26 outubro, 2007

A busca


Sentou no bar e pediu a de sempre
Sorveu cada gota doce que lhe passou pelos lábios
Quem dera uma vida com o mesmo sabor...
Por hora, mais lhe lembra o gelo,
Incomodando a garganta, trincando os dentes.
Bebeu tudo bem rápido,
Com a sede de quem precisa perder logo a razão
Pediu outra, e mais outra.
Ainda entendia tudo.
Cada cor, cada palavra, cada olhar fazia sentido.
Os enxergava com tanta clareza, que preferiu parar.
Foi buscar outro caminho para longe da verdade.

23 outubro, 2007

Transcender


Enquanto a terra desaba em tempestade
Ela pára e olha o céu
Um novo céu, limpo, num tempo de brisa
E se só ela o vê, deve estar em outro mundo
Não pertence mais àquele
A menina virou poesia.

18 outubro, 2007

Simples asssim

Há tempos não fazia isso: o exercício não físico, mas espiritual de me integrar à terra, ao mato, àquilo que não precisa de adorno para ser verdadeiramente belo.

Pra começar, uma viagem sem engarrafamentos até Bezerros, de onde seguimos à Serra Negra. Logo na chegada, me encantei com um teatro daqueles que só tinha visto nos livros de mitologia grega. Daqueles em formato de meia lua, ao ar livre, projetado para levar o som até o espectador mais distante. Pisar em um palco como esse foi especialmente mágico. Na hora, não contei pra ninguém, só me transportei em silêncio até um tempo que não foi meu, mas está em mim.

A partir do palco, que também era mirante, teve início a trilha. Casas, jardins, pedras, grutas, bichos e nós, como crianças descobrindo um mundo novo. No rosto das pessoas que passavam, a mesma cor vermelha da terra pisada; nos gestos, a simplicidade; em tudo, encontros com pedaços de mim: a menina índia que mora no corpo amarelo da jornalista, de face grosseira e os olhos rasgados.

Todos os dias uso artifícios para disfarçar minhas origens. Para ser mais urbana, tiro os pés do chão e calço saltos. Para ser mais comum, desenho novos olhos, que parecem ser maiores. Ali, caminhando ao lado de meu franzino guia, só queria me encontrar.

A busca foi recompensadora. Chegamos a lugares lindos. A porta do vento, porque parece uma porta e faz vento. A pedra da escada (e não vou nem explicar o motivo do nome), a gruta do amor, o pau casamenteiro, a casa colorida, o papagaio que faz pose para a foto, os patos autistas, a pescaria numa poça entre pedras.

O pôr do sol indicou o caminho de volta e descanso já estava garantido. Nos hospedamos no melhor hotel de Bezerros! O quarto escolhido tinha vista para a praça, que nesse fim de semana transformou-se em pátio de eventos e ficou lotada. À noite, as crianças deram um show em cima do coreto, enquanto os adolescentes jogavam todo seu charme vestindo suas melhores roupas.

Resolvemos entrar no clima e seguimos rumo à festa. E como quem encara a maior das aventuras, pagamos a altíssima quantia de um real e cinqüenta pelo ingresso e giramos por quase meia hora na roda gigante, a principal atração do local. Ela, com ares de pouco confiável, nos encantou com suas luzes e cores, e nos levou a um canto mágico, há tempos esquecido.

Infantes, ali ficamos deixando o vento bater no rosto e a vida girar rápida e sem a menor pressa de parar.

16 outubro, 2007

Amadora

Foto: Léo

O sofrimento é fotogênico
E a dor, musa inspiradora.
Mestres precursores da arte
Incitadores da verdade.

Dos maiores vazios
Das avassaladoras paixões
Das mais devastadoras saudades
Nascem as palavras que se eternizam

O cotidiano e a rotina
Alimentam a banalidade
A mesmice não fecunda a alma
Porque a poesia nasce da pele em chamas.

Eu, poeta,
Quero versos eternos.

Eu, amadora,
Preciso ser amante e amada
Para escrever; para sobreviver.

08 outubro, 2007

Dela

D. Carmelita e Guilherme, o 3º. de cinco bisnetos

Ela é linda. Em seu caminhar manso, em seus olhos brilhantes, no sorriso sempre discreto. Mas tamanha delicadeza não a descreve com perfeição. Apesar de pequena e esguia, seu porte e até a forma como senta ou carrega a bolsa já demonstram altivez e parte de sua força. Não lembro de ter conhecido nada nem ninguém que me emocionasse mais que a presença dela: Dona Carmelita.

Para qualquer outro, mais uma avó deseducadora e irresponsável como tantas outras em um subúrbio do Recife. Para mim, o mais forte impulso; o melhor exemplo; a educação reta, mas divertida; a compreensão larga; a sabedoria personificada; o maior do amor. Eu, essa cria por ela moldada.

Desde criança sempre soube que quando não conseguisse mais administrar meus problemas, voinha encontraria uma forma de interceder e resolvê-los. Procurava não abusar, mas sei que dei bastante trabalho e lhe privei de várias horas de sono.

Hoje, mulher feita da matéria dela, até tento esconder minhas dores para poupá-la, mas a danada descobre. Outro dia, uma cartomante me disse que sou bruxa, “como sua avó”, arrematou. Não duvido! D. Carmelita é de uma sensibilidade assustadora - nada lhe escapa - além de deter o poder de ler meu olhar mesmo quando minha boca tenta mentir.

É assim que ela continua me salvando todo dia. E se, às vezes, me acho forte por apoiar seu braço para que não caia na rua, logo vejo que isso não é nada, porque é ela quem segura meus tombos, cada vez maiores.

Tenho comigo o que tantos mortais sonham em ter a vida inteira: um super-herói particular, um anjo que me recebeu como mãe, de braços e corações abertos, que nasceu para fazer de mim uma mulher melhor.

07 outubro, 2007

Sem querer


Distraídos que se olharam
Não sentiram
Mas deixaram no rastro, um cheiro doce
E um ar de contemplação
No rosto de olhos rasos.

Distraídos que tocaram
Além dos corpos
Marcaram a fogo a pele morena
E com traços de anjos caídos
Pintaram poesia sobre a razão.

Distraídos que se ataram
Sem maldade
Como quem nasce do outro
Do mesmo sangue e carne
De iguais sinais no universo.

Distraídos, coitados, distraídos
Entregaram
Até o que não lhes pertencia
O rumo, a paz, o tino
E uma desconhecida verdade.