13 abril, 2007

Sobre tatuagens


Eu aconselho a todos.
É tão bom fazer!
Sentir a dor.
Entender que aquele é um momento nosso, quando escolhemos uma cicatriz.

Mas antes de tudo é preciso saber o que se está marcando. Porque isso vai representar um pedaço da nossa vida, como uma queda inesquecível, ou a marca de um ato heróico...

O primeiro passo é escolher um símbolo. Algo que a gente saiba que será nosso pra sempre.

Quando eu estiver velhinha - se é que comendo tanta porcaria eu vou conseguir ficar velhinha - vou ter orgulho de ter desenhado a flor que mora em meu pescoço, e de ter marcado meu pé com um pedaço de fé, e de tantas outras marquinhas que estão maturando na minha cabeça, só esperando o dia certo pra nascer.

Depois de ter certeza que achou o traço perfeito, é hora de encarar o desafio e, claro, a dor! Sim! Dói. Doeu MUITO no pé. MUITO. Mil vezes mais que a das costas (mas essa não conta, porque foi feita em circunstâncias atípicas de dor na alma)

No primeiro dia em que olhei para a feita de fé, e a vi toda avermelhada, como uma sombra no meu pé, fiquei me perguntando se havia feito a coisa certa. Não contei pra ninguém. Guardei a dúvida só pra mim. Esperei o dia acabar, o outro chegar, e olhei de novo. Ela é linda. Combina com meus sapatos. Combina comigo. Não errei!

É, de fato, um pouco estranho ficar com tanto acesso a um desenho no corpo. Então, recomendo que a primeira tatuagem seja feita em um lugar meio escondido dos olhos, e consecutivamente, da auto-crítica. Assim fica mais fácil de lidar com ela e não nos culpar tanto nos dias em que a gente quase se arrepende de ter se marcado tão profundamente.

Quase nunca vejo minha flor. Às vezes esqueço que ela está aqui, tão perto do meu juízo. Melhor assim... O felino vem por aí. O lugar ainda é segredo - até pra mim! Ele também ainda é um grande mistério. Tá só tomando forma, ganhando vida na minha vida. Quando estiver prontinho, vem ao mundo. Na hora certa. E essa hora, a gente sempre sabe qual é.

Para Maíra. Assim, quem sabe, ela não toma coragem!

De pé novo


Não sou o tipo de pessoa que consegue as coisas com facilidade. Isso não é uma reclamação, nem muito menos motivo de orgulho, é só uma constatação. Para mim, nada vem de graça!

Não tenho sorte no jogo (exceto nas poucas vezes em que bati no bingo dos Amantes de Glória). Não tenho grana sobrando. Não tenho estabilidade emocional ou familiar. Mas, no final das contas, acabo conseguindo tudo que quero. Claro, sempre à custa de muito esforço, trabalho e persistência.

Talvez tudo isso tenha me tornado essa pessoa insana. Tão crente, mas tão crente na força do Universo, ao ponto de acreditar que minha fé é capaz de transformar não só o meu destino, mas o de todo mundo ao meu redor.

Na minha concepção, tudo que acontece tem uma razão maior. Nada é por acaso. Não há coincidências, há planos! Um plano elaborado cuidadosamente antes mesmo de nascermos, e que vai determinar o que será necessário para nossa evolução aqui na Terra. Vai ver foi na hora de fechar esse "plano de vôo" que eu mesma pedi pra lutar MUITO antes de conquistar algo.

Que seja feita a vossa vontade!

Lembro quando quebrei o pé, há cinco meses. Ninguém entende como um pé vira sozinho dentro do mar, principalmente quando a maré está abaixo do joelho! Ninguém entende... Mas eu sei que eu tinha que ficar imóvel bem naquele dia! Se não tivesse quebrado o pé, algumas pessoas erradas teriam se aproximado e, certamente, eu não teria enxergado o valor de outras. Se pudesse caminhar, teria ido a lugares errados, teria errado mais que o costume! O destino fez o seu papel (diminuindo meu ritmo) e, nessa pisadinha, ultrapassei mais uma etapa.

Semana passada, venci outro obstáculo. Lutei até o último segundo para entender o porquê de estar sendo demitida. Além de precisar do emprego - porque não tinha nada em vista - também precisava fazer justiça! Rezei. Acreditei. E depois de fazer as malas e fechar a porta, alguma coisa aconteceu e ELES mudaram de idéia.

"A menina fica!"
"Mas, como?"
"Fica. E pronto!"

E aqui estou. Na mesma sala. No mesmo computador. Com os mesmos amados amigos. Com um Diário Oficial novo a cada dois dias. No mesmo lugar. Com a mesma fé. Ou melhor, com a fé ainda maior! Tão grande que precisou ficar registrada pra sempre no corpo... Fiz no pé direito - aquele que quebrou - e tô adorando olhar pra ela todo dia, me fortalecendo ainda mais.


E a vida?

A vida continua boa, passando tranqüila, a passos mansos e incessantes.

03 abril, 2007

Na rua

É verdade...
Escrevi palavas com sabor adocicado pra contar uma história que anda amargando meus dias e consumindo meus sonhos na última semana.

Fui demitida da Câmara.

Cargo político sem concurso é assim mesmo. Sabia que mais cedo ou mais tarde seria a hora de partir para outra. Só não esperava que fosse desse jeito. Torto. Injusto. Obscuro. Mas foi! E se foi, é hora de levantar a cabeça, comer muito chocolate até domingo e recomeçar um nova vida na segunda-feira.

Chorei bem menos do que gostaria. Não falei palavrão. Não dei um grito. O resultado disso é que somatizei a porcaria desse sentimento de perda e acabei ficando muito doente. Meu corpo inteiro dói. Os olhos ardem. A boca fica seca e leva um contínuo gosto amargo. A garganta arranha. O nariz entope. Melhor dizer que é gripe. "já já passa".

Soube da notícia na terça-feira passada, mas durante todos esses dias alguns vereadores e minha diretora (Germana) vêm tentando reverter a decisão tomada por apenas um. Sim! São 36 vereadores, um deles me demitiu e dizem que não podem fazer nada quanto a isso. Ah! E pasmem! Esse um não é o presidente da Casa! Interessante, não é?

Depois de tantas tentativas, percebi que por mais persistente que eu seja, não posso lutar contra algumas coisas. Ou melhor, posso até lutar, mas vencer é outra história... Estou indo agora rumo à última cartada. Consegui falar com ele para que o próprio me justifique, cara a cara, as razões da demissão. É provável que nada mude, mas uma super-brasileira não desiste nunca! E eu preciso dessa conversa pra trancar bem trancada a porta de minha passagem pela Câmara.

De antemão, comunico que estou à disposição do mercado de trabalho, e com muita certeza que o próximo emprego vai chegar mais rápido do que imagino...

P.S.: Na foto, Germana, Cata e eu, na minha despedida, sexta-feira.

Despedida


Entre linhas e vírgulas mal encaixadas em um Diário Oficial
Entre offs repetidos mil vezes, discursos gigantes e as lembranças de “lutas libertárias da cidade historicamente mais importante da América Latina
Entre a correria em busca de pautas e de fazer a coisa certa
Entre biscoitos de chocolate e segredos compartilhados.

Nossas histórias se acharam
E viraram sorrisos
E enxugaram lágrimas
Trocaram olhares cúmplices
Apoiaram quando não dava pra levar sozinho
E se completaram em abraços
Que só amigos de verdade sabem dar.

Foram assim meus dias aqui
Doces como o olhar de Sugahara
Agitados como a presença de
Catarina
E tão intensos quanto a de
Germana
Dias irretocáveis como o caráter de
Vivi
Sinceros como as palavras de seu Carlos
Leves como a vida que Léo leva
Tão marcantes quanto a brabeza de Ana Paula
E mais reais que a sem-vergonhice de Tonho.

Tudo aqui foi novidade e verdade
Descobri um mundo desconhecido
Amadureci
Tudo me fez mil vezes melhor,
Mais profissional, mais forte
E mais feliz.

Por isso valeu tanto.
Por isso até ir embora não pode ser ruim...
Aqui deixo algumas fotos e acho que alguns frutos
Comigo, levo uma saudade sem tamanho
E a certeza de que nada acabou.

Nos vemos pelo mundo...

21 março, 2007

Um quê de sei lá o quê


Sem computador em casa. Sem nem uma casa. Mas em casa...

Sem tempo pra pensar besteiras. Com tempo pra comprar besteiras. Com planos de fazer cada vez mais besteiras!

Descobrindo uma nova jornalista em mim a cada novo dia, a cada tentativa frustrada de fazer uma passagem legal. Sou abusada até no vídeo! Sim! Abusada! E com os olhos pequenos demais, as bochechas grandes demais, o sotaque carregado demais! Ai!!! Mas sentindo que está bem perto de conseguir trabalhar direito nessa tal de televisão.

Trabalhando muito. Amando demais. Bebendo além do prudente. Conquistando sempre.

Hoje disseram que sou o tipo de pessoa que consegue tudo na base do charme. Bem, eu achei que era da persistência, mas se há discordância sobre a questão... Fazer o quê?

"Jovem. Simpática. Risonha. Boazinha. Original. A representação fiel do canto da sereia"

Adorei!

08 março, 2007

Loucura


Dia da Mulher não dá pra passar sem pensar. Mas dessa vez, quis fazer diferente. E pensei em quando me tornei uma mulher. Definitivamente, não foi quando perdi a virgindade. Desde aquele dia, ainda me mantive uma menina por anos... Também não foi quando conheci a dor, nem a felicidade (se é que já as conheço, de fato).

Às vezes acho que me tornei mulher no dia em que resolvi enfrentar a proibição de Fábio e tocar alfaia. Outras vezes, penso que foi no dia em que tomei coragem de sair da casa dele, coloquei todas as minhas coisas num táxi e nem chorei. Pela primeira vez me senti forte, madura, louca o suficiente para ser uma mulher de verdade, com coragem para dirigir minha vida dali em diante.

Hoje sei que sou mulher. E penso que isso exige um pouco de pimenta, outro tanto de insanidade e muita, muita fé. Entre tantos ingredientes, esses talvez sejam o que mais fazem de mim essa mulher, blogueira, apaixonada, incansável!

Ah, o texto abaixo é de Anais Nin, uma escritora francesa, famosa pela publicação de seus diários. Pela semelhança de idéias, garantiu seu lugar no post de hoje.


O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim
que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa.
Mas não quero viver comigo mesma.

Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos,
Beber um Benedictine ardente.

Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.
Eu estava esperando.

Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,

Com estímulos sensuais em muitas direcções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
E entrei em erupção sem avisar.

05 março, 2007

Sob medida


Se você crê em Deus
Erga as mãos para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer, acertou
Na cabeça

Eu sou sua alma gêmea,
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã,
Eu sou seu incesto
Sou igual a você,
Eu nasci pra você,
Eu não presto,
Eu não presto!

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar,
Sou aquela
Eu sou filha da rua,
Eu sou cria da sua costela

Sou bandida,
Sou solta na vida
E sob medida pros carinhos seus
Meu amigo, se ajeite comigo
E dê graças a Deus

Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus uma prece
E agradeça ao Senhor
Você tem o amor que merece
De Chico Buarque - Para nós

27 fevereiro, 2007

Talvez, uma TPM...


Foto: meu amigo Léo


Há dias em que nem estou. Trabalho, bebo um suco, atravesso a rua. E mesmo assim, não estou. Fico só pensando em onde estaria se...

Se tivesse estudado mais ou arriscado mais. Se tivesse chegado um pouco mais cedo ou esperado mais um instante. Se não tivesse amado tanto, nem temido tanto, nem escrito algumas palavras. Se fosse um pouco menos honesta, um pouco mais ambiciosa, ou mais sisuda. Se tivesse feito diferente, onde diabos eu estaria?

É em dias assim, quando não estou, que dedico o tempo a inventar futuros. Todos impossíveis, fantásticos, mas que cabem perfeitamente na minha história. Nesses dias me transformo numa menina criativa em seu mundo encantado. Sou pura imaginação e nostalgia de falsos momentos.

Às vezes moro em um apartamento grande e antigo, com uma penteadeira cor-de-rosa no canto da sala, almofadas floridas pelo chão, fotos dos amigos pelas paredes e um gato gordo e amarelo dormindo encostado à porta da cozinha.

Em outros dias, estou toda encasacada, usando um gorro vermelho e um lindo cachecol de fios dourados. Viajo de trem pela Europa acompanhada de um grande amor. Estamos de férias.

Também posso dar aulas numa universidade. Sou poliglota e doutora em comunicação. Há anos não vou ao Brasil. Quem sabe ano que vem não levo as crianças para visitarem a avó?

Eu poderia ter sido tantas mulheres. Na verdade, seria uma só, mas as opções são diversas. Claro, SE eu tivesse feito alguma coisa diferente no caminho... Sei de cada atitude que me levaria a esses destinos, de cada lugar onde poderia estar. Mas na hora não sabia! Queria ser livre e não me comprometer. E sou! Mais livre impossível! E agora?

Agora queria estar no aeroporto. Talvez embarcando para Salamanca, ou Madri, ou Berlim. Queria ir longe! Mas ainda estou aqui. Uma jornalista, solteira, meio sem teto, com alguma grana sobrando, mas morrendo de medo de me comprometer com meu futuro. Morrendo de medo de perder o que nunca conquistei. Vivendo de ilusão...

É, definitivamente, hoje, eu ainda não cheguei!

23 fevereiro, 2007

No lugar


Eu estou aqui
Fazendo sei lá o quê
Vivendo a paz de nós dois
Confiando mais em mim
E um pouco mais em você

Estou aqui sem esperar
Caminhando junto
Curtindo os passos que nunca demos
E que agora chegam leve
Como quem segue o rumo certo (será?).

Só sei que estou aqui
Sem saber se deveria ficar
Sem saber (ainda) se é o meu lugar
Sem ter a menor idéia da cara que deve ter esse lugar.
Na verdade, quem disse que eu preciso ter um lugar?

Eu, simplesmente, estou!
Onde quis estar todos esses dias
Onde quero estar hoje
E amanhã...
Amanhã, quem sabe?...

Quero estar enquanto houver verdade
Enquanto ouvir sorrisos
Enquanto os olhos brilharem
O beijo for doce
E o abraço, o melhor lugar do mundo.

Quero ficar por perto
Por mais um reveillon
Por mais um carnaval
Por mais um ano, ou sempre...
Bem aqui, onde estou!

06 fevereiro, 2007

Mas é Carnaval... que alegria!


Foi no dia 9 de fevereiro de 1907 que, pela primeira vez, o ritmo contagiante que marcava o Carnaval do Recife ganhou nome: FREVO, porque fazia ferver a multidão nas ruas.

E apesar de a palavra comemorar 100 anos, está longe de ser considerada antiga. Ao contrário, ela renova-se a cada Carnaval, enquanto arrasta os foliões pelas ruas, trocando passos ao som do ritmo que esquenta os pés e o corpo.

É só chegar fevereiro e as cores tomam conta do Recife para esperar por mais uma festa inesquecível. E não há como não ser! Costumo dizer que Carnaval, até quando é ruim, é bom! Espero por ele o ano inteiro, é a chance de ser quem eu quiser, de realizar todos os sonhos, de desconhecer os limites, de amar o mundo, de poder não dar satisfação e ainda estar tudo bem. Porque é Carnaval!

Eu vivo o frevo. A orquestra de metal, a de pau e corda. Sigo e me esqueço. Sigo levada pela multidão e carregando minha alegria. Como fada, arqueira, colombina, espanhola, vilã ou heroína. Vivo a sede de mais um frevo, de mais um passo, de mais um gole, de mais um beijo.

Vivo o encanto dos olhares infantis, de fantasias que viram verdade por um dia. Vivo o aperto das ruas de Olinda, o sol na cabeça, a roupa ensopada, a decoração do Recife Antigo, a curiosidade por trás de uma máscara.

Vivo a rapidez de uma festa que tem quatro dias (ou cinco) pra ser o que quiser, mas não se contenta em terminar na Quarta-feira de Cinzas. Ela nos acompanha o resto do ano, em cada lembrança, cada novo amigo, cada reencontro, nas magias que só acontecem no Carnaval.

Não sei frevar, mas pulo, sacudo os pés sem parar, do jeito que a música mandar. Sábado uma menina me abordou no meio da prévia dos Amantes e disse: “Menina, tu freva muito!”. Eu estava bêbada, mas não pude esquecer o comentário. Apenas sorri, dei um cheiro nela - que levou um gole da minha vodka - e saí “frevando”. Coisa boa!

Então vi que frevar é mais que ser um passista de sombrinha. E é por isso que ele virou a marca do Recife. Porque não tem regra, mas tem alma. Igualzinho a todo mundo nessa cidade: incansável, criativo, sonhador.

Nos outros dias sou Mack, jornalista, romântica, chocólatra, faladeira. Mas em fevereiro não tenho nome. Sou Lily, Joana, Conxita, sou a Glória e sua Amante. Tenho a alma de mulheres sem pudores, que respiram música e euforia, e deixam sua marca por onde passam.

Por isso, nem adianta chamar! Mas, se quiser, pode me seguir. E nesse caminho criar histórias, deixar lembranças, tornar realidade a fantasia de mais um Carnaval. Porque pra descobrir o segredo de completar 100 anos com tanta vida, é preciso viver!


Nos vemos pelo mundo!

25 janeiro, 2007

Todo dia


Quem já viu?

Me apaixono todo dia. Por quem tem voz grossa, fala bonito, usa um bom perfume ou um terno bem cortado. Nunca por cabeludos. Advogados, engenheiros; sisudos ou dados demais; com barba, sem barba; com olhos ternos ou sinalizadores de perigo. Me apaixono por gente, porque gente interessante nunca vai faltar! Que bom!

Me apaixono por velhos. Por cada uma das rugas, as quais fico tentando decifrar se são fruto de sol ou de noites mal dormidas. Me encanto com a forma de caminhar, a segurança mantida por uma bengala, os passos calculados, o ritmo paciente. Paro tudo só pra contemplar os gestos lentos, o jeito de falar, a desinibição, a sabedoria. Me apaixono pelos sábios, sonhando em um dia chegar lá, virar gente grande, amadurecer.

Me apaixono por palavras, algumas de gente que, às vezes, nem conheço. Versos sobre amores semelhantes aos meus; histórias conhecidas, contadas de forma diferente; rimas ricas ou prosas sem métrica. Folheando livros ou páginas na internet. Em todo canto a palavra me comove, e esse afeto logo vira mais uma paixão.

São paixões passageiras. Na maioria das vezes, acabam caindo no esquecimento. Tornam-se infinitamente especiais naquele instante, quando o tempo parece parar em nome da contemplação, quando o instante é o mais belo de toda uma vida. No instante seguinte, surge outra paixão, outra palavra, outro caminhar, outro cheiro. E tudo já se foi...

Mas nem sempre é assim. Há paixões renovadas diariamente. Carrego comigo uma assim. Ela nasce em cada encontro, cada olhar, tocar de lábios, roçar de pele, em cada amanhecer. E não morre com a distância, nem quando outras surgem. Ao contrário, me acompanha enquanto me apaixono, fugaz, tantas e tantas outras vezes.

Me apaixono todo dia. Uma paixão renascida, fortalecida, imortal; que não perturba, não tira o sono nem a moral; que deixa no corpo o calor suficiente para esquentar o sangue, e a serenidade necessária para suportar a saudade. Uma paixão companheira, que deseja ser renovada todo dia.

24 janeiro, 2007

Batuque


Adoro palco! Desde cedo soube ter nascido para o mundo. Jamais seria dessas pessoas que se infurnam em um laboratório para fazer estudos, ou do tipo que vive avaliando a teoria dos outros para formular ainda mais teorias. Não! Meu negócio é a prática.

Sou especialista em gente. Em deixar gente feliz, admirada, confusa, mexida. Gosto do poder de transformar pessoas. Transformar pessoas tristes em alegres; descrentes, em esperançosas; amargas, em verdadeiros docinhos. E mesmo não sendo uma pessoa com muitos talentos, sempre encontrei um jeito de fazer a diferença.

Sim, tenho cá o meu charme, mas não sei cantar, sou meio desengonçada para dançar, e tocar algum instrumento, então! Houve um tempo em que pensei ser impossível! Sempre gostei mesmo de escrever, e tinha uma especial cara de pau para fazer qualquer coisa que pedissem sem sentir um pingo de vergonha.

E foi assim que resolvi mexer com as pessoas por meio das palavras e do teatro. Deu certo. Todo mundo se emocionava e se divertia. Mexer com gente é como brincar de ser Deus, ou melhor, é saber que só se faz isso com a autorização Dele. Por isso, me orgulho tanto.

Ultimamente resolvi arriscar um pouco mais. Atravessei uma alfaia em meus ombros e saí por aí, encantando de crianças a velhos. É fantástico perceber o sorriso nascer de faces curiosas. O som não é harmônico, nem suave, nem comum. Mas alguma coisa no sangue de todo brasileiro faz a nossa memória genética dar sinal quando ouve o bendito batuque.

Nossos antepassados estão ali, nossa história, e melhor, nosso presente. A felicidade de sacodir mesmo sem saber dançar, de entrar na brincadeira, de não pagar ingresso, de seguir e parar quando bem entender. Enquanto vejo esse monte de gente acompanhar um batuque, esqueço das dores no corpo e dos calos nas mãos. Esqueço de tudo!

Esse fim de semana, passando em frente a uma pousada, o grupo recebeu a companhia de um turista europeu, vestido de roupão de veludo vinho, fumando um charuto e calçando uma sandália de couro. Sem falar dos bebês, dos idosos, dos curiosos... cada um com seu encanto, com sua paixão...

E eu aqui, feliz, por ver isso tudo e pelo grandiosos poder de transformar as pessoas.


Sem isso, nada faria sentido.

18 janeiro, 2007

Entre amigas


Estrada
Engenho
Cachoeiras
Gente simples

Cidade do interior

Pitanga no pé
Canções antigas
Pensamento distante

Sossego
Vinho seco
E uma promessa:
Abstrair o que não tem jeito!

Bonito pode não ter mudado nada em nós, mas nos deu dias lindos!
Uma forma perfeita de começar o ano.

17 janeiro, 2007

Renascer


Foto: Riva Spinelli


O ano não foi fácil.

Sim. Essa parte todo mundo já sabe. Ouvi até falar – não sei se por mero consolo – que não foi fácil para um monte de gente. “O pior ano da minha vida”, alguns disseram. Eu concordo. Claro que aos 28 não tenho lá uma grande referência de vida, mas que esse foi o pior... isso foi!

Enfim. O importante é que acabou!

Pra mim, 2006 pareceu despedir-se desde dezembro. Assim que senti o calor daquela energia boa vinda do nascimento de Cristo, minhas dores do ano foram passando. O pé ainda estava quebrado, a tensão de ficar ou não no emprego ainda me fazia pensar em ir embora do Recife, a mágoa ainda tirava o sono, as recordações causavam pontadas no final da espinha. E mesmo assim, alguma parte de mim insistia em ser melhor, em fazer melhor! Melhor que qualquer feito do ano, que qualquer sentimento.

Foi aí que pensei sobre o perdão.

“Uma ação sublime, que nos coloca aos pés de Deus”, me disse hoje uma amiga. Esse perdão estava longe de fazer bem ao “ser” perdoado, mas tinha o poder de me salvar! Salvar minha alma, meu corpo e, principalmente, o resto dos meus dias. Por meses e meses nem consegui respirar de tanta mágoa. Mas no dia que resolvi encará-la sem medo, descobri que ela era mesmo filha do amor. Um amor tão sincero e intenso, que não me deixava motivos para ser triste. Então perdoei. Perdoei a mim, por ter me permitido morrer um pouco. Perdoei a “ele”, que tem tanta sede de viver.

Só não sei se as pessoas vão me perdoar...

Por isso foi tão difícil dizer onde e com quem queria estar na virada do ano. Uma decisão tão simples e tão complexa! Racionalmente, deveria ficar ao lado de minhas amigas e de minha mãe, incansáveis nos momentos em que eu mesma já não tinha mais força. Mas eu sou feita de emoção e o amor fala mais alto. Sabia bem qual o único lugar onde estaria feliz no Reveillon.

E é para lá que fui!

Foi para ele que dei meu último olhar de 2006 e o primeiro de 2007. Os últimos beijos, gozo e desejo de “amor e verdade”, e os primeiros de um novo ano. Ao seu lado comtemplei as últimas estrelas de um ano escuro, e o primeiro nascer do sol de uma fase de esperanças. Comecei o ano assim, feliz! Mas, sobretudo, leve.


Me leve ano. Me leve...

05 janeiro, 2007

Achada. Perdida.

Foto: Riva Spinelli


É em paz que me sinto aqui.
Enquanto meu braço enlaça tua cintura,
meu peito encosta em tuas costas
e meu nariz respira teu pescoço.

Aqui esqueço de tudo e vivo nós dois.
Nossos olhares e beijos em sorriso.
Vivo o que é de verdade.

É essa paz que justifica minha persistência,
que fortalece minha esperança,
que aumenta a tolerância.

É essa paz que me mantém ao teu lado,
que me dá a sensação de estar no caminho certo.
Ah! Paz insana!
Tão insana quanto eu!

20 dezembro, 2006

Para sempre


À Giu e Lu.
Porque eu acredito na eternidade no amor, e vocês assim serão.

"Tudo quanto na vida eu tiver
Tudo quanto de bom eu fizer
Será de nós dois

Uma casa num alto qualquer
Com um jardim e um pomar se couber
Será de nós dois

E depois, quando a gente quiser
Passear, ir pra onde entender
Não importa onde a gente estiver
Estaremos a sós

E depois, quando a gente voltar
O menino que a gente encontrar
Será de nós dois

E de noite quando ele dormir
O silêncio do tempo a fugir
Será de nós dois

E por fim, quando o tempo fugir
E a saudade nos der de nós dois
E a vontade vier de dormir
Sem ter mais depois

Dormiremos sem medo nenhum
Pois aonde puder dormir um
Podem dormir dois"

Canção de nós dois - Vinícius de Moraes

13 dezembro, 2006

Canção da partida


Não. Não quero mais saber de ti
Nem de seus passos
Nem de seus risos
Nem quero ouvir de tuas saudades

Não. Não quero mais me ver em ti
Sobre o teu peito
Sob teu corpo
Entrelaçada em teus lençóis

Não. Não quero mais lembrar de nós
De nossa casa
De nossos olhos
Do tempo em que eles eram só...

Só do outro,
Só felizes
Só verdade
E eternidade.

Não. Já fui embora, já esqueci
Não sonho mais
Não quero mais
A tua voz a me embalar

É. Estou seguindo por aí
Uma outra estrada
Que talvez
Me leve a um lugar de paz.

06 dezembro, 2006

Conselhos de fim de ano...

Foto: meu amigo Léo


Em meio à ventania
Manter-se firme
Deixar os cabelos balançarem
O corpo ser levado
Mas não cair!

Em meio à tempestade
Buscar refúgio
Algum ponto seco
Algum ponto a salvo

E quando não der mais
Render-se à chuva
Sentir a água no rosto
Abrir os olhos para assistir ao espetáculo
Sem temer o frio, nem a gripe.

Em meio à duvida
Ficar vazio
Esperar o tempo abrir
O destino agir
As soluções chegarem em forma de sonho
Entre conversas fiadas
Numa mesa de bar
No enredo de um filme bobo

Ficar vazio e esperar...
Em breve, tudo vai mudar.


Talvez eu tenha férias forçadas a partir de janeiro.
Alguém tá afim de uma prainha?

04 dezembro, 2006

Ainda sobre o amor...

A música do dia e mais uma definição sobre essa história de amar...

O velho e a flor

Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor
Assim falou:

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê
Em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia.
É uma alegria e, de repente,
Uma vontade de chorar...

Vinícius de Moraes



O que é, o que é?


O textinho abaixo não é meu. É de um grande amigo, Mauh Spinelli (esse ao meu lado na foto), mas que merece seu espaço hoje. Bem hoje!

"aí descobri, que amor não é nada disso...
que amor é outra coisa...
que amor não queima, nem congela, nem machuca...
amor não trai, nem usa, nem ignora...
amor te da certeza, te dá caminho, te dá a mão...
amor te faz dormir tranqüilo, te faz acordar feliz...
amor não tira o ar, nem os espaços, nem os momentos..
não te tira o amor próprio, nem os amigos...

o amor chega pra completar,
e, se um dia ele acaba, em nenhum momento te deixará incompleto...

esse "amor" que dói é ilusão, é doença, é tanta coisa...
só não é amor!!
e só depois que descobri isso, é que me senti livre para seguir..."

01 dezembro, 2006

Segredos...


Algumas músicas ainda não ouço.
Alguns lugares, não freqüento.
Algumas histórias, prefiro nem contar.
No mais, tudo bem.

Já acordo sem idéia fixa.
Já durmo (de madrugada, é claro!).
As lembranças passam por mim, mas não ficam.
E vêem sozinhas, sem a saudade.
Essa parece ter encontrado um refúgio no passado.
Em breve, será como tantas outras:
Mera recordação.

Já as músicas e os lugares, sempre terão uma referência,
Porque algumas coisas nunca mudam
Insubstituíveis, dizem...
Mas a saudade sempre muda de cheiro, de endereço, de cor.
A saudade é volúvel...
Sorte a nossa!

29 novembro, 2006

Do meu jeito


Às vezes escrevo com sorrisos nos lábios
Outras, com lágrimas nos olhos.
Franzindo a testa
Levantando as sobrancelhas
Sorrindo sozinha
Com vontade de chorar
Tudo no mesmo dia
Numa harmonia de gestos e sentimentos que só eu sei
Mas não explico, só conto!

O jeito de escrever denuncia a tristeza, a solidão,
A esperança de fazer diferente, a alegria de me surpreender.
Tem minuto que a vida é boa
E no seguinte, já não tem mais tanta graça assim.
E é nesse passinho manso que andam meus escritos,
Com o mesmo ritmo do coração:
Instável, confuso, adolescente!

Nostálgica


Às vezes a saudade aperta...
Geralmente, quando a solidão vira a marca registrada do dia.
Meses e meses assim, sem ter com quem dividir histórias, compartilhar planos.
Tarefa difícil para quem nunca esteve sozinha por mais de uma semana.
Agora o silêncio é rotineiro.
A noite é companheira.
E as músicas promovem quase um diálogo.
Todos passam tanto tempo ao meu lado quanto os cadernos e as canetas.
Os olhos pequenos arregalam e apertam conferindo se alguém chegou.
Ninguém!
Não! Não é tão mau assim!
Me suportar sozinha também é me saber um pouco mais auto-suficiente, reflexiva, crítica e, principalmente, exigente com quem pode invadir o meu espaço.
A parte ruim é não ter para quem me dar...
Então vou guardando sorrisos, contos, carinhos, desejos e poemas.
Como quem guarda um presente raro à espera do dono.
Sinto saudade deste “dono”, cuja face, desconheço.
Dos afagos que não recebi, dos beijos que não lhe dei.
Sinto saudade dele e de tudo de bom que sou, quando não sou sozinha.

20 novembro, 2006

Sem escolha


Entre todas as cores do mundo, escolhi você.
Entre todas as combinações de verdes, amarelos, vermelhos e azuis.

Você foi o eleito!
A cor dos seus olhos, dos pêlos, da pele.
Exatamente você.
Entre todos que já cruzaram o meu caminho.


Desde o primeiro encontro até ontem.
Desde o primeiro olhar à mais recente despedida.
Desde o primeiro beijo à saudade que sinto dele.
Apenas você foi o escolhido.

E me escolheu, pra fazer de mim uma morada,
Um corpo que te carrega por onde vou, por todo o dia,
Do primeiro ao último pensamento.

Você está.

Um carinho infinito.
Uma espera paciente.
O olhar mais terno.
Meu melhor sorriso.
Tudo seu.
Tanto, tanto, que nem sei mais onde esconder.
E fica tudo estampado no rosto,
Marcado nos gestos,
Levando meus passos sempre na direção dos seus.


Entre tantos sentimentos, o maior me escolheu.
A soma da admiração com o afeto,
Da cumplicidade com o companheirismo,
Da amizade com a paixão,
Da paz com o desejo.


O amor!
Esse sentir que nunca foi feliz, por que nunca foi inteiro.
Um sentir que por ser meu - e não nosso - mais parece uma criança que pede colo.
Mas que também sabe ser batalhador, persistente, descarado, sem vergonha de se mostrar.
Um sentir raro e belo,

Mas cansado de ser tão sozinho...

16 novembro, 2006

Enquanto


Pensamentos atormentados provocam insônia.
Meus olhos ardem, mas não fecham.
Esperam, atentos, o momento da chuva na alma estiar.
Mas o tempo ainda está nublado.
Aqui dentro, um diário, a TV sem som e eu,
Esperando a noite virar dia, pra tentar recomeçar.

10 novembro, 2006

Senta que lá vem história


Quinta-feira, primeiro dia do feriadão. 2 de novembro, 11horas.

Manhã muito quente (como vêm sendo todas esse mês). O sol começava a ferver o quarto e acordei. Tentei levantar, mas a cabeça ainda girava de tanta caipirosca ingerida na Toca da Joana, no dia anterior. Show de Bu Moraes e mais um (des)encontro nada romântico com o cachimblema. Sim, mas voltando à manhã de quinta, tentei de novo tirar a cabeça do travesseiro, lentamente. Talita acordou e ficou pentelhando pra gente ir logo porque as duas mães já estavam na praia nos esperando há horas!

Boa Viagem lotada. Dificuldade pra estacionar. Cadeiras todas ocupadas. Era quase uma da tarde quando conseguimos sentar na frente do Recife Palace pra jogar dominó. Nem pensei em tomar cerveja! "Traz uma água, moço!"

Era lua cheia e o mar sabia muito bem disso. "Tava virado", como diria minha avó. A maré estava enchendo e já havia carregado nossas sandálias umas cinco vezes. "Seguuuura!!!" Lá da minha cadeirinha, ficava olhando o povo se acabar debaixo d'água. Altos caldos. Todo mundo saia feito cachorro que acabou de levar um banho, sacudindo a cabeça, desorientado. "Melhor não entrar..."

Na areia, depois de ganhar três partidas de dominó, finalmente deitei pra descansar. Mas a prima de Talita começou a ter uma reação alérgica à água oxigenada que tinha acabado de pôr no corpo, e pediu para eu ir com ela até um chuveiro. "Preciso tirar logo isso!". Andamos um tempo e nada de chuveiro. "Melhor entrar na água. Eu te seguro. A gente agüenta", eu sugeri.

Gente!!!! A água não chegou nem no joelho e já começou a nos derrubar. Foi tanta da queda. Caí de queixo, de barriga, de bunda. Levantava e caía de novo, na mesma hora. Um desespero. "Vamos tentar sair!!!! Me segura!!!!" E quem disse que o mar deixava? Puxava a gente de volta pelas pernas. Foi aí que fui sugada. Parecia uma roupa de seda dentro da máquina de lavar em modo completo! Eu nem pisei no chão, mas senti muito bem quando o meu dedo do pé tocou na batata da perna. Dor do ca-ra-lho!!!!!


Assim que a onda baixou, falei pra prima de Talita. "Quebrei meu pé. Tenta me puxar daqui...". Que nada, ainda levei umas três arrancadas de Iemanjá. Até que consegui chamar um homem, que me carregou para a areia.

Depois disso, uma passada em casa para tirar os dois quilos de areia que estavam no biquíni e no cabelo, e logo segui rumo ao Esperança.

Diagnóstico: Tornozelo quebrado.

Tempo de castigo com gesso: dois meses.

Ontem voltei lá para uma reavaliação, morrendo de medo de entrar na faca. Mas o doutor reduziu o prazo do gesso para 45 dias e nem precisou colocar pino no meu pezinho. Espero estar nova antes do dia 8, para poder subir o Morro e agradecer a Nossa Senhora da Conceição pelo presente de um tornozelo quebrado.

Esse bendito pé tá doendo que só. Tem hora que vejo estrelas. Tô andando de muletas o dia inteiro. Uma dificuldade pra tudo, principalmente porque agora moro em um duplex, né? Mas eu sei que esse era o único jeito de reduzir o meu ritmo. Eu tava demais! Paquera demais, cada um mais alma sebosa que o outro (e eu deixando eles por perto). Cachaça demais! Chegando em casa às 5h da manhã, dia sim outro também! E ainda por cima, pensando que sofrer por ser traída era a pior coisa que poderia me acontecer.

Agora percebo que não é não! E só nessas situações extremas é que a gente enxerga com clareza as besteiras que andamos valorizando.

Então é isso. Pé quebrado. Muitos filmes locados todas as noites. Segunda temporada de Lost como grande companheira. Visita dos verdadeiros amigos (sim, porque os de farra vão esperar eu ficar boa para poder tomar uma). Trabalhando menos na Câmara. Saindo nada! Praticamente um retiro espiritual! E todo o resto no mesmo lugar de sempre...

Sem tirar, nem pôr.

08 novembro, 2006

Coisas do destino...


Essa semana fui forçada a pensar na força do acaso e em todos os elementos capazes de mudar nossa vida em fração de segundos.

Somos resultado de uma sucessão de “ses”, de cada escolha - por mais banal que ela seja - e também da combinação de cada passo dado com passos dos outros sete bilhões de habitantes da terra. A avaliação está matemática demais para uma jornalista, mas não dá pra ser diferente.

Hoje preciso divagar sobre a razão de estar aqui, de castigo em cima de uma cama por dois meses. Serão pelo menos 60 dias sem tocar tambor, pegar ônibus, correr da chuva, sambar na sexta-feira, usar o banheiro do primeiro andar da Toca, descer as escadas para atender ao telefone, lavar a sola do pé direito, tomar banho de mar, ir ao vucu, à auto-escola...

Ah! É coisa demais para abrir mão sem racionalizar um motivo para tudo isso acontecer justamente comigo, exatamente agora, precisamente no meu tornozelo!

Mas como calcular o acaso? Como controlar o destino? Como identificar uma coincidência? Certos acontecimentos estão além do controle humano, por mais atentos que estejamos aos sinais do Universo.

Feitiçaria, olho grande, destino, predestinação, falta de sorte, carma, acaso, coincidência, castigo, osso fraco, teimosia, lerdeza. Sei lá qual foi a razão! Só sei que não interpretei os sinais, e aqui estou!

Deve haver um motivo para eu estar naquele exato lugar quando a onda deu nó de marinheiro com meus dedos e minha canela. “Mas eu nunca vi ninguém quebrar o pé no mar!” É, talvez a probabilidade seja de uma em um milhão. A mesma de um raio cair dentro de um estádio de futebol lotado e atingir a cabeça do vendedor de flau (coitado). É de uma em um milhão, mas como vive repetindo Talita, “quando acontece com a gente é de 100%”.

Eu poderia ter acertado os números da Mega Sena, escolhido a cartela premiada do Pernambuco dá Sorte ou cruzado com Gianechini essa semana, enquanto ele curte a maior dor de cotovelo. Eu poderia ter feito um milhão de coisas no primeiro dia do meu feriadão. Inclusive viajado de moto mundo a fora, se meu novo ex-paquerinha não fosse tão relapso e desatento aos sinais.

Mas nããããão... Eu estava bem ali, no meio daquela onda! Pois é, acontecimentos estranhos são mais comuns do que imaginamos, e são eles que nos fazem refletir os detalhes irrelevantes da nossa vida.

..................

A verdade é que estou tratando isso como um desejo do Universo de reduzir o meu ritmo. Menos encontros com um cachimblema que vem tirando meu juízo, menos álcool consumido, menos possibilidades de pecar contra a carne... hehehehe E também uma chance de estudar coisas que deixei para traz desde que surtei, há três meses. Um tempo para mim, meus livros, minhas músicas, meus textos, minhas pinturas e, principalmente, para peneirar as pessoas que me amam. Vai ser importante ver quem vai ficar ao lado dessa aleijadinha no ano que vem, quando eu voltar a andar e sambar.

....................

Quer saber se eu estou p... da vida?

Claro que não! Tão mesmo é adorando ver minha coxa definida de tanto pular feito saci!

26 outubro, 2006

Escrito nas estrelas


Horóscopo do dia:
Alguém especial que pode mudar a sua vida vai cruzar o seu caminho hoje.

Conselho do dia:
Nunca duvide do seu horóscopo!

11 outubro, 2006

Retalhos


Pedaços de Paulo Leminski,
pedaços dessa Brisa

que está doida pra parar,
criar raízes,
virar flor!


Ler pelo não, quem dera!
Em cada ausência, sentir o cheiro forte
do corpo que se foi,
a coisa que se espera


Isso de querer
Ser exatamente
Aquilo que a gente é
Ainda vai nos
Levar além


"
Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha
".

"Distraídos venceremos"

10 outubro, 2006

Enlaçados


Simplesmente A-D-O-R-O casamento de amigos!
ADORO!!!!
E quando ele acontece nas circunstâncias do enlace de Ivanzinho e Carol, torna-se ainda mais inesquecível.

À beira da praia
Noite de lua cheia
Pés descalços
Cercada de grandes amigos
Cerimônia celebrada por gente como a gente, dessas que sabem tudo da história do casal, dos momentos felizes, do primeiro beijo, das pequenas picuinhas...

Emoção descontrolada
Muitos raspa-raspas de morango misturados com doses infindáveis de vodka
Abraços apertados
Pés enfiados na areia
Cantar músicas antigas
Dançar até cair
Até sentar de cansaço
E deitar a cabeça em um ombro
E se revigorar em carinho...

Casamento bom é assim:
Distribui tanto, tanto, tanto amor, que cada um pega um pouquinho.
Eu peguei a minha parte!
E ADOREI!!!!!

...............................................

Aos noivos, que cada palavra dita diante da Lua se eternize e tenha o dom de contagiar, sempre!

02 outubro, 2006

Nó na garganta (e no peito)

Triste. Não tenho outra palavra para o dia de ontem senão essa.

Muito triste um dia de eleição para presidente transcorrer assim: apático; gelado; sem cumplicidade ou companheirismo; sem estrelas distribuídas; sem bandeiras vermelhas sacudidas com orgulho; sem esperança.

Sou de uma geração filha da democracia. Assisti, desde criança, a alegria de meus pais pela conquista do direito de escolher os representar de seu país. Acompanhei minha avó às urnas, na época em que ela marcava um X na cédula ao lado do nome de Arraes e eu mesma colocava o papel na caixinha. Corri pela praia do Pina com uma bandeira na mão, cantando “Lula lá, brilha uma estrela”, e fiz o mesmo pelo Marco Zero, há quatro anos, quando, finalmente, ajudei a elegê-lo.

Naquele dia chorei muito. Um choro contido por anos e que agora podia sair para eu respirar novos ares, os ares de uma nova sociedade, de um novo jeito de fazer política e governar. O tão sonhado “do povo e para o povo” acabava de se tornar realidade e eu era protagonista dessa mudança. Cada brasileiro o era! “Vamos mostrar para essa velha turma da direita como é que o PT trabalha”, bradei de peito inchado de tanta alegria e orgulho.

Hoje tenho a triste sensação de que nada deu certo... Meus sonhos foram roubados e parece que meu dinheiro também. O dinheiro, graças a Deus, nunca tive muito, por isso nem sinto falta. Mas dos sonhos eu faço questão. É deles que sobrevivo. São eles quem trilham meus caminhos, colorem meus objetivos, me fazem encarar cada novo dia. Sem meus sonhos não sou inteira. Sem eles, não suportaria! E lendo algumas manchetes de jornais os vi me dar as costas.

Pela primeira vez não soube em quem confiar, em quem apostar minhas esperanças. Pela primeira vez cogitei não usar estrelas esse ano, não votar em Lula, abrir mão daquele direito que sempre comemorei tanto! Mas meus limites largos não valem apenas para os relacionamentos amorosos, e foram eles que me fizeram repensar. Então, vesti meu traje vermelho, encarei quase uma hora de fila na minha sessão sempre lotada e cliquei 13 tantas vezes foram possíveis.

Já perdoei falhas piores que a de não saber. Não quero julgar se Lula é culpado ou não. Definitivamente, não creio que seja minha função. Meu voto não foi para o réu público Lula, foi para o presidente que, mesmo quando ninguém acreditava ser capaz, colocou o Brasil numa situação bem mais confortável do que estava quando ele assumiu o cargo: mais emprego, mais investimentos em programas sociais, menos miséria, menos dívida externa, menos risco país, menos inflação, mais confiança dos investidores, mais indústrias, mais reforma agrária. Foi essa conta que assegurou o meu voto.

Mas hoje, com Lula sendo levado a disputar o segundo turno com alguém tão inexpressivo e despreparado quando Alckmin, o povo quis mostrar que fez uma outra conta: mais corrupção e acordos ilegais descobertos, mais envolvidos ligados ao PT e ao Governo, mais podridão num lugar considerado limpo, menos ética, menos confiança. Triste...

Triste o povo brasileiro – tão cheio de esperança e de vontade de provar que acertou na escolha, há quatro anos – ser obrigado a puxar a orelha do presidente por ele não ter feito o dever de casa. Triste nosso voto ter sido de protesto e não de fé. Triste as ruas caladas e sem cor, um dia inteiro sem abraços e sorrisos. Na hora em que todos deveríamos comemorar o direito de usar a voz, fizemos um luto mudo, cumprimos o nosso dever de cidadão como quem é obrigado. Tristes!

Provavelmente Lula será reeleito no dia 29. Mas espero que tenha compreendido o recado das urnas. Não queremos mais um mito, essa imagem já se desfez depois de tantas acusações. Queremos um chefe de Estado que, além de manter o país equilibrado social e economicamente, também o faça politicamente. Queremos um presidente de alma boa, mas, sobretudo, de mãos limpas, porque queremos apertá-las, para ter a certeza de que fazemos parte do mesmo time.

29 setembro, 2006

Encourados


Tantas vidas seguem entre a seca, os arbustos, as cores quentes do Sertão.
Entre conversas na porta de casa, cigarros de palha, padroeiros e orações.
Com meninos brincando na terra e homens tirando dela o sustento.
Plantando e torcendo pra chover.
Montando em boi, sangrando e curtindo.

Sobrevivendo da força da fé.

A minha segue por aqui.
Vermelha, da cor da eleição.
Tranqüila, mas com alguns espirros.
Com pouco trabalho, pouco dinheiro e muitos amigos.
Sem uma grande paixão, mas com grandes fantasias.

Sobrevivendo da força da fé.

22 setembro, 2006

Olhos nos olhos


Bem naquele dia, quando eu estava vestida de jeans e camiseta, cabelos presos, sem nenhuma maquiagem e com um chinelo velhinho no pé, ele apareceu.

Poucas vezes esteve por ali. Há meses não o via pelo Recife. Na verdade, fui até Garanhuns à sua procura, e nada! Mas, agora, ele estava lá: lindo, enorme, doce com sempre.

Restava apenas que me visse. Sim, claro! Precisava me ver de novo, saber que estou mais livre que uma brisa de setembro em fim de tarde.

A poesia de Vinícius enebriava a noite mais que o álcool em nossos copos. A flauta ditava o ritmo. A emoção contagiava a todos. Foi então que ele me viu! E viu mesmo!!!!

Depois, os sorrisos diziam mais do que a conversa mole, e os olhos brilhavam...
...com a esperança de poder recomeçar.

"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar.


Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar"

Tom Jobin

.....................................................

Tive que usar o poeta. Porque nada mais traduziria o hoje, além de palavras que já foram escritas...

Enfim, em paz


Eu ando assim, feito o mar desta tarde.
Tão constante, tranqüilo e paciente
Que deixa a impressão de estar parado.

As ondas passeiam lentas,
Sem querer ser percebidas
Como quem cansou de demonstrar poder
E agora revelam serenidade em um perfeito balé.

Elas sabem que em algum momento do dia
Um passante mais atento vai olhá-las em calmaria e,
Talvez por isso, ouse tocá-las.
Porque só os aventureiros e loucos enfrentam o mar bravio
E o tempo de aventura acabou.

Como o mar, guardo meus segredos e artimanhas,
Meu sal, meus perigos.
Mas tenho esse jeito manso
Um convite a tempos de paz.

15 setembro, 2006

Lá vai o sol...


De volta pra casa, uma lembrança do fim de tarde.

13 setembro, 2006

Bons sonhos


Árvore

Tranqüilidade de espírito.
Vitória nos negócios.
Realização de um sonho para breve.


Obaaaaaaa!!!!!!!

12 setembro, 2006

A Excelência do Amor


Pra não ficar baixo astral
Nem parecer tão triste
Um pouco dos sorrisos do fim de semana.

A festa começou em Bezerros, mas terminou em Gravatá, na casa da família Moraes. Forró bom, samba melhor ainda, cerveja até dar uma dor, amigos, amigos, amigos! Farra e emoção - muita emoção.

Também, com um sermão desse, não tem como não pensar na vida...
... e no amor!

O amor é paciente
O amor é bondoso
Não é invejoso
Não é arrogante
Nem orgulhoso.

O amor tudo perdoa
Tudo crê
Tudo espera
Tudo suporta.

O amor nunca passará.
Agora três coisas permanecem:
A Fé, a Esperança e o Amor.
Mas a maior delas é o Amor
”.


Para Alessandra e Gerrá, que sejam felizes para sempre!

Amém!

Um tanto só


Penso na vida.
Choro a vida.
Uma vida que não está fácil
Nem feliz
Nem sã.

Uma vida de pensamentos distantes
E angústias vizinhas
Sem paz
Sem companhia
Sem lugar no mundo.

Mas que eu sigo
De olhos vendados
Tateando
Esbarrando
Tropeçando.

Escrevo a vida
Invento histórias
Vivo mentiras
Construo fantasias
E destruo parte da solidão.

Pinto a vida
Apago as lembranças
Borro os desejos
Desvio das verdades
E me deito mais uma noite...
... com a saudade.

31 agosto, 2006

Sentidos


O Recife cheira a suor, que escorre nos rostos de baixo do sol quente, que ensopa as camisas dos trabalhadores. Cheira a esgoto nos becos, a cana em botecos, a comida caseira nas esquinas e a laranja cravo em tabuleiros.

Recife tem cheiro de terra molhada e mato verde. Cheiro de castanha, de palmeira, de pinhão e jaqueira.

Recife cheira a escape, chourume, pneu e lixo queimado. Sufoca com fumaça de automóvel e alivia com a de nebulizador. Cheira a melancia e sal em Boa Viagem, a peixe em Brasília Teimosa e a lama na Rua da Aurora.

Recife cheira a arruda e flor do campo, a óleo na bênção de São Félix, a caldo de cana no Mercado de São José. É feito de igrejas e pontes, de todas as cores, levando a qualquer lugar, a algum recanto de Deus.

Minha cidade tem cheiro de cocada, galeto na brasa e churrasquinho, de abacaxi na praia, milho e amendoim. Tem tambores de maracatu ensaiando para o carnaval e grito de “é um real” e “ingresso sobrando eu compro”.

Recife é pipoca na porta do São Luiz, é cerveja no Marco Zero, é papo cabeça no Cine PE e música boa no Seis e Meia.

Recife é escolha: Cabeleireiro ou barbeiro. Mac Donalds ou Mercado da Encruzilhada. Boi Preto ou Seu Vidal. É prédio alto e morro mais alto ainda. Vida boa em Casa Forte, e ainda melhor em Casa Amarela.

Recife tem cheiro de cola de sapateiro nas mãos dos pivetes. Aceno de “não” a cada sinal, vidro fechado, ar ligado, tensão nas ruas, ultrapassar sinal vermelho. É medo e vontade de fugir. Mas também é lindo.

No sorriso banguelo das crianças, na garra do povo, no passo paciente dos velhos. É lindo no céu azul limpinho, na fé em ganhar no Pernambuco da Sorte, nas sacolas de feiras lotadas de frutas, no jogo de cintura dos ambulantes, na emoção do Arruda lotado.

Recife é tudo que vejo, tudo que sou, a cor da minha pele. Aquilo que me faz mais feliz, mais forte, mais apaixonada. É o lugar onde quero acordar a cada manhã, e talvez, pra sempre.

28 agosto, 2006

Nova estação


Meu aniversário
Algumas caipiroscas
Grandes amigos
Burburinho

Música alta (bem alta)
Saudade de Tê e Lu, de Mabi e Bá
Ausência de Al
Gabi presente
Sem ele
Sem vontade alguma de ter ele (oba!)

Amassada de tantos abraços
Taça esborrando de bons desejos
Boas energias
Bons olhares

Eu, completa
Inteira
Madura
Segura
Feliz
Plena de esperanças
Levemente tonta
Absurdamente serena

Bolo recebido de presente
Pedido de paz às velinhas
Cobertura de chocolate
Lambida de dedo
Muitos encontros
Conversa fiada
Tranqüilidade
Certeza:
Será massa ter 28 anos!

23 agosto, 2006

Frase do dia


Vamos beber...
Vamos sambar...
Vamos fazer a vida andar...

18 agosto, 2006

Achado


Passeando em Porto, entre sorvetes e surfistas, ela chamou minha atenção. Ao longo do dia, já havia me encantado com vestidos, biquínis, barrigas morenas, olhares curiosos e com uma rede cor-de-laranja que ficaria fantástica em meu novo quarto, mas, a princípio, confesso, não a percebi.

Fazia tempo que não ia até lá. As ruas agora são exclusivas para os pedestres. Os carros não têm mais vez, estacionam pelas redondezas. Construíram várias pracinhas charmosas dividindo e colorindo a passagem, pintaram e reformaram todas as casas – até as mais simples. A cidade, mais do que nunca, parece ter sido feita para encantar e deixar a todos com saudade na hora de partir.

Fiz aquele mesmo caminho dezenas de vezes por diversas razões, ao longo de minha vida: paquerar, namorar, jantar, tomar sorvete, comprar artesanato, chegar à praia, beber Carreteiro, curtir a um show. Mas nunca a havia visto ali, bem no meio do caminho. Na verdade, nem sei se ela existia. Pelo tamanho e a pintura recente, talvez seja mesmo mais uma das novidades do lugar.

Estava aberta. E como sentia meu coração fechado, as portas escancaradas me pareceram um convite a uma visita. Lá fui. Entrei com o pé direito, pedi licença e me emocionei com tanta simplicidade. “Os simples de coração são queridos por Deus”, diz sempre um amigo meu. Ao centro, uma cruz, um altar modesto e uma imagem da Virgem de Fátima abençoando o espaço pouco maior do que ela.

Como deve ser, fiz os tradicionais três pedidos concedidos a todos que entram pela primeira vez em uma igreja. Certamente, naquele silêncio, um anjo de passagem deve ter me ouvido. Em tempos de mentira, Porto foi um presente de Verdade na minha vida. Deixou a certeza de que não estou sozinha e que ainda há muitos caminhos coloridos a percorrer.

Ah, os pedidos! Esses eu não conto. São segredos entre mim e o céu.

17 agosto, 2006

Por hoje

Sou músicas
Retratos
Vestidos

Borboletas e
Flores.

Sou cores:
Rosa sempre
Laranja às vezes
Tricolor há pouco tempo.
Sandália havaiana,
Salto alto
Baque na rua.

Sou romance
Observação
Abraço
Carinho nos cabelos
Conversa fiada
Papo cabeça.

Sou poesia
Caminhada na praia
Medo de bola e de tubarão
Garrafa d’água
Aula de Português
Aula de percussão.

Sou janela quebrada.
Chocolate alemão
Vinho tinto
Caminho sem destino
Olhar ao longe
Óculos escuros.

Sou espera
Perdão
Angústia
Decepção.

Sou desejo que o tempo leve
Que a vida cure
Que a alma limpe
Os olhos sequem
O sorriso surja
E a chuva passe.

16 agosto, 2006

Desafinada

Quero fazer um samba alegre
Um batuque em clima de domingo de sol
Mas meu pandeiro não vibra
O tambor está rouco
Violão, não tenho quem toque
E no lugar da cuíca,
Quem chora sou eu.

Quero fazer um samba alegre
Mas só faço lamentos.


...............................................................

"Silêncio, por favor, enquanto esqueço um pouco a dor no peito"

Entre homens e fadas


Meus amigos são feitos de uma matéria especial: algo entre os homens e as fadas. Têm uma varinha mágica nas mãos e o poder de transformar solidão em companhia. Eles não aparecem sempre que espero, mas nunca faltam quando preciso. E, quando chegam, renovam minhas forças, ouvem meus lamentos, não criticam meus erros, mostram-me outros caminhos e levam-me com cuidado a um lugar seguro, como se a simples presença deles pudesse me proteger de todos os males. Foi assim esse fim de semana que, de fadado à dor, transformou-se em alegria.

Cerveja preta e conversa mole varando a noite. E o novo dia começa na estrada, rumo ao mar. Sol morno, boa música, novos e velhos amigos contando histórias e fazendo sorrir. Praia. Paisagem. Paz.


Mais conversa mole e cerveja preta até chegar o pôr-do-sol em ritmo de bolero. Mãos dadas. Cheiro na flor do pescoço. Surpresa. Noite feliz. Talvez precoce. Talvez precisa. Sem pretensões, como deveria ser tudo na vida.

O sol que nasce vem dar um outro bom dia, rumo a outros mares. Mais estrada, os mesmos amigos. Mergulho em águas novas e limpas. Vento no rosto. Brincar tal crianças e peixes. Soltar os cabelos. Respirar a brisa. Dormir exausta e muito feliz.

A vida acaba de recomeçar (de novo).

À Talita, a fada do fim de semana.

08 agosto, 2006

Rumo certo


De volta ao colo
De volta ao carinho
De volta ao abraço que sempre foi meu
No mesmo sorriso
Com a mesma alegria
Como se o tempo não passasse
E o amor parasse o futuro
Pra se eternizar em nós
Todo dia.

Encontro

Recife, 3 de agosto de 2006

Te tive sob minhas lentes
ao acordar, gargalhar
caindo em pranto
fazendo charme.
Tantas, tantas vezes
despenteado, barbado, safado
desprotegido, cansado, molhado
Mil olhares, incontáveis momentos.
Em cada encontro,
a alegria de me saber em você.
Em cada olhar,
teu amor de volta.
E talvez seja assim pra sempre.
Ao menos até hoje nada mudou.

01 agosto, 2006

A vida é um pneu furado



Como todos sabem: capotei!

Não foi só naquela noite na estrada, por causa de uma “tartaruguinha” furadora de pneus. Capotei minhas férias inteiras! A cada dia, a cada instante.

Um mês inteiro me debatendo contra a vida, sacudindo o corpo, desorientada, com a vista turva - porque o óculos voou longe no primeiro sacolejo. Com os pés descalços, sem saber onde guardar a bagagem, nem onde me abrigar pra seguir a viagem.

Primeiro, ouvi aquele som estranho, sinal de que alguma coisa não está indo bem. Depois, foi tudo muito rápido, só vi o mundo todo girando e a sensação de não haver mais nada que eu pudesse fazer para mudar meu destino ou pelo menos o final daquele acidente de percurso. Estava tudo acabado! Ribanceira abaixo, parei. Tonta, cega, trêmula, nervosa, com medo do escuro, mas sem nenhum receio de ir em frente.

Sim. Capotei todos os dias. Mas, diferente daquele carro, eu estava sozinha, e até gritei. Ninguém ouviu.

Agora passou. Sem dores no corpo, com as últimas marcas desaparecendo, me preparo pra outra viagem. Tem outro dia vindo por aí.

Vaga lembrança


O amor passou por aqui.
Foi tão rápido e devastador, que alguns nem acreditam.
Eu sei que passou. Porque não sou mais a mesma.
O amor arrancou minhas roupas e minha paz
me tirou do rumo, me levou de casa, me largou na rua.
O amor calou meu Carnaval e ofuscou minha folia
rabiscou meus papéis e secou meus tinteiros.
O amor me mostrou o poder da verdade e a dor da mentira
me pôs em pecado, enfraqueceu minhas orações, fortaleceu minha fé.
O amor despenteou os meus cabelos, suou meu corpo

e estremeceu minhas pernas, depois, me despertou com um sorriso,
sambou no meu juízo, cantou pra eu dormir e,
enquanto sonhava, ele fugiu, covarde,

sem sequer dizer adeus.

18 julho, 2006

De luto


O que fazer senão chorar a morte de um amor?

A morte do meu amor eu choro com desespero e convulsão. Arranco cabelos, rasgo a pele, grito alto pra pôr pra fora toda a dor (porque por algum lugar ela há de sair).

Na morte do meu amor, meu corpo estremece solitário, vaga sem norte, como quem ainda procura o velho porto seguro. Olho o cadáver do ser amado, acaricio seu rosto, mas seu semblante não mais se ilumina com meu carinho, nem seu corpo se arrepia ao meu toque. Então, desisto, volto a chorar. De todos os meus poros saem lágrimas. A alma precisa ser limpa, a pele, lavada.

Tudo no mundo é finito, exceto as histórias de amor. Elas permanecem, mesmo quando ele, o próprio amor, já foi. Histórias sobrevivem em detalhes que não conseguem ser esquecidos, em cheiros, em músicas, em lugares, no pôr-do-sol, na lua cheia, num sabor, no brilho do olho direito. E quando não há mais o que escrever, além de “fim”, há de se chorar. Deixar todos os sentidos penarem pela ausência de novos capítulos, até se acostumarem com o inevitável: é preciso começar de novo. Outra história. Outro amor. Sim, e claro, outro fim.

Qualquer dia desses, com o corpo erguido e o rosto limpo, inicio outro livro. Hoje não. Ainda não. Hoje eu só quero chorar bem alto essa saudade que acelera o coração e dá uma fisgada na coluna a cada lembrança. Quero ser criança assustada, com medo do escuro. Quero fazer manha, pedir colo, dizer que não sei para onde ir.

Quero chorar a morte do meu amor como quem chora o fim da minha ilusão, da minha derradeira alegria, da minha própria vida. Pra um dia, breve, ainda no inverno, minha alma serenar e musicar alguma coisa mansa, lembrando que o amor passou, mas eu fiquei.