao Brasil. Quem sabe ano que vem não levo as crianças para visitarem a avó?

Eu poderia ter sido tantas mulheres. Na verdade, seria uma só, mas as opções são diversas. Claro, SE eu tivesse feito alguma coisa diferente no caminho... Sei de cada atitude que me levaria a esses destinos, de cada lugar onde poderia estar. Mas na hora não sabia! Queria ser livre e não me comprometer. E sou! Mais livre impossível! E agora?

Agora queria estar no aeroporto. Talvez embarcando para Salamanca, ou Madri, ou Berlim. Queria ir longe! Mas ainda estou aqui. Uma jornalista, solteira, meio sem teto, com alguma grana sobrando, mas morrendo de medo de me comprometer com meu futuro. Morrendo de medo de perder o que nunca conquistei. Vivendo de ilusão...

É, definitivamente, hoje, eu ainda não cheguei!

23 fevereiro, 2007

No lugar


Eu estou aqui
Fazendo sei lá o quê
Vivendo a paz de nós dois
Confiando mais em mim
E um pouco mais em você

Estou aqui sem esperar
Caminhando junto
Curtindo os passos que nunca demos
E que agora chegam leve
Como quem segue o rumo certo (será?).

Só sei que estou aqui
Sem saber se deveria ficar
Sem saber (ainda) se é o meu lugar
Sem ter a menor idéia da cara que deve ter esse lugar.
Na verdade, quem disse que eu preciso ter um lugar?

Eu, simplesmente, estou!
Onde quis estar todos esses dias
Onde quero estar hoje
E amanhã...
Amanhã, quem sabe?...

Quero estar enquanto houver verdade
Enquanto ouvir sorrisos
Enquanto os olhos brilharem
O beijo for doce
E o abraço, o melhor lugar do mundo.

Quero ficar por perto
Por mais um reveillon
Por mais um carnaval
Por mais um ano, ou sempre...
Bem aqui, onde estou!

06 fevereiro, 2007

Mas é Carnaval... que alegria!


Foi no dia 9 de fevereiro de 1907 que, pela primeira vez, o ritmo contagiante que marcava o Carnaval do Recife ganhou nome: FREVO, porque fazia ferver a multidão nas ruas.

E apesar de a palavra comemorar 100 anos, está longe de ser considerada antiga. Ao contrário, ela renova-se a cada Carnaval, enquanto arrasta os foliões pelas ruas, trocando passos ao som do ritmo que esquenta os pés e o corpo.

É só chegar fevereiro e as cores tomam conta do Recife para esperar por mais uma festa inesquecível. E não há como não ser! Costumo dizer que Carnaval, até quando é ruim, é bom! Espero por ele o ano inteiro, é a chance de ser quem eu quiser, de realizar todos os sonhos, de desconhecer os limites, de amar o mundo, de poder não dar satisfação e ainda estar tudo bem. Porque é Carnaval!

Eu vivo o frevo. A orquestra de metal, a de pau e corda. Sigo e me esqueço. Sigo levada pela multidão e carregando minha alegria. Como fada, arqueira, colombina, espanhola, vilã ou heroína. Vivo a sede de mais um frevo, de mais um passo, de mais um gole, de mais um beijo.

Vivo o encanto dos olhares infantis, de fantasias que viram verdade por um dia. Vivo o aperto das ruas de Olinda, o sol na cabeça, a roupa ensopada, a decoração do Recife Antigo, a curiosidade por trás de uma máscara.

Vivo a rapidez de uma festa que tem quatro dias (ou cinco) pra ser o que quiser, mas não se contenta em terminar na Quarta-feira de Cinzas. Ela nos acompanha o resto do ano, em cada lembrança, cada novo amigo, cada reencontro, nas magias que só acontecem no Carnaval.

Não sei frevar, mas pulo, sacudo os pés sem parar, do jeito que a música mandar. Sábado uma menina me abordou no meio da prévia dos Amantes e disse: “Menina, tu freva muito!”. Eu estava bêbada, mas não pude esquecer o comentário. Apenas sorri, dei um cheiro nela - que levou um gole da minha vodka - e saí “frevando”. Coisa boa!

Então vi que frevar é mais que ser um passista de sombrinha. E é por isso que ele virou a marca do Recife. Porque não tem regra, mas tem alma. Igualzinho a todo mundo nessa cidade: incansável, criativo, sonhador.

Nos outros dias sou Mack, jornalista, romântica, chocólatra, faladeira. Mas em fevereiro não tenho nome. Sou Lily, Joana, Conxita, sou a Glória e sua Amante. Tenho a alma de mulheres sem pudores, que respiram música e euforia, e deixam sua marca por onde passam.

Por isso, nem adianta chamar! Mas, se quiser, pode me seguir. E nesse caminho criar histórias, deixar lembranças, tornar realidade a fantasia de mais um Carnaval. Porque pra descobrir o segredo de completar 100 anos com tanta vida, é preciso viver!


Nos vemos pelo mundo!

25 janeiro, 2007

Todo dia


Quem já viu?

Me apaixono todo dia. Por quem tem voz grossa, fala bonito, usa um bom perfume ou um terno bem cortado. Nunca por cabeludos. Advogados, engenheiros; sisudos ou dados demais; com barba, sem barba; com olhos ternos ou sinalizadores de perigo. Me apaixono por gente, porque gente interessante nunca vai faltar! Que bom!

Me apaixono por velhos. Por cada uma das rugas, as quais fico tentando decifrar se são fruto de sol ou de noites mal dormidas. Me encanto com a forma de caminhar, a segurança mantida por uma bengala, os passos calculados, o ritmo paciente. Paro tudo só pra contemplar os gestos lentos, o jeito de falar, a desinibição, a sabedoria. Me apaixono pelos sábios, sonhando em um dia chegar lá, virar gente grande, amadurecer.

Me apaixono por palavras, algumas de gente que, às vezes, nem conheço. Versos sobre amores semelhantes aos meus; histórias conhecidas, contadas de forma diferente; rimas ricas ou prosas sem métrica. Folheando livros ou páginas na internet. Em todo canto a palavra me comove, e esse afeto logo vira mais uma paixão.

São paixões passageiras. Na maioria das vezes, acabam caindo no esquecimento. Tornam-se infinitamente especiais naquele instante, quando o tempo parece parar em nome da contemplação, quando o instante é o mais belo de toda uma vida. No instante seguinte, surge outra paixão, outra palavra, outro caminhar, outro cheiro. E tudo já se foi...

Mas nem sempre é assim. Há paixões renovadas diariamente. Carrego comigo uma assim. Ela nasce em cada encontro, cada olhar, tocar de lábios, roçar de pele, em cada amanhecer. E não morre com a distância, nem quando outras surgem. Ao contrário, me acompanha enquanto me apaixono, fugaz, tantas e tantas outras vezes.

Me apaixono todo dia. Uma paixão renascida, fortalecida, imortal; que não perturba, não tira o sono nem a moral; que deixa no corpo o calor suficiente para esquentar o sangue, e a serenidade necessária para suportar a saudade. Uma paixão companheira, que deseja ser renovada todo dia.

24 janeiro, 2007

Batuque


Adoro palco! Desde cedo soube ter nascido para o mundo. Jamais seria dessas pessoas que se infurnam em um laboratório para fazer estudos, ou do tipo que vive avaliando a teoria dos outros para formular ainda mais teorias. Não! Meu negócio é a prática.

Sou especialista em gente. Em deixar gente feliz, admirada, confusa, mexida. Gosto do poder de transformar pessoas. Transformar pessoas tristes em alegres; descrentes, em esperançosas; amargas, em verdadeiros docinhos. E mesmo não sendo uma pessoa com muitos talentos, sempre encontrei um jeito de fazer a diferença.

Sim, tenho cá o meu charme, mas não sei cantar, sou meio desengonçada para dançar, e tocar algum instrumento, então! Houve um tempo em que pensei ser impossível! Sempre gostei mesmo de escrever, e tinha uma especial cara de pau para fazer qualquer coisa que pedissem sem sentir um pingo de vergonha.

E foi assim que resolvi mexer com as pessoas por meio das palavras e do teatro. Deu certo. Todo mundo se emocionava e se divertia. Mexer com gente é como brincar de ser Deus, ou melhor, é saber que só se faz isso com a autorização Dele. Por isso, me orgulho tanto.

Ultimamente resolvi arriscar um pouco mais. Atravessei uma alfaia em meus ombros e saí por aí, encantando de crianças a velhos. É fantástico perceber o sorriso nascer de faces curiosas. O som não é harmônico, nem suave, nem comum. Mas alguma coisa no sangue de todo brasileiro faz a nossa memória genética dar sinal quando ouve o bendito batuque.

Nossos antepassados estão ali, nossa história, e melhor, nosso presente. A felicidade de sacodir mesmo sem saber dançar, de entrar na brincadeira, de não pagar ingresso, de seguir e parar quando bem entender. Enquanto vejo esse monte de gente acompanhar um batuque, esqueço das dores no corpo e dos calos nas mãos. Esqueço de tudo!

Esse fim de semana, passando em frente a uma pousada, o grupo recebeu a companhia de um turista europeu, vestido de roupão de veludo vinho, fumando um charuto e calçando uma sandália de couro. Sem falar dos bebês, dos idosos, dos curiosos... cada um com seu encanto, com sua paixão...

E eu aqui, feliz, por ver isso tudo e pelo grandiosos poder de transformar as pessoas.


Sem isso, nada faria sentido.

18 janeiro, 2007

Entre amigas


Estrada
Engenho
Cachoeiras
Gente simples

Cidade do interior

Pitanga no pé
Canções antigas
Pensamento distante

Sossego
Vinho seco
E uma promessa:
Abstrair o que não tem jeito!

Bonito pode não ter mudado nada em nós, mas nos deu dias lindos!
Uma forma perfeita de começar o ano.

17 janeiro, 2007

Renascer


Foto: Riva Spinelli


O ano não foi fácil.

Sim. Essa parte todo mundo já sabe. Ouvi até falar – não sei se por mero consolo – que não foi fácil para um monte de gente. “O pior ano da minha vida”, alguns disseram. Eu concordo. Claro que aos 28 não tenho lá uma grande referência de vida, mas que esse foi o pior... isso foi!

Enfim. O importante é que acabou!

Pra mim, 2006 pareceu despedir-se desde dezembro. Assim que senti o calor daquela energia boa vinda do nascimento de Cristo, minhas dores do ano foram passando. O pé ainda estava quebrado, a tensão de ficar ou não no emprego ainda me fazia pensar em ir embora do Recife, a mágoa ainda tirava o sono, as recordações causavam pontadas no final da espinha. E mesmo assim, alguma parte de mim insistia em ser melhor, em fazer melhor! Melhor que qualquer feito do ano, que qualquer sentimento.

Foi aí que pensei sobre o perdão.

“Uma ação sublime, que nos coloca aos pés de Deus”, me disse hoje uma amiga. Esse perdão estava longe de fazer bem ao “ser” perdoado, mas tinha o poder de me salvar! Salvar minha alma, meu corpo e, principalmente, o resto dos meus dias. Por meses e meses nem consegui respirar de tanta mágoa. Mas no dia que resolvi encará-la sem medo, descobri que ela era mesmo filha do amor. Um amor tão sincero e intenso, que não me deixava motivos para ser triste. Então perdoei. Perdoei a mim, por ter me permitido morrer um pouco. Perdoei a “ele”, que tem tanta sede de viver.

Só não sei se as pessoas vão me perdoar...

Por isso foi tão difícil dizer onde e com quem queria estar na virada do ano. Uma decisão tão simples e tão complexa! Racionalmente, deveria ficar ao lado de minhas amigas e de minha mãe, incansáveis nos momentos em que eu mesma já não tinha mais força. Mas eu sou feita de emoção e o amor fala mais alto. Sabia bem qual o único lugar onde estaria feliz no Reveillon.

E é para lá que fui!

Foi para ele que dei meu último olhar de 2006 e o primeiro de 2007. Os últimos beijos, gozo e desejo de “amor e verdade”, e os primeiros de um novo ano. Ao seu lado comtemplei as últimas estrelas de um ano escuro, e o primeiro nascer do sol de uma fase de esperanças. Comecei o ano assim, feliz! Mas, sobretudo, leve.


Me leve ano. Me leve...

05 janeiro, 2007

Achada. Perdida.

Foto: Riva Spinelli


É em paz que me sinto aqui.
Enquanto meu braço enlaça tua cintura,
meu peito encosta em tuas costas
e meu nariz respira teu pescoço.

Aqui esqueço de tudo e vivo nós dois.
Nossos olhares e beijos em sorriso.
Vivo o que é de verdade.

É essa paz que justifica minha persistência,
que fortalece minha esperança,
que aumenta a tolerância.

É essa paz que me mantém ao teu lado,
que me dá a sensação de estar no caminho certo.
Ah! Paz insana!
Tão insana quanto eu!

20 dezembro, 2006

Para sempre


À Giu e Lu.
Porque eu acredito na eternidade no amor, e vocês assim serão.

"Tudo quanto na vida eu tiver
Tudo quanto de bom eu fizer
Será de nós dois

Uma casa num alto qualquer
Com um jardim e um pomar se couber
Será de nós dois

E depois, quando a gente quiser
Passear, ir pra onde entender
Não importa onde a gente estiver
Estaremos a sós

E depois, quando a gente voltar
O menino que a gente encontrar
Será de nós dois

E de noite quando ele dormir
O silêncio do tempo a fugir
Será de nós dois

E por fim, quando o tempo fugir
E a saudade nos der de nós dois
E a vontade vier de dormir
Sem ter mais depois

Dormiremos sem medo nenhum
Pois aonde puder dormir um
Podem dormir dois"

Canção de nós dois - Vinícius de Moraes

13 dezembro, 2006

Canção da partida


Não. Não quero mais saber de ti
Nem de seus passos
Nem de seus risos
Nem quero ouvir de tuas saudades

Não. Não quero mais me ver em ti
Sobre o teu peito
Sob teu corpo
Entrelaçada em teus lençóis

Não. Não quero mais lembrar de nós
De nossa casa
De nossos olhos
Do tempo em que eles eram só...

Só do outro,
Só felizes
Só verdade
E eternidade.

Não. Já fui embora, já esqueci
Não sonho mais
Não quero mais
A tua voz a me embalar

É. Estou seguindo por aí
Uma outra estrada
Que talvez
Me leve a um lugar de paz.

06 dezembro, 2006

Conselhos de fim de ano...

Foto: meu amigo Léo


Em meio à ventania
Manter-se firme
Deixar os cabelos balançarem
O corpo ser levado
Mas não cair!

Em meio à tempestade
Buscar refúgio
Algum ponto seco
Algum ponto a salvo

E quando não der mais
Render-se à chuva
Sentir a água no rosto
Abrir os olhos para assistir ao espetáculo
Sem temer o frio, nem a gripe.

Em meio à duvida
Ficar vazio
Esperar o tempo abrir
O destino agir
As soluções chegarem em forma de sonho
Entre conversas fiadas
Numa mesa de bar
No enredo de um filme bobo

Ficar vazio e esperar...
Em breve, tudo vai mudar.


Talvez eu tenha férias forçadas a partir de janeiro.
Alguém tá afim de uma prainha?

04 dezembro, 2006

Ainda sobre o amor...

A música do dia e mais uma definição sobre essa história de amar...

O velho e a flor

Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor
Assim falou:

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê
Em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia.
É uma alegria e, de repente,
Uma vontade de chorar...

Vinícius de Moraes



O que é, o que é?


O textinho abaixo não é meu. É de um grande amigo, Mauh Spinelli (esse ao meu lado na foto), mas que merece seu espaço hoje. Bem hoje!

"aí descobri, que amor não é nada disso...
que amor é outra coisa...
que amor não queima, nem congela, nem machuca...
amor não trai, nem usa, nem ignora...
amor te da certeza, te dá caminho, te dá a mão...
amor te faz dormir tranqüilo, te faz acordar feliz...
amor não tira o ar, nem os espaços, nem os momentos..
não te tira o amor próprio, nem os amigos...

o amor chega pra completar,
e, se um dia ele acaba, em nenhum momento te deixará incompleto...

esse "amor" que dói é ilusão, é doença, é tanta coisa...
só não é amor!!
e só depois que descobri isso, é que me senti livre para seguir..."

01 dezembro, 2006

Segredos...


Algumas músicas ainda não ouço.
Alguns lugares, não freqüento.
Algumas histórias, prefiro nem contar.
No mais, tudo bem.

Já acordo sem idéia fixa.
Já durmo (de madrugada, é claro!).
As lembranças passam por mim, mas não ficam.
E vêem sozinhas, sem a saudade.
Essa parece ter encontrado um refúgio no passado.
Em breve, será como tantas outras:
Mera recordação.

Já as músicas e os lugares, sempre terão uma referência,
Porque algumas coisas nunca mudam
Insubstituíveis, dizem...
Mas a saudade sempre muda de cheiro, de endereço, de cor.
A saudade é volúvel...
Sorte a nossa!

29 novembro, 2006

Do meu jeito


Às vezes escrevo com sorrisos nos lábios
Outras, com lágrimas nos olhos.
Franzindo a testa
Levantando as sobrancelhas
Sorrindo sozinha
Com vontade de chorar
Tudo no mesmo dia
Numa harmonia de gestos e sentimentos que só eu sei
Mas não explico, só conto!

O jeito de escrever denuncia a tristeza, a solidão,
A esperança de fazer diferente, a alegria de me surpreender.
Tem minuto que a vida é boa
E no seguinte, já não tem mais tanta graça assim.
E é nesse passinho manso que andam meus escritos,
Com o mesmo ritmo do coração:
Instável, confuso, adolescente!

Nostálgica


Às vezes a saudade aperta...
Geralmente, quando a solidão vira a marca registrada do dia.
Meses e meses assim, sem ter com quem dividir histórias, compartilhar planos.
Tarefa difícil para quem nunca esteve sozinha por mais de uma semana.
Agora o silêncio é rotineiro.
A noite é companheira.
E as músicas promovem quase um diálogo.
Todos passam tanto tempo ao meu lado quanto os cadernos e as canetas.
Os olhos pequenos arregalam e apertam conferindo se alguém chegou.
Ninguém!
Não! Não é tão mau assim!
Me suportar sozinha também é me saber um pouco mais auto-suficiente, reflexiva, crítica e, principalmente, exigente com quem pode invadir o meu espaço.
A parte ruim é não ter para quem me dar...
Então vou guardando sorrisos, contos, carinhos, desejos e poemas.
Como quem guarda um presente raro à espera do dono.
Sinto saudade deste “dono”, cuja face, desconheço.
Dos afagos que não recebi, dos beijos que não lhe dei.
Sinto saudade dele e de tudo de bom que sou, quando não sou sozinha.

20 novembro, 2006

Sem escolha


Entre todas as cores do mundo, escolhi você.
Entre todas as combinações de verdes, amarelos, vermelhos e azuis.

Você foi o eleito!
A cor dos seus olhos, dos pêlos, da pele.
Exatamente você.
Entre todos que já cruzaram o meu caminho.


Desde o primeiro encontro até ontem.
Desde o primeiro olhar à mais recente despedida.
Desde o primeiro beijo à saudade que sinto dele.
Apenas você foi o escolhido.

E me escolheu, pra fazer de mim uma morada,
Um corpo que te carrega por onde vou, por todo o dia,
Do primeiro ao último pensamento.

Você está.

Um carinho infinito.
Uma espera paciente.
O olhar mais terno.
Meu melhor sorriso.
Tudo seu.
Tanto, tanto, que nem sei mais onde esconder.
E fica tudo estampado no rosto,
Marcado nos gestos,
Levando meus passos sempre na direção dos seus.


Entre tantos sentimentos, o maior me escolheu.
A soma da admiração com o afeto,
Da cumplicidade com o companheirismo,
Da amizade com a paixão,
Da paz com o desejo.


O amor!
Esse sentir que nunca foi feliz, por que nunca foi inteiro.
Um sentir que por ser meu - e não nosso - mais parece uma criança que pede colo.
Mas que também sabe ser batalhador, persistente, descarado, sem vergonha de se mostrar.
Um sentir raro e belo,

Mas cansado de ser tão sozinho...

16 novembro, 2006

Enquanto


Pensamentos atormentados provocam insônia.
Meus olhos ardem, mas não fecham.
Esperam, atentos, o momento da chuva na alma estiar.
Mas o tempo ainda está nublado.
Aqui dentro, um diário, a TV sem som e eu,
Esperando a noite virar dia, pra tentar recomeçar.

10 novembro, 2006

Senta que lá vem história


Quinta-feira, primeiro dia do feriadão. 2 de novembro, 11horas.

Manhã muito quente (como vêm sendo todas esse mês). O sol começava a ferver o quarto e acordei. Tentei levantar, mas a cabeça ainda girava de tanta caipirosca ingerida na Toca da Joana, no dia anterior. Show de Bu Moraes e mais um (des)encontro nada romântico com o cachimblema. Sim, mas voltando à manhã de quinta, tentei de novo tirar a cabeça do travesseiro, lentamente. Talita acordou e ficou pentelhando pra gente ir logo porque as duas mães já estavam na praia nos esperando há horas!

Boa Viagem lotada. Dificuldade pra estacionar. Cadeiras todas ocupadas. Era quase uma da tarde quando conseguimos sentar na frente do Recife Palace pra jogar dominó. Nem pensei em tomar cerveja! "Traz uma água, moço!"

Era lua cheia e o mar sabia muito bem disso. "Tava virado", como diria minha avó. A maré estava enchendo e já havia carregado nossas sandálias umas cinco vezes. "Seguuuura!!!" Lá da minha cadeirinha, ficava olhando o povo se acabar debaixo d'água. Altos caldos. Todo mundo saia feito cachorro que acabou de levar um banho, sacudindo a cabeça, desorientado. "Melhor não entrar..."

Na areia, depois de ganhar três partidas de dominó, finalmente deitei pra descansar. Mas a prima de Talita começou a ter uma reação alérgica à água oxigenada que tinha acabado de pôr no corpo, e pediu para eu ir com ela até um chuveiro. "Preciso tirar logo isso!". Andamos um tempo e nada de chuveiro. "Melhor entrar na água. Eu te seguro. A gente agüenta", eu sugeri.

Gente!!!! A água não chegou nem no joelho e já começou a nos derrubar. Foi tanta da queda. Caí de queixo, de barriga, de bunda. Levantava e caía de novo, na mesma hora. Um desespero. "Vamos tentar sair!!!! Me segura!!!!" E quem disse que o mar deixava? Puxava a gente de volta pelas pernas. Foi aí que fui sugada. Parecia uma roupa de seda dentro da máquina de lavar em modo completo! Eu nem pisei no chão, mas senti muito bem quando o meu dedo do pé tocou na batata da perna. Dor do ca-ra-lho!!!!!


Assim que a onda baixou, falei pra prima de Talita. "Quebrei meu pé. Tenta me puxar daqui...". Que nada, ainda levei umas três arrancadas de Iemanjá. Até que consegui chamar um homem, que me carregou para a areia.

Depois disso, uma passada em casa para tirar os dois quilos de areia que estavam no biquíni e no cabelo, e logo segui rumo ao Esperança.

Diagnóstico: Tornozelo quebrado.

Tempo de castigo com gesso: dois meses.

Ontem voltei lá para uma reavaliação, morrendo de medo de entrar na faca. Mas o doutor reduziu o prazo do gesso para 45 dias e nem precisou colocar pino no meu pezinho. Espero estar nova antes do dia 8, para poder subir o Morro e agradecer a Nossa Senhora da Conceição pelo presente de um tornozelo quebrado.

Esse bendito pé tá doendo que só. Tem hora que vejo estrelas. Tô andando de muletas o dia inteiro. Uma dificuldade pra tudo, principalmente porque agora moro em um duplex, né? Mas eu sei que esse era o único jeito de reduzir o meu ritmo. Eu tava demais! Paquera demais, cada um mais alma sebosa que o outro (e eu deixando eles por perto). Cachaça demais! Chegando em casa às 5h da manhã, dia sim outro também! E ainda por cima, pensando que sofrer por ser traída era a pior coisa que poderia me acontecer.

Agora percebo que não é não! E só nessas situações extremas é que a gente enxerga com clareza as besteiras que andamos valorizando.

Então é isso. Pé quebrado. Muitos filmes locados todas as noites. Segunda temporada de Lost como grande companheira. Visita dos verdadeiros amigos (sim, porque os de farra vão esperar eu ficar boa para poder tomar uma). Trabalhando menos na Câmara. Saindo nada! Praticamente um retiro espiritual! E todo o resto no mesmo lugar de sempre...

Sem tirar, nem pôr.

08 novembro, 2006

Coisas do destino...


Essa semana fui forçada a pensar na força do acaso e em todos os elementos capazes de mudar nossa vida em fração de segundos.

Somos resultado de uma sucessão de “ses”, de cada escolha - por mais banal que ela seja - e também da combinação de cada passo dado com passos dos outros sete bilhões de habitantes da terra. A avaliação está matemática demais para uma jornalista, mas não dá pra ser diferente.

Hoje preciso divagar sobre a razão de estar aqui, de castigo em cima de uma cama por dois meses. Serão pelo menos 60 dias sem tocar tambor, pegar ônibus, correr da chuva, sambar na sexta-feira, usar o banheiro do primeiro andar da Toca, descer as escadas para atender ao telefone, lavar a sola do pé direito, tomar banho de mar, ir ao vucu, à auto-escola...

Ah! É coisa demais para abrir mão sem racionalizar um motivo para tudo isso acontecer justamente comigo, exatamente agora, precisamente no meu tornozelo!

Mas como calcular o acaso? Como controlar o destino? Como identificar uma coincidência? Certos acontecimentos estão além do controle humano, por mais atentos que estejamos aos sinais do Universo.

Feitiçaria, olho grande, destino, predestinação, falta de sorte, carma, acaso, coincidência, castigo, osso fraco, teimosia, lerdeza. Sei lá qual foi a razão! Só sei que não interpretei os sinais, e aqui estou!

Deve haver um motivo para eu estar naquele exato lugar quando a onda deu nó de marinheiro com meus dedos e minha canela. “Mas eu nunca vi ninguém quebrar o pé no mar!” É, talvez a probabilidade seja de uma em um milhão. A mesma de um raio cair dentro de um estádio de futebol lotado e atingir a cabeça do vendedor de flau (coitado). É de uma em um milhão, mas como vive repetindo Talita, “quando acontece com a gente é de 100%”.

Eu poderia ter acertado os números da Mega Sena, escolhido a cartela premiada do Pernambuco dá Sorte ou cruzado com Gianechini essa semana, enquanto ele curte a maior dor de cotovelo. Eu poderia ter feito um milhão de coisas no primeiro dia do meu feriadão. Inclusive viajado de moto mundo a fora, se meu novo ex-paquerinha não fosse tão relapso e desatento aos sinais.

Mas nããããão... Eu estava bem ali, no meio daquela onda! Pois é, acontecimentos estranhos são mais comuns do que imaginamos, e são eles que nos fazem refletir os detalhes irrelevantes da nossa vida.

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A verdade é que estou tratando isso como um desejo do Universo de reduzir o meu ritmo. Menos encontros com um cachimblema que vem tirando meu juízo, menos álcool consumido, menos possibilidades de pecar contra a carne... hehehehe E também uma chance de estudar coisas que deixei para traz desde que surtei, há três meses. Um tempo para mim, meus livros, minhas músicas, meus textos, minhas pinturas e, principalmente, para peneirar as pessoas que me amam. Vai ser importante ver quem vai ficar ao lado dessa aleijadinha no ano que vem, quando eu voltar a andar e sambar.

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Quer saber se eu estou p... da vida?

Claro que não! Tão mesmo é adorando ver minha coxa definida de tanto pular feito saci!